O dia em que baleias e golfinhos me deixaram preso em alto-mar

O dia em que baleias e golfinhos me deixaram preso em alto-mar

Se você acompanha há algum tempo meu trabalho como fotógrafo de natureza, já deve ter visto minhas expedições com o Projeto Amigos da Jubarte para observar – e fotografar – baleias-jubarte em alto mar. A iniciativa é uma realização do Instituto Últimos Refúgios e do Instituto O Canal, que fomenta o turismo de observação de baleias em Vitória, no Espírito Santo, com foco na sensibilização ambiental e no desenvolvimento de pesquisas científicas.

Os passeios são uma experiência única, emocionante e incrivelmente divertida. As embarcações saem logo ao amanhecer e navegam de 20 minutos a três horas, dependendo da época, até a área mais propícia para avistamento das gigantes. Durante o trajeto, o guia faz uma pequena apresentação sobre a espécie e passa algumas orientações para melhorar a experiência do passeio, com técnicas de observação e identificação dos animais. 

Em 2019, levamos diversos jornalistas para uma reportagem especial sobre a temporada das baleias-jubarte no Espírito Santo. Apesar de cosmopolita, ou seja, de habitar todos os oceanos, a espécie é figura carimbada no estado. A costa capixaba é uma das principais anfitriãs da jubarte graças à sua posição privilegiada no roteiro de migração da espécie que, anualmente, viaja das águas polares para as águas tropicais e subtropicais do globo, onde acasalam e dão a luz aos seus filhotes. 

Na ocasião, fazia um lindo dia ensolarado. Com apenas alguns minutos de viagem, já ouvíamos os borrifos d’água que indicavam a presença das baleias no horizonte. Não sabíamos, contudo, que aquele típico dia de observação provaria-se um dos momentos mais mágicos de nossas vidas. 

O encontro foi um verdadeiro show de movimentos acrobáticos, com saltos majestosos que pincelavam a água, o mar, o céu, e encantavam toda a tripulação. O comportamento é tão comum que inspirou o nome dado ao gênero da espécie: Megaptera ou “grandes asas”, como é traduzido do grego antigo, em referência ao tamanho das nadadeiras responsáveis pelos voos fora da água.  

A maior surpresa foram os amigos que se juntaram à festa: um enorme grupo de golfinhos alegres, brincalhões e bastante curiosos. As duas espécies – baleias-jubarte e golfinhos-nariz-de-garrafa, como identificado pelos pesquisadores do projeto – se divertiam numa espécie de “pega-pega”, interação rara de ser presenciada por nossa equipe. 

O protocolo de segurança exige que o motor seja mantido em “neutro” quando as jubartes estão próximas da embarcação. O som grave e constante indica a localização do barco, permitindo que as pessoas a bordo possam contemplar e registrar os animais nadando nos arredores. Essa também é a oportunidade para os fotógrafos de natureza libertarem a criatividade, sacarem suas câmeras e produzirem seus próprios registros. 

Pela raridade da cena, pensamos que seria uma interação breve e única, mas a brincadeira não parecia ter hora para acabar. Baleias e golfinhos ficaram tanto tempo ao nosso lado que não conseguíamos ir embora, preocupando aqueles que precisavam retornar à terra firme para outros compromissos importantes ao longo do dia. Demonstrei empatia pela situação dos meus colegas, mas não pude negar a alegria de ficar ali contemplando o fenômeno por tanto tempo. Meu sonho seria ficar preso em alto mar com baleias e golfinhos todos os dias.

Minha única – e maior – frustração com o passeio foi a falta do meu drone, que caiu no mar por um defeito técnico um dia antes da viagem. O equipamento teria sido responsável por alguns dos melhores registros da minha carreira como fotógrafo de natureza. 

A experiência, por sua vez, viverá comigo para sempre. Espero um dia ter a oportunidade de revivê-la. Foi um dos momentos mais marcantes de toda a minha vida, provando que às vezes não é preciso ir muito longe de casa para desfrutar algo tão incrível.

A capital capixaba, minha cidade, com certeza é uma das melhores apostas para o turismo ecológico e sustentável no Brasil. A modalidade tem ganhado cada vez mais destaque ao redor do mundo e, quando praticada de forma responsável, oferece inúmeros benefícios para a conservação dos nossos oceanos e para os amantes da natureza em busca de experiências incríveis.

O Projeto Amigos da Jubarte é uma co-realização do @institutoocanal e @ultimosrefugios em parceria com a @valenobrasil @ufesoficial e apoio de @larmar e agência parceira @avesvoandoalto.

*Texto escrito em parceria com Ana Clara Mardegan

Abaixo, alguns dos muitos registros feitos neste dia:

O dia em que baleias e golfinhos me deixaram preso em alto-mar
O dia em que baleias e golfinhos me deixaram preso em alto-mar
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Leonardo Merçon

Fotógrafo de natureza e conservação, é fundador do Instituto Últimos Refúgios, ONG sem fins lucrativos que busca sensibilização ambiental através da cultura, em especial, fotografias e vídeos. Leonardo já realizou diversas exposições no Brasil e também na Alemanha, Itália e França. Tem cinco livros publicados, quatro documentários em vídeo, séries para TV/Youtube e matérias veiculadas na BBC, National Geographic Brasil, Fantástico, Google Arts & Culture

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