O descaso estarrecedor ao despejo de lixo em um dos principais pontos turísticos do Paraná: a Ilha do Mel

O descaso estarrecedor ao despejo de lixo em um dos principais pontos turísticos do Paraná: a Ilha do Mel

A Ilha do Mel é o segundo ponto turístico mais visitado do Paraná (atrás apenas de Foz do Iguaçu) e declarada Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Localizada na Baía de Paranaguá, a Ilha do Mel tem mais de 2.500 hectares de área composta por sistemas de restinga e Floresta Atlântica, protegidas e destinadas exclusivamente à preservação integral da flora e da fauna.

Todavia, assim como outras localidades do litoral paranaense, e do Brasil, a Ilha do Mel sofre com sérias deficiências de ações e políticas públicas sobre o descarte de seus resíduos.

Para ver a situação de perto, o deputado estadual e presidente da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do Paraná, Goura Nataraj, foi até lá. O que viu ele relata na entrevista abaixo:

Que situações e cenários o senhor encontrou na Ilha do Mel?
Quando falamos em litoral, sabemos que há muitos problemas, especialmente, nas comunidades insulares. No caso da Ilha do Mel – um grande atrativo turístico que concentra hotéis, restaurantes e pousadas – a proporção de resíduos aumenta bastante. Conversamos com moradores, comerciantes e com a comunidade para entender o tamanho do problema. Em Nova Brasília, visitamos a área onde o lixo é coletado e concentrado para ser levado ao continente, em Paranaguá. A situação é gravíssima e o local é inadequado.

Não há separação do lixo e existe a presença de ratos e vários outros vetores de doenças. A situação do lixo na localidade de Encantadas também é crítica e os problemas se repetem do outro lado da Ilha do Mel. A partir dessa visita, buscamos informações sobre a situação e constatamos que existe um plano de reforma e readequação das estações, bancada pelo Terminal de Contêineres Paranaguá (TCP).

Mas é importante que o governo tenha um plano emergencial para esse verão e, por isso, solicitamos providências à Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Turismo, não só para a Ilha do Mel, que é a localidade mais visitada, mas também para Superagui e Ilha das Peças. Nesses outros lugares também há problema de coleta e gestão inadequada de resíduos.

A gestão da Ilha é compartilhada entre Governo do Estado e Prefeitura de Paranaguá. Qual seria a saída para resolver o problema do lixo?
Os problemas são graves e exigem soluções imediatas. A atual situação do lixo é insustentável e está longe de atender as diretrizes preconizadas pela Política Nacional de Resíduos Sólidos. Além da separação correta, é preciso fazer o tratamento do lixo orgânico, por compostagem, e ir além da gestão correta de resíduos. Precisamos tornar a Ilha do Mel uma área de plástico zero e, para isso, é necessário mudar hábitos e o cenário vigente. Hoje ainda são usados descartáveis, de copos a canudos plásticos, por exemplo, e é preciso extinguir essa prática, pela importância ambiental do local.

Como sentiu a receptividade da população a essas propostas?
A população reclama que os políticos vão ao local, identificam os problemas, mas não fazem nada. O drama do trapiche, que caiu e apresenta problemas seríssimos tanto em Nova Brasília como em Encantadas, está uma novela. Não temos levado em consideração a Ilha pela importância que ela tem como atrativo turístico e área de preservação. É importante que a visitem, mas é necessário que o turista possa contar com estrutura para essa visitação.

Durante muito tempo, o lixo foi enterrado, antes de chegar ao trapiche em Nova Brasília. E, agora, ao passar pelo local onde o lixo era enterrado, percebe-se que todo esse material está sendo levado pela maré. Existe um “sambaqui” de lixo ali, que a maré está “comendo” e levando para o mar.

A população quer que o poder público esteja presente, com a oferta de políticas públicas, saneamento e soluções para a questão de lixo. Só assim a Ilha pode se tornar, de fato, um local capaz de equilibrar com eficiência e qualidade atividades econômicas em consonância com preservação ambiental.

Qual a qualidade do serviço de saneamento básico na Ilha?
Não tem esse serviço vigente e há propostas que, no mínimo, precisam ser mais bem discutidas. O Governo conta com um investimento milionário para fazer toda a rede de esgoto na Ilha e levá-lo para ser tratado no município de Pontal do Paraná. Mas, será que não podemos tratar isso na Ilha mesmo, por meio da utilização de fossas ecológicas? A Ilha recebe muita gente nos fins de semana e feriados, tem exploração comercial com hotéis e restaurantes. A presença humana é muito bem-vinda do ponto de vista econômico e de conscientização ambiental, mas a problemática do tratamento do esgoto é urgente. A Ilha é parte do município de Paranaguá, mas precisa ser entendida e olhada pelo governo com olhos mais cuidadosos e atenciosos.

O desenvolvimento não pode vir com projetos maiores, sem oferecer qualidade de vida ao povo caiçara e às comunidades locais. Sem fomentar agroecologia nas ilhas e em toda parte litorânea ou sem proibir o uso de agrotóxicos. Isso está nas mãos do Estado e não são ações milionárias. O saneamento, o fortalecimento das Unidades de Conservação e as políticas de resíduos sólidos como um todo, se colocam de forma muito urgente na perspectiva ambiental e social.

O fluxo turístico é enorme nos meses de temporada. Existe uma necessidade de campanha de conscientização sobre destinação de lixo, especialmente, nesses períodos?
Quando um cidadão chega a Pontal do Paraná de carro ou ônibus para embarcar para a Ilha, não recebe nada. Não vê nenhum folheto, cartaz ou placas que orientem as pessoas a terem boas práticas ambientais, como não jogar ou recolher o lixo na praia. Os turistas também não são orientados sobre a forma de destinar o lixo adequadamente.

