O impacto da crescente demanda global do açaí nas florestas de várzea da Amazônia

O impacto da crescente demanda global do açaí nas florestas de várzea da Amazônia

*Por Suzana Camargo

O açaí sempre fez parte da dieta dos amazônidas. A frutinha redonda, de cor roxa, que cresce em cachos da palmeira Euterpe oleracea, é consumida por muitos praticamente todos os dias pelos moradores da região, sobretudo, aqueles do estado do Pará. Mas em meados dos anos 90, ela virou mania nas academias do Rio de Janeiro e São Paulo. A fama de seus benefícios nutricionais, rica em antioxidantes, antocianinas, fibras e com alto valor energético, conquistou rapidamente os consumidores da região Sudeste.

Como mundo globalizado no qual vivemos, não demorou muito para a fruta sensação da Amazônia chegar também ao mercado internacional. Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), nos últimos dez anos houve um aumento de quase 15 mil por cento, 14.380% nas exportações do açaí. Eram pouco mais de 40 toneladas vendidas para o exterior há uma década. No ano passado, este número pulou para 5.937 toneladas. Apenas entre 2019 e 2020, o setor deu um salto de 51%.

O Pará é o maior consumidor interno e também, exportador da fruta, neste caso, na forma de polpa congelada. 95% da produção nacional sai do estado. E para atender esta demanda interna e externa gigantesca, a área plantada, tanto em terra firme como em manejo de várzea, passou de 77,6 mil para 188 mil hectares em dez anos.

Todavia, apesar das aparentes boas notícias, a intensificação do manejo do açaí trouxe sérios impactos sobre as florestas de várzea, conforme revela um artigo científico divulgado recentemente na publicação Biological Conservation. O estudo, que tem como autor principal o biólogo paraense Madson Freitas e conta com a contribuição de pesquisadores de diversas outras instituições nacionais e internacionais, analisou 47 áreas de várzea estuarina onde é realizado o manejo de açaizeiros.

A pesquisa aponta que com a derrubada de árvores dessas florestas naturais pelos moradores ribeirinhos para expandir o cultivo do açaí houve redução do número de espécies e funções nesse ecossistema. “Percebemos ausência de espécies de árvores típicas da várzea em ambientes com monocultivo, principalmente plantas de sombra que  ajudam na ciclagem de nutrientes e abrigam outras espécies da fauna como pássaros e insetos”, conta Freitas.

O biólogo explica que o açaizeiro é uma planta acostumada com muito sol e água, já que cresce nas várzeas, que sofrem inundações a cada seis horas. Suas raízes são superficiais e precisam de muitos nutrientes, garantidos justamente pela diversidade de espécies na mata e pelo vai e vem do rio, que traz matéria orgânica para a terra.
“Ao retirar a vegetação em torno dos açaizeiros, os ribeirinhos estão impactando a produtividade da floresta. E sem ela, por exemplo, diminui também o número de insetos polinizadores, essenciais para a produção do açaí, conforme já ficou comprovado em outro estudo, de 2018”, diz.

O que fica claro para os pesquisadores é como o aumento do manejo para atender a demanda do mercado levou a uma mudança florística e estrutural na floresta de várzea.

“Produtores passaram a ignorar a biodiversidade local. Outras plantas da várzea foram sumindo e isso compromete a funcionalidade da floresta como um todo. Em algumas áreas você tem praticamente uma monocultura do açaí, quando o normal seria ter até 70 espécies diferentes de árvores e palmeiras por hectare nessas áreas”, afirma Ima Vieira, pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi, com PhD em Ecologia e especialista em estudos de resiliência da Floresta Amazônica frente ao desmatamento.

Área de plantação de açaí em floresta de várzea no Pará
(Foto: Madson Freitas)

Açaí : manejo de baixo impacto e aumento da produtividade

Uma Instrução Normativa de 2013 da Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Pará já determina o número máximo de estipes (troncos) do açaizeiro que pode ser colhido por unidade de área, de forma a garantir a produção contínua e o “não comprometimento da população da espécie nas florestas de várzea”. Segundo a legislação, pequenos produtores devem extrair o máximo de 200 estipes e manejar o máximo de 400 touceiras por hectare.

