O legado e a sabedoria das civilizações da Amazônia

indio da amazônia

Virgem e intocada já foram alguns dos adjetivos utilizados para se referir à Floresta Amazônica. Entretanto, achados arqueológicos das últimas décadas comprovam que antes da chegada dos europeus, a região foi habitada por milhões de pessoas, pertencentes a civilizações altamente organizadas e avançadas.

Os vestígios arqueológicos são uma prova da inexistência de um ambiente intocado e mostram como há milhares de anos o homem conseguiu habitar e explorar a floresta de maneira sustentável

Para falar sobre este passado, o Conexão Planeta reuniu Denise Schaan, PhD em Antropologia e Arqueologia, uma das maiores especialistas brasileiras, se não a maior, na pesquisa arqueológica na Ilha do Marajó, e a jornalista e produtora Raquel Toniolo, brasileira que vive em Londres, que já dirigiu treze documentários sobre a Floresta Amazônica, entre eles, séries para os canais de televisão BBC (você pode assistir ao documentário neste link), Discovery Channel e Animal Planet.

Na entrevista abaixo, Raquel e Denise falam sobre as descobertas na Amazônia e o legado de sustentabilidade que as antigas civilizações deixaram para o futuro da região.

Quando foram encontrados os primeiros indícios de que a Floresta Amazônica não era virgem e intocada?
Raquel – Na Amazônia Brasileira, as evidências começaram a ser encontradas por pesquisadores americanos nos anos 40, mas foi só com a exploração dos arqueólogos brasileiros, na década de 80, é que descobriu-se quão sofisticadas tinham sido as civilizações que habitaram a região. Foi nessa época que a terra preta (terra extremamente fértil produzida com lixo orgânico, carvão e restos de cerâmica) começou a ser estudada como um produto feito pelos indígenas.
Denise – A partir dos trabalhos de William Denevan, geógrafo que começou a pesquisar a Amazônia Boliviana no começo da década de 1960. Um funcionário de uma empresa de petróleo havia sobrevoado a área antes e visto estruturas que não eram naturais. Depois disso, constatou-se que eram quilômetros de campos elevados para agricultura. A partir dessa notícia, Denevan também sobrevoou o local e começou a estudar, identificando canais, caminhos elevados, mounds (colinas, morros) para moradia, valetas marcando recintos circulares. Tudo isso tinha sido construído nas savanas alagadas de Mojos. 

Quais foram os principais achados arqueológicos que comprovam essa hipótese?
Raquel – Os principais achados arqueológicos brasileiros (mas existem muitos outros na Bolívia, no Peru e nas Guianas) são a terra preta, que se distribui ao longo dos Rios Madeira, Amazonas, Negro e Tapajós e que coincidem com os mesmos locais descritos pelo conquistador espanhol Francisco de Orellana (um dos primeiros a atravessar a Amazônia inteira, que fez relatos fantásticos sobre civilizações e cidades que se estendiam por milhares de quilômetros). Outro achado famoso é o dos geoglifos (desenhos geométricos feitos sobre o solo em grandes dimensões), em uma área enorme, com mais de 200, encontrados na região do Acre e do Amazonas. Foi na década de 70, quando o governo militar começou a abrir a Amazônia para desenvolvimento, o desmatamento fez aparecer os geoglifos. O que se sabe hoje é que para eles serem feitos foi necessária uma quantidade enorme de pessoas para conseguir escavar aquelas formas geométricas.
Denise – As obras de terra encontradas em várias regiões amazônicas, como campos drenados, montículos e campos elevados agrícolas, lagos artificiais para manejo de peixes, mounds para moradia, valetas geométricas … Tudo isso implicava grande organização de trabalho e todos esses indícios foram posteriormente cobertos pela floresta, que até então se pensava prístina.

