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Escritor Daniel Munduruku estreia e brilha na nova novela da TV Globo, que inaugura núcleo indígena de dramaturgia

Depois dos altos e baixos da audiência da novela que sucedeu Pantanal, o público do horário nobre da TV Globo volta a acompanhar uma trama ambientada na região central do país, desta vez mais a oeste, em Mato Grosso do Sul. Em Terra e Paixão que estreou esta semana, em 8/5 , não há mais as paisagens deslumbrantes daquele bioma, mas a natureza e o campo continuam presentes. Na trilha, a música sertaneja raiz “desbanca” a moda de viola. 

A tensão da história está nos conflitos por terra, muito comuns no estado, que envolvem também povos indígenas. Aqui, os personagens indígenas recebem o nome da etnia Gató, mas são fictícios.

(o povo Gató é do Pantanal por excelência, ocupava praticamente toda a região sudoeste do Mato Grosso, abarcando terras que hoje pertencem àquele estado, a Mato Grosso do Sul e à Bolívia*)

É importante ressaltar que o roteiro não contempla temas urgentes como demarcação de terras indígenas ou questões fundiárias como a reforma agrária. A história vai focar nas disputas por terra, revelando a grandiosidade do agronegócio – que diz que alimenta o Brasil -, com seus campos extensos de soja numa tarde linda de sol. Merchandising certamente será uma constante.

E isso num momento delicado do Brasil, em que o governo se compromete a homologar e demarcar terras indígenas (Lula assinou seis, no final de abril) e quilombolas, em que indígenas e camponeses são mortos por capangas armados, em que os integrantes do MST cobram o cumprimento de leis ignoradas há mais de dez anos invadindo terras improdutivas e ruralistas são representados por uma bancada cada vez mais poderosa no Congresso Nacional, que quer aprovar projetos de lei a favor de venenos e contra leis ambientais.

Voltando à trama da nova novela, o protagonismo não é de um homem poderoso, mas de uma mulher simples, Aline (Bárbara Reis), viúva de um pequeno agricultor assassinado pelo capanga de um fazendeiro ambicioso – o maior produtor rural da região -, Antônio (Toni Ramos) que queria suas terras e pela qual os filhos deste, Caio (Cauã Raymond) e Daniel (Johnny Massaro) se apaixonam. 

Mas quem brilhou já no segundo capítulo, foi o estreante Daniel Munduruku, que vive o pajé Jurucê Guató. À beira de um rio, o xamã encontra o atormentado e indeciso personagem de Cauã (desprezado pelo pai), lhe dá uma pedra de proteção, fala de amor e destino (veja o vídeo no final deste post). “Seu destino está nas suas mãos. Você tem a semente que poucos homens têm. A semente de mudar o mundo”.

O núcleo indígena

Daniel Munduruku é da etnia Munduruku, do Pará. Reconhecido escritor de literatura indígena, com mais de 60 livros publicados (o último lançado em 22 de abril: ‘Sawé, O Grito Ancestral‘), é professor e ativista que luta pela preservação da cultura desses povos no país. 

Foi contratado pela emissora para dar consultoria para Walcyr Carrasco, autor da novela, e também para ser ator, ganhando um papel muito especial na história: graças à sua sabedoria, o xamã é procurado pelo povo da fictícia cidade de Nova Primavera para curas e conselhos. 

“Ele é uma liderança espiritual do povo que foi criado para representar uma parcela da população do Mato Grosso do Sul. O personagem tem um componente importante porque ele é um sábio, alguém capaz de visualizar o que vai acontecer, uma espécie de profeta e, ao mesmo tempo, alguém inserido no seu tempo, na sua sociedade, no mundo, naquilo que está acontecendo nesse momento. É um homem ligado às tradições e, ao mesmo tempo, antenado ao momento atual”.

Mapu Huni Kuī e Daniel Mundukuru estreiam na novela / Foto: TV Globo/divulgação

Ao lado de Daniel também estreia o indígena Mapu Huni Kuī, do povo Huni Kuī ou Kaxinawá, do Acre, que interpreta Raoni Gató (homenagem ao cacique Raoni, certamente).

Filho de Jurucê, está sendo preparado para se tornar xamã. Em muitas ocasiões, assume o papel do pai porque transmite paz e simpatia naturalmente. Para compor seu personagem, Mapu diz que tem usado sua experiência como músico e líder espiritual.

Mapu Huni Kuī é Raoni Gató / Foto: TV Globo/divulgação

“Acredito que sendo eu, consigo fazer o meu melhor. Vou trazer a minha energia do dia a dia, e como eu sou do palco, eu canto, toco, já tenho um pouco da interação e conexão com o público”, destaca.

Além de músico, Mapu é compositor. Em setembro de 2021, participou – junto com artistas indígenas Yawanawá, do Acre, e Guarani, de São Paulo – do Festival Global Citizen, com o DJ Alok.

Mapu Huni Kuī e, ao fundo, o DJ Alok na apresentação durante o festival Global Citizen, em setembro de 2021 / Foto: reprodução de vídeo

Um ano depois, o mesmo grupo viajou à Nova York para se apresentar na sede da ONU, durante a Semana Climática. O repertório de músicas lá apresentado integra o álbum especial que o DJ está preparando para este ano, e uma minissérie (que ainda envolve lideranças musicais da etnia Kariri-Xocó), ambos intitulados como O futuro é ancestral.

Iraê Gató, interpretada pela atriz e modelo indígena Suyane Moreira, é irmã de Raoni e tem uma filha: Yandara, papel de Rafaela Cocal, alagoana, que também é atriz e modelo. 

Iraê sabe tudo sobre medicina da floresta, é especialista em ervas e tem um coração gigante. Mas é oprimida pelo pai. Para compor o papel, a atriz diz que se inspirou na avó.

Suyane Moreira é Iraê, filha do pajé Jurucê / Foto: João Miguel Júnior/TV Globo/divulgação

“Guardo muitas lembranças boas da minha avó, da minha infância, do conhecimento dela. Ela era uma mulher bem pequenininha no físico, mas gigante nas atitudes. Lembro da força do olhar, a força do agir, a força da decisão que ela tinha, e que eu de alguma forma estou retratando nessa personagem”.

Rafaela conta que sente orgulho em adotar Cocal em seu nome artístico, ainda que não tenha reconhecimento oficial de sua descendência por parte das lideranças do povo Wassu Cocal, de Joaquim Gomes, em Alagoas.

Sua personagem Yandara, neta de Jurucê, tem ambições fora da pequena cidade e, como Rafaela, também vai se tornar modelo e enveredar pelo mundo da moda.

Rafaela Cocal é Yandara, filha de Iraê e neta de Jurucê / Foto: Manuela Mello/TV Globo/divulgação

Daniel, Mapu, Suyane e Rafaela compõem o pioneiro núcleo dos povos indígenas na nova novela. Quem sabe esta é uma semente para ampliar sua representatividade na TV brasileira, praticamente inexistente, até agora. A seguir, assista à cena emocionante entre o pajé Jurucê e o frágil Caio:

* Informações do livro Povos Indígenas do Brasil, do Instituto Socioambiental

Com informações da TV Globo

Foto (destaque): TV Globo/Divulgação

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