Muito do que chega à costa não é gerado no local. Chega pelo oceano, mas é muito importante trazer os turistas como aliados na preservação ambiental. É importante fazê-los entender que o litoral precisa ser preservado para as futuras gerações e estimulá-los a pensar em “corresponsabilidade”. Cada um de nós pode fazer mais, ser agente multiplicador de uma nova consciência. Todo visitante deveria receber orientação muito bem definida e resolvida sobre os resíduos e a destinação correta. E isso não custa nada para o governo fazer.

Como avalia a questão dos trapiches e acessos à Ilha do Mel?
Há três meses, o governo sinalizou licitação dos trapiches de Encantadas e Brasília, com expectativa de que, até abril de 2020, a obra estivesse concluída. Recentemente, em setembro, um dos trapiches despencou e uma senhora fraturou a perna ao desembarcar. Existem muitos problemas ali, que é a porta de entrada da Ilha, local onde é necessária total segurança para todos. É uma comunidade com moradias, escolas, posto de saúde, e que precisa ser referência em sustentabilidade e segurança. A questão dos trapiches é importantíssima nesse sentido.

Falta interesse político para melhorar as condições na Ilha do Mel?
Falta entendimento mais definido sobre as reais prioridades de investimento. Para chegar a esse nível de descaso, quer dizer que a coisa está largada há bastante tempo. A Ilha do Mel é um dos lugares mais visitados do Paraná! Como está a valorização e a preservação desse local? Fica nítido quando se vê a questão do lixo.

Fiquei chocado ao conhecer o Centro de Destinação de Resíduos, muito próximo dos trapiches. Andando pela costa, em 15 minutos já se chega a esse lugar. É um descaso de muito tempo. Não vem de agora. Um desrespeito absoluto com a população e o meio ambiente. Somos criticados por sermos “xiitas”, mas não é isso. Se não tiver meio ambiente equilibrado com respeito à flora e à fauna, não vamos ter mais esses atrativos no futuro. Não existirá a Ilha como a gente conhece, com água limpa e praias preservadas.

E isso se agrava ainda mais em um contexto de mudanças climáticas. O Paraná é signatário da Agenda 2030 (um plano de ação mundial para as pessoas, o planeta e a prosperidade, que busca fortalecer a paz universal e indica 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os ODS), mas não estamos vendo política de desenvolvimento sustentável acontecer no Estado.

Vemos a ameaça de uma estrada rasgando a Mata Atlântica, a possibilidade de construção de um porto privado em frente à Ilha do Mel e a tentativa de abertura de uma estrada rasgando o Parque Nacional do Iguaçu. Sem falar no descaso com o uso de agrotóxico que ocorre no Paraná. O Estado é líder em casos de contaminação e intoxicação por agrotóxicos no Brasil!

O descaso estarrecedor ao despejo de lixo em um dos principais pontos turísticos do Paraná: a Ilha do Mel

A Grande Reserva da Mata Atlântica abrange
áreas preservadas de três estados

Como enxerga o potencial turístico dessa região?
Falamos desse conceito de “Grande Reserva da Mata Atlântica”. A Ilha está inserida nessa área, que abrange porções florestais ainda conservadas entre os estados de Santa Catarina, São Paulo e Paraná. Esse trecho representa a maior área contínua de floresta preservada que inclui a Serra do Mar e o litoral, com um potencial tremendo que a maioria dos paranaenses não conhece. Locais como Superagui, Ilha dos Pinheiros e o Parque Estadual do Marumbi estão há uma hora de Curitiba.

Temos que fomentar turismo que preserve o meio ambiente, respeite as populações tradicionais, os indígenas, os quilombolas, as comunidades agroecológicas, a cultura caiçara, o fandango, a valorização de produtos regionais e a pesca artesanal, que muita gente não conhece. Não estamos preservando a cultura da pescaria tradicional. Esses pescadores não são apoiados nem respeitados pelo Estado.

O governo contratou com valor bastante expressivo, o Plano de Desenvolvimento Sustentável do Litoral (PDS), há quatro anos. Ele foi entregue oficialmente ao Estado agora em novembro. O PDS foi construído de forma muito técnica e cuidadosa, ouvindo comunidades, identificando e respeitando todas essas singularidades que temos aqui, em um litoral relativamente pequeno, mas com duas baías muito importantes, com áreas de preservação.

Temos que levar em consideração o que o PDS está indicando e ele não considerada adequada a construção da Faixa de Infraestrutura nem do porto. Estamos trabalhando para que o PDS tenha força de lei, para orientar o crescimento do litoral. E o governo tem obrigação de abraçar esse projeto. Sugerimos a construção de ciclovias junto às ferrovias Morretes-Antonina e Morretes-Paranaguá, onde já há a malha ferroviária, então, o custo não é tão alto. Elas seriam paralelas à linha do trem e funcionariam como um atrativo turístico de magnitude, ao lado da mata, e também para mobilidade da população local.

*Este artigo foi publicado originalmente na edição de janeiro do jornal online e gratuito do Observatório de Justiça e Conservação. Para acessar as demais reportagens clique aqui.

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Foto: Rafael Berteli

Observatório de Justiça & Conservação

O Observatório de Justiça e Conservação (OJC) é uma iniciativa apartidária e colaborativa que trabalha fiscalizando ações e inações do poder público no que se refere à prática da corrupção e de incoerências legais em assuntos relativos à conservação da biodiversidade, prioritariamente no Sul do Brasil, dentre os quais se destacam, a Floresta com Araucária

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