Todavia, não é isso o que acontece na realidade. A pesquisa liderada por Madson Freitas encontrou até mais de 1 mil touceiras por hectare em algumas propriedades. Por falta de orientação, muitos agricultores acreditam que uma maior quantidade de açaizeros será garantia de uma colheita melhor no final da safra, embora não funcione dessa maneira. “Quando parte da floresta é preservada, os serviços ambientais funcionam adequadamente e o volume e a qualidade dos frutos é melhor”, garante o biólogo.

Em seu primeiro estudo publicado em 2015, o biólogo verificou que o manejo acima de 400 touceiras por hectare reduz pelo menos 60% das espécies de várzea. Por esta razão, a recomendação feita através do artigo na Biological Conservation é para que a instrução normativa do estado seja revista; desenvolva-se um programa de recuperação florestal; com replantio das espécies nativas, assim como a fiscalização ganhe reforço e a regulamentação do manejo volte a ser rediscutida por governo, produtores e especialistas.  

“Antes do boom do açaí, sempre houve uma produção doméstica para atender a demanda local. Até então esse símbolo da tradição alimentar da Amazônia tinha pouco impacto, mas quando ganha fama e demanda, a situação muda”, ressalta Ima.

O impacto da crescente demanda global do açaí nas florestas de várzea da Amazônia

O manejo acima de 400 touceiras por hectare reduz pelo menos 60% das espécies de várzea
(Foto: Costa PPPR, CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons)

Capacitação e formação dos ribeirinhos

Para o paraense Teofro Lacerda, de 42 anos, não há uma hora certa para comer o açaí. De manhã, na hora do almoço ou do jantar, ele adora misturar o sumo da fruta com farinha d’água (mandioca) ou na comida. Ele dá muito valor ao que tem no prato. Afinal, sua família sempre esteve ligada ao cultivo do açaizeiro. Morador da comunidade ribeirinha Santa Ezequiel Moren, no município de Portel, ele é o coordenador do Centro de Referência em Manejo de Açaizais Nativos no Marajó, o como Manejaí, projeto desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com a Universidade Federal Rural da Amazônia, (UFRA), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER) e diversas associações locais.

Criado em 2016, o projeto promove a formação dos agricultores ribeirinhos nas técnicas de produção de baixo impacto do açaí. Os workshops já foram realizados em mais de dez comunidades da região e entre 400 e 500 moradores foram capacitados. Após o curso, alguns se tornam multiplicadores daquilo que aprendem.

Na safra do açaí, que acontece entre junho a setembro, Lacerda consegue colher 5.600 kg da fruta. Dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento apontam que em açaizais não manejados, a produtividade gira em torno de 4.500 kg de frutos/ha. “O manejo sustentável é o mais viável e correto. Com ele conseguimos aumentar a produtividade e obter um fruto com qualidade melhor. Mas as pessoas têm que valorizar mais esse produto, pois seu manejo dá muito trabalho”, ressalta. “E as empresas que compram também precisam ter um compromisso social com as nossas comunidades”.

O impacto da crescente demanda global do açaí nas florestas de várzea da Amazônia

Teofro Lacerda defende que o manejo de baixo impacto aumenta a produtividade
(Foto: acervo pessoal)

Até hoje, a colheita do açaí é feita com a peconha, uma espécie de cinto feita com fibras de algumas plantas e usada para a escalada do tronco da palmeira, impulsionada pela força das pernas. Depois, os cachos são debulhados manualmente para a retirada dos frutos.

Ima Vieira defende a melhoria das práticas de manejo, mas alerta que qualquer discurso de sustentabilidade deve levar em conta que quase a totalidade da produção do açaí nas várzeas do estuário é feita por agricultores familiares ribeirinhos.

“Quando a gente toma o açaí em qualquer lugar do mundo, não tem ideia de como ele é produzido e muito menos se é sustentável. Do ponto de vista econômico e social, a alta na demanda melhorou muito a vida dos ribeirinhos, sem dúvida, por isso qualquer política pública precisa ser cuidadosa. Tentar conciliar conservação das florestas e o desenvolvimento local, mediante a intensificação da produção de produtos florestais não madeireiros na Amazônia pode resultar em ações malsucedidas em razão da compreensão limitada acerca da complexidade dos fatores que afetam essa produção”.

O impacto da crescente demanda global do açaí nas florestas de várzea da Amazônia

A colheita do açaí ainda é feita d forma artesanal
(Wenderson Nunes/CNA/Creative Commons/Flickr)

 *Texto publicado originalmente em 30/09/21 no site Mongabay Brasil numa versão ligeiramente menor

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Foto de abertura: Railson Wallace, CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons

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