O começo da vida não pode ser plastificado

O começo da vida não pode ser plastificado

Cerca de 90% dos brinquedos do mundo contêm materiais plásticos e estão longe de serem mais duráveis. Além de muitas vezes quebrarem facilmente, sua durabilidade está, na verdade, atrelada a sua permanência por pelo menos 400 anos no planeta.

Isso significa que praticamente todos os brinquedos já feitos no mundo devem estar circulando por aí. Por isso, de forma alguma podemos aceitar uma infância plastificada, principalmente a partir da criação do desejo ilusório e antiético estimulado pela indústria de brinquedos que direciona publicidade às crianças

Segundo pesquisa do Grupo de Estudos e Pesquisa em Química Verde, Sustentabilidade e Educação (GPQV), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), encomendada pelo programa Criança e Consumo, do Instituto Alana, o consumo de brinquedos de plástico está diretamente relacionado a problemas de saúde da criança e a impactos ambientais severos.

O estudo estima que 1,38 milhão toneladas de brinquedos de plástico serão produzidos até 2030. Agora vamos aos desdobramentos desastrosos disso…

O plástico tem feito parte da crise socioambiental sistêmica que está sobrecarregando o planeta e a nossa sobrevivência nele.

Despejamos, todos os anos, 8 milhões de toneladas de plástico nos oceanos, com estimativas que indicam que haverá mais plástico do que peixes no mar até 2050. Reciclamos, em média, apenas 9% de todo o plástico do mundo, sendo o Brasil o 4o maior produtor mundial de lixo plástico e muito abaixo da média mundial de reciclagem, com ínfimos 1,28%. 

Na infância, impactos negativos severos

Diversos estudos referenciados na pesquisa do GPQV/Ufscar têm demonstrado que brinquedos de plástico possuem substâncias potencialmente tóxicas para as crianças, e podem lhes causar problemas hormonais e câncer. 

Impacto ainda maior ocorre em crianças em situação de vulnerabilidade socioeconômica, que sequer têm acesso ao consumo desses produtos de plástico. 

Priscilla Villa-Wat, da ONG Earthworks, do Texas, nos Estados Unidos, relata, no filme A História do Plásticoexibido e debatido na Semana Sem Plástico – a maior incidência de leucemia em crianças que vivem em comunidades no entorno de indústrias petroquímicas que produzem plástico.

Em caso de emergência, siga as placas de ‘saída’

Temos várias saídas possíveis para o grande desafio do lixo plástico e da infância plastificada.

A mais óbvia delas é estimular os múltiplos benefícios do brincar livre da criança na natureza. Aliás, a natureza é uma grande fábrica acessível, democrática e infinita de brinquedos realmente recicláveis. Nela, as crianças têm à sua disposição todo um acervo de elementos para estimular sua criatividade, sua saúde e seu desenvolvimento.

Uma lista de alternativas aos brinquedos de plástico é apresentada no informativo A brincadeira e o brinquedo precisam de plástico?, elaborado pelos programas Criança e Natureza e Criança e Consumo, junto com a pesquisa Território do Brincar, todos iniciativas do Instituto Alana.

O mais importante para resolvermos a poluição plástica é termos a consciência de que esse é um problema recente. 

Metade de todo o lixo plástico no mundo foi produzido apenas nos últimos 15 anos. A solução dessa crise também pode ser revertida no mesmo tempo, ou menos. E passa pela logística reversa, ou seja, o retorno dos produtos e embalagens plásticos aos seus produtores, criando uma economia circular.  

Passa também pela eliminação de todo e qualquer tipo de plástico desnecessário ou de uso único, aqueles que implicam em consumo pontual e descarte imediato.

Exige também que sejam criados sistemas de gestão resíduo zero, já praticado em vários municípios do mundo, como apresentado também no filme A História do Plástico

Prioridade absoluta

Por fim, essa mudança acontecerá quando deixarmos de depender completamente do petróleo.

Parece impossível, assim como algum dia alguém achou impossível transformar esse recurso natural finito em praticamente tudo que nos rodeia, e que rodeia a nossa infância.

Vamos mudar essa realidade e validar nossa constituição federal, tratando a criança com absoluta prioridade, inclusive perante um ambiente ecologicamente equilibrado que ela tem como direito para o seu presente e seu futuro.
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Foto: Joshua Coleman/Unsplash

JP Amaral

Coordenador do programa 'Criança e Natureza', do Instituto Alana e conselheiro do Greenpeace Brasil, é cofundador da rede 'Bike Anjo' e do coletivo 'Ecologia Urbana'. Bacharel em Gestão Ambiental pela Universidade de São Paulo com especialização em Sistema de Gestão Integrada pelo Senac e 'Futurismo' na metodologia Fluxonomia 4D, faz parte da rede de futuros líderes do Programa da Chanceler Alemã da Fundação Alexander von Humboldt, membro alumni da rede Red Bull Amaphiko de Empreendedores Sociais e do Young Global Changers

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