Em que estados e regiões se tem a maior evidência de que houve grandes populações vivendo lá?Raquel – Acre, Amazonas, Pará e Mato Grosso.
Denise – Na ilha de Marajó, em Santarém e ao longo do platô de Belterra, que margeia o Tapajós, na região de Manaus, no Beni e Mojos na Bolívia, na Amazônia Equatoriana, no alto Xingu, em várias regiões do Amapá e também ao longo dos rios Trombetas e Nhamundá.

Como foi a ocupação na Ilha de Marajó?
Raquel – A sociedade de Marajó é considerada uma das mais complexas e avançadas. Como a ilha é governada pela água, sofre constantes inundações, entretanto por ser plana, essa sociedade para se adaptar criou morros artificiais onde havia terra firme durante a época da chuva, que dura cerca de cinco ou seis meses. Os arqueólogos acharam lá algumas das cerâmicas mais elaboradas da América do Sul. São policromadas, característica comum de outras cerâmicas encontradas na Bolívia e no Caribe. São indícios de uma sociedade organizada, avançada e com fortes tradições e crenças culturais. Acredita-se que essa civilização ocupou a ilha de Marajó por aproximadamente 900 anos.
Denise – As primeiras ocupações datam do ano de 3.500. A partir do início da era Cristã, se intensifica a exploração de peixes nos campos alagados, que começam a ser manejados com a construção de barragens e lagos. A abundância de alimento leva ao aumento populacional e alguns líderes assumem posições importantes para organização da produção e defesa dos criadouros de peixes. Cria-se um sistema religioso baseado na adoração de ancestrais e seres que protegem os peixes, garantindo fartura. Algumas famílias passaram a dominar áreas, estabelecendo cacicados (grupos organizados sob a chefia de um cacique). O poder passa de uma geração a outra dentro da mesma família. Os vários cacicados estabelecem relações de alianças e trocas e passam a fazer parte de redes regionais de comércio com outros povos do baixo Amazonas. O apogeu dessa civilização se deu entre os séculos XVIII e XI. 

Quando essas civilizações viveram lá? E se tem ideia de quando deixaram a região?
Raquel – Todas essas civilizações vêm e vão. Uma começa sobre a outra. A ocupação da Amazônica começou há 11 mil anos, mas os pesquisadores acreditam que o apogeu aconteceu pouco antes dos europeus chegarem ao Brasil, lá por 1.400.
Denise – Na Ilha de Marajó, há um colapso dos cacicados marajoaras no século XIV, uns 100 anos antes da chegada dos europeus, mas quando os portugueses chegam na ilha, no século XVII, havia 40 mil pessoas vivendo lá.

Como eram essas cidades e povoados?
Raquel – As únicas descrições que temos desses povoados são as deixadas por Gaspar de Carvajal, frei que acompanhou Francisco de Orellana, que escrevia o diário da expedição. Os espanhóis falavam de paredes ou cercas ao redor dos vilarejos e há ainda descrições detalhadas do tipo de cerâmica produzida, que coincidem com os achados arqueológicos.
Denise – Em vários lugares da Amazônia temos encontrado vestígios de povoados interligados por sistemas de estradas. Em alguns locais como no Alto Xingu, no Acre, Amazônia Boliviana, Santarém e Belterra, estes povoados eram interligados a grandes distâncias. Em Santarém, o cacicado tapajônico exercia influência sobre comunidades localizadas a 754 quilômetros de distância. Distâncias como estas também aparecem no Marajó, onde a cultura marajoara se espalha por uma área de 20 mil quilômetros quadrados. Essas comunidades trocavam matérias primas e produtos manufaturados. Existiam feiras e locais de encontro para trocas. A distribuição regional de diversos objetos como machados líticos, os muiraquitãs (amuletos de pedra verde) são prova desse contato. 

Quantas pessoas chegaram a viver nessa região?
Raquel – A maioria dos cientistas que estuda a Amazônia concorda que antes da chegada dos europeus havia pelo menos 5.5 milhões de pessoas naquela região (incluindo a floresta nos países vizinhos).
Denise – As estimativas de William Denevan são de 5 a 6 milhões de pessoas na Amazônia em 1500. 

A convivência entre homem e natureza era harmônica?
Raquel – Sim. Uma população de 5.5 milhões de habitantes conseguiu viver naquela região provocando lá um impacto mínimo. Os indígenas que moram na Amazônia hoje ainda são as pessoas que sabem gerenciar melhor aquela área de maneira sustentável. Por isso temos que proteger a população indígena, são os índios que detêm o conhecimento e conseguem entender a floresta melhor que a gente.
Denise – Sim e não. As sociedades indígenas amazônicas viam as paisagens e animais de forma diferente de nós, mas nem por isso se comportavam de forma muito diferente com relação à exploração dos recursos. Obviamente eles possuíam uma sabedoria com relação aos recursos naturais que acabou se perdendo nas populações atuais, mas que ainda é presente nas sociedades indígenas remanescentes e nas próprias populações caboclas da região. Eles sabem, por exemplo, que se você caçar ou pescar certas espécies intensivamente, pode levá-las à extinção. No entanto, eles derrubavam a mata para construções, manejavam rios, mudando os cursos e causando impactos que, todavia, por ocorrerem em escala menor não levaram à desertificação que se vê hoje com as grandes explorações de recursos naturais por madeireiros. 

Como eles produziam a terra preta, mais fértil e própria para o plantio?
Raquel – Uma das grandes limitações da Amazônia sempre foi o solo pobre, com poucos nutrientes. Em geral a terra não é propícia para a agricultura. Nunca se saberá exatamente como essas civilizações chegaram à ideia de produzir a terra preta, mas o que se sabe é que eles conseguiram alterar a química do solo e transformar essa terra no que hoje é considerada a mais fértil do mundo. Algumas comunidades do Xingu ainda dominam essa técnica, que consiste em descartar o lixo orgânico em valas misturado a carvão e restos de cerâmica quebrados. O lixo e o carvão formam uma decomposição muito rica e a cerâmica torna o solo esponjoso, dando a oportunidade para a terra respirar e se reproduzir. Essa terra nunca se exaure e pode continuar sendo reutilizada. Ela não se esgota da mesma maneira que o solo normal sofre com a agricultura intensiva.
Denise – Há diferentes opiniões dos cientistas sobre o processo de produção da terra preta. A partir dos anos 80, o geógrafo americano Nigel Smith propôs que a terra preta era formada a partir do descarte não intencional de matéria orgânica pelos indígenas, ou seja, a partir do descarte de lixo doméstico e carvão de fogueiras. Adicionados ao solo, as propriedades deste iam se modificado a tal ponto de transformá-lo em muito fértil. Atualmente diversos cientistas acreditam que a terra preta era produzida, através do mesmo processo, mas intencionalmente. 

Que outras técnicas sustentáveis essas civilizações dominavam?
Raquel – Foram mapeadas perto da Aldeia dos Cuicuros, na região do Xingu,  redes de distribuição de urbanismo mais desenvolvidas do que as que existiam nas cidades medievais da Europa. Essas civilizações se distribuiam geograficamente de maneira sustentável e faziam um manejo correto da produção de alimentos.
Denise – Técnicas para drenagem de campos alagados e aproveitamento de várzeas sazonalmente alagadas eram utilizadas na Amazônia Venezuelana e Boliviana. Também na Bolívia e no Marajó havia manejo de peixes com a construção de lagos artificiais e canais. Na Guiana Francesa, eram utilizados campos elevados para cultivo em áreas alagadas, na forma de pequenos montículos de terra. 

O que teria acontecido com essas civilizações?
Raquel – Grande parte dessas civilizações morreu com a chegada dos europeus pela transmissão de doenças, para as quais essas populações não tinham imunidade. Os cientistas acreditam que entre 90% e 95% dessas civilizações morreram, foram dizimadas. Os 5% restantes são os ancestrais das populações atuais.
Denise – Todas sofreram com o impacto da chegada dos europeus. A maior causa de mortandade dessas populações se deu por meio de doenças trazidas por eles. Epidemias de varíola e gripe ceifaram milhares de vidas. Conflitos armados também foram responsáveis por mortes. Povos empurrados para as cabeceiras dos rios adotaram novos modos de vida. Aqueles que trabalharam nos empreendimentos coloniais acabaram por se mesclar às populações portuguesas formando os atuais povos amazônicos não indígenas. 

Que lições de sustentabilidade essas pessoas deixaram como legado?
Raquel – Algumas das maiores áreas de produção de mamão e outras frutas da população cabocla, na região Ribeirinha, estão em áreas de terra preta. Existem cientistas dos quatro cantos do mundo tentando reproduzir a terra preta, já que essa seria uma solução mundial para o problema da falta de alimentos. Mas acredita-se que a composição química do solo da Amazônia não pode ser reproduzida. Há microorganismos únicos ali, que não podem ser reproduzidos artificialmente. Infelizmente, muito do conhecimento das civilizações antigas morreu com elas, quando foram dizimadas.
Denise – O manejo de peixes feito pelos indígenas em Marajó era altamente sustentável. Eles conseguiram crescer demograficamente explorando peixes nas cabeceiras dos rios. Hoje pescadores locais ainda utilizam a mesma técnica. 

É possível haver a exploração sustentável da floresta sem destruí-la?
Raquel – Acho que deve haver um manejamento em escala menor, com impacto menor. O grande problema atual é a ganância. Não se precisa de tanta plantação de soja na Amazônia. Os madeireiros entram para limpar a floresta, depois chegam os criadores de gado que usam a terra por três ou cinco anos e o pasto fica esgotado. Na sequência, vem o plantio da soja e esse ciclo vai aumentando cada vez mais e indo em direção à floresta. Os produtores querem ganhar mais dinheiro e precisam de mais espaço. A natureza precisa ter o direito de se reestabelecer.
Denise – Sim, cada região tem suas particularidades e a Amazônia não pode ser vista como uma região de paisagens homogêneas. A prática do manejo dos peixes  permanece entre as populações locais pescadoras em Marajó. No entanto, desde o século XVII a economia no Marajó passou a ser orientada para a criação de gado. No século XX, os fazendeiros realizaram manejo de rios e lagos para reter água para o gado e escavaram um canal para escoar água das chuvas que inundavam os campos ao norte do lago Arari. Como conseqüência, vários lagos passaram a secar durante a maior parte do ano e diminuiu drasticamente a população de peixes na área. Agora algumas fazendas de gado foram vendidas para arrozeiros que estão retirando a pouca vegetação que resta dos campos. O Marajó é a uma área de preservação ambiental, mas prevejo um grande desastre ecológico na região para os próximos anos, com mudanças importantes na fauna e flora, com possíveis alterações climáticas. 

Na sua opinião, qual a situação da Floresta Amazônica hoje em dia?
Raquel – Existem mais de 400 grupos indígenas na Amazônia hoje, mas poucas dessas vozes são ouvidas e respeitadas por políticos e a população em geral. Não podemos impor a nossa maneira de ver o mundo a eles. Mas desde que comecei a trabalhar com a Amazônia, em 2004, vejo uma melhora na questão do desmatamento. Eu ainda acredito que a mobilização internacional e brasileira pela proteção da floresta tem aumentado e esse será o único jeito de proteger aquela região. Eu tenho muito orgulho de dizer que a Amazônia é nossa, mas temos uma responsabilidade mundial sobre ela.
Denise – Aqueles que decidem as políticas públicas estão em Brasília ou Belém e não conhecem a realidade local. Não ouvem a população local. Quando querem “preservar” uma área, para ficar bonito nas estatísticas, retiram da área de preservação a população local que vive de forma sustentável reproduzindo práticas milenares que têm tido como conseqüência um aumento da biodiversidade local exatamente por causa do manejo sustentável.


Foto: World Bank Photo Collection/Creative Commons/Flickr

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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