“O Brasil tem alma, o Brasil tem gente, o Brasil resiste!”, diz Caetano Veloso no maior ato pelo meio ambiente realizado em Brasília

"O Brasil tem alma, o Brasil tem gente, o Brasil resiste!", diz Caetano Veloso no maior ato pelo meio ambiente realizado em Brasília

9 de março de 2022 ficará registrado na história do Brasil como o dia em que a maior mobilização popular pelo meio ambiente foi realizada em Brasília (talvez no Brasil): o Ato pela Terra

Mas também, ficará conhecido como o dia em que a Câmara dos Deputados, liderada por Arthur Lira, ignorou a mobilização gigante que acontecia na Esplanada dos Ministérios e aprovou a urgência de projeto de lei que defende a liberação dos territórios indígenas para a mineração.

No momento, seis projetos de lei – conhecidos como o Pacote da Destruição que versam sobre regularização fundiária, uso de agrotóxicos, licenciamento ambiental e mineração e outras atividades econômicas em terras indígenas – aguardam votação ou tramitam no Congresso Nacional. E já era esperado que o PL 191 voltasse ao plenário da Câmara a qualquer momento. 

A escolha deste dia histórico – liderado por Caetano Veloso – para colocar em pauta um projeto tão criminoso, parece uma provocação de Lira. Um tapa na cara dos brasileiros que pedem pela proteção do meio ambiente e dos povos originários e o aviso de que não adianta protestar porque quem manda, ali, são eles: os parlamentares que trabalham diariamente a serviço de interesses econômicos. 

Enquanto os manifestantes gritavam “Lira, não!” na vasta área em frente ao Congresso Nacional, o presidente da Câmara se mobilizava pela urgência do PL 191, ameaçando os deputados da oposição de colocar o projeto em votação sem qualquer análise mais profunda do texto. 

Em troca de sua vitória – foram 279 votos a favor e 180 contra -, anunciou que, agora, durante 30 dias, um grupo de trabalho formado por 20 parlamentares – sendo 13 da bancada interessada em aprovar o PL! – vai analisar o texto e propor alterações. E que a votação do texto final deve acontecer até 14 de abril.

Faz tempo que a Câmara dos Deputados deixou de ser a “Casa do Povo” para se transformar na casa dos exterminadores do futuro do país. E, neste ano de eleição, esses senhores têm pressa porque a reeleição de Bolsonaro é cada vez mais impossível e o presidente tem pressa em cumprir o que prometeu em suas declarações durante a campanha presidencial: destruir o país.

Chegamos até aqui, resistindo. E é assim que vamos prosseguir. Ainda mais depois do Ato pela Terra, que reuniu 40 artistas, três chefs de cozinha (dou alguns nomes no final deste texto), mais de 230 movimentos e organizações socioambientais e mais de 15 mil pessoas que querem um presente e um futuro saudável, digno e justo para todos. 

Quando subiu ao palco montado na Esplanada dos Ministérios – depois de participar de duas audiências com o Supremo Tribunal Federal e o Senado -, Caetano Veloso bradou: “O Brasil tem alma! O Brasil tem gente! O Brasil resiste!”. 

Nos resta honrar suas palavras e manter viva a mobilização liderada por ele contra o pior governo da história do país, depois da ditadura militar, período nefasto que tanto ‘o cara que nos desgoverna’ admira.

A defesa da Terra em quatro atos

"O Brasil tem alma, o Brasil tem gente, o Brasil resiste!", diz Caetano Veloso no maior ato pelo meio ambiente realizado em Brasília
Foto: Mídia Ninja

Imagens emocionantes do Ato pela Terra – boa parte produzida pela equipe da Mídia Ninja, parceira do evento – viralizaram nas redes sociais como flechas.

Não tinha como não se emocionar com tudo que aconteceu por lá e foi revelado. E a vontade era, mesmo, de espalhar aquele cenário marcado pela indignação, mas também pela consciência e pela fé de que podemos mudar o curso dessa história vergonhosa.

Mas a agenda desse dia foi muito além do encontro colossal ao ar livre, e começou cedo.

ativista indígena Txai Suruí primeira brasileira a discursar numa conferência de clima da ONU – a atriz Letícia Sabatella e ambientalistas participaram de uma audiência pública com a Comissão de Meio Ambiente do Senado para tratar de formas para reduzir o desmatamento e as queimadas.

Foto: Reprodução de vídeo

“Este ato de hoje, aqui em Brasília, é mais que um ato pela Terra, é um ato pelas nossas vidas, a vida dos povos indígenas que, diariamente, são ameaçados, que diariamente têm seus territórios invadidos e destruídos”, declarou a liderança indígena. 

No início da tarde, o palco para o encontro popular já estava montado e os manifestantes já se reuniam no gramado da Esplanada, enquanto quatro ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) – Carmem Lúcia, Alexandre Moraes, Rosa Weber e Luiz Roberto Barroso – recebiam Caetano Veloso e um grupo de artistas no gabinete da presidente da instituição. 

"O Brasil tem alma, o Brasil tem gente, o Brasil resiste!", diz Caetano Veloso no maior ato pelo meio ambiente realizado em Brasília
Foto: Mídia Ninja

No encontro que durou 20 minutos, eles destacando sua preocupação com “o retrocesso e a destruição ambientais”, promovidos pelo governo e pelo Congresso Nacional, entregaram um manifesto e pediram que a Corte priorize o julgamento de ações que por lá tramitam e tratam de questões indígenas e do meio ambiente.

Carmem Lúcia arrematou: “Todos os brasileiros devem cumprir a Constituição”. Então, que assim seja, STF! E todos posaram para uma foto histórica.

"O Brasil tem alma, o Brasil tem gente, o Brasil resiste!", diz Caetano Veloso no maior ato pelo meio ambiente realizado em Brasília
Foto: Mídia Ninja

Em seguida, outras personalidades e lideranças indígenas se juntaram ao grupo e seguiram para outro encontro: agora, no Salão Negro do Senado, com seu presidente, Rodrigo Pacheco, que os recebeu acompanhado pelo senador Randolfe Rodrigues

Lá, Daniela Mercury, Nando Reis, Cristiane Torloni, Seu Jorge e Sonia Guajajara pediram que os projetos que alteram leis ambientais  sejam recusados pelo Senado até que os povos tradicionais – indígenas e quilombola – e os cientistas sejam ouvidos e suas reivindicações consideradas. 

Foto: Mídia Ninja

Caetano Veloso também se pronunciou