“O maior inimigo do meio ambiente é a pobreza” disse Paulo Guedes, em Davos. E acrescentou: “Destróem tudo porque têm fome”

Na manhã de ontem, nosso ministro da economia fez uma declaração infeliz em sua primeira participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, que, para celebrar 50 anos de existência, escolheu a sustentabilidade como tema-chave, destacando a preservação ambiental. Paulo Guedes disse que “o maior inimigo do meio ambiente é a pobreza” e que os pobres “destróem porque estão com fome“.

Sua intenção com essa declaração foi revelada logo a seguir, quando afirmou que o mundo precisa de mais comida, defendendo os agrotóxicos – ou defensivos agrícolas como o governo e os ruralistas preferem chamar.

(Vale lembrar que, em 2019, o Brasil bateu recorde na aprovação de agrotóxicos. Foram 474, o maior número já registrado pelo Ministério da Agricultura, sendo 26 inéditos e 448 genéricos, ou seja, cópias de princípios ativos, feitas quando cai a patente, ou produtos baseados em ingredientes já existentes no mercado)

Guedes teve menos tato que o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, quando, em dezembro, disse praticamente o mesmo, em outras palavras: “Temos que encontrar a origem do aumento do desmatamento, que está, entre outras razões, na falta de desenvolvimento econômico sustentável para os mais de 20 milhões de brasileiros que vivem na Amazônia”.

O ministro da economia ignora que o que destrói o meio ambiente é o desenvolvimento econômico sem limites, que aumenta a desigualdade e a miséria, como revela o novo relatório da Oxfam, divulgado esta semana em Davos. A concentração de renda cresce no mundo – o número de bilionários duplicou, No Brasil, a desigualdade aumentou com Temer e disparou com Bolsonaro. Mas, sempre que tem uma oportunidade, o presidente se gaba de seu plano desenvolvimentista para o país. Foi assim quando fez um balanço dos 100 dias de seu governo.

A declaração ganhou repercussão negativa entre os participantes do fórum, como o ativista americano Al Gore, que dividiu o palco com o climatologista brasileiro Carlos Nobre, da pesquisadora americana, especialista em primatas, Jane Goodall e do presidente da Colômbia, Ivan Duque, num dos debates mais interessantes do dia, sobre a Amazônia.

“Hoje, é amplamente entendido que o solo na Amazônia é pobre. Dizer às pessoas, no Brasil, que elas vão chegar à Amazônia, cortar tudo e começar a plantar, e que terão colheitas por muitos anos, é dar falsa esperança a elas”, declarou, complementando: “Há, sim, respostas para a Amazônia, mas não é esta”.

Os ricos estão devorando o planeta

Especialistas em meio ambiente e economia sustentável também se manifestaram, como mostra a reportagem publicada hoje no portal UOL: “os grandes vilões são, na realidade, pessoas com grande poder aquisitivo“.

No que tange à Amazônia, por exemplo, o aumento do desmatamento se deve a ação de grandes produtores rurais, não dos pequenos que, em geral, derrubam a mata para sua subsistência, o que representa muito pouco do total. O climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudo Avançados da USP e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, convidado para falar em Davos sobre desenvolvimento sustentável na Amazônia – uma de suas grandes bandeiras -, confirmou essa realidade em reportagem publicada hoje pelo UOL: “O desmatamento na Amazônia não é associado com o pequeno produtor. Certamente, acima de 70% do desmatamento vem do agronegócio”.

Natalie Unterstell, especialista em políticas públicas, desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas, comentou sobre isso para o UOL. “Sabemos muito bem, por experiência aqui no Brasil, documentada em inúmeros estudos, que quem desmata hoje, por exemplo, na Amazônia, não é o empobrecido. Para desmatar você precisa comprar trator, contratar gente, viabilizar logística numa região extremamente complicada, que é nos rincões da Amazônia”.

Na mesma reportagem (recomendo a leitura), Alexandre Costa, especialista em clima e professor da Universidade Estadual do Ceará, rebateu Guedes, dizendo: “Os ricos estão devorando o planeta e o resultado da desestabilização do clima e da destruição dos ecossistemas será justamente mais fome e mais miséria sobre quem menos tem responsabilidade por isso”.

É importante considerar também a forma como este governo entende a vida dos povos tradicionais. Para Bolsonaro e equipe, os povos indígenas, por exemplo, vivem na miséria porque moram em ocas de palha, andam descalços, com os pés na terra, não têm carro, roupas, e não usufruem das benesses do consumismo. Por isso, ele repete que quer inseri-los na sociedade porque é o que “eles querem”.

Ou seja, parece que ele deseja, profundamente, transformar os indígenas em consumidores. Com que renda, não se sabe – visto que a maioria tira seu sustento da terra -, nem em que planeta, já que não há um segundo à disposição e o nosso não dispõe de mais recursos naturais para isso. Como sempre, nosso presidente atua na contramão do espírito do tempo: quer desenvolver o país, não importa o meio ambiente.

Fontes: Folha de SP, UOL

Foto: Divulgação Fórum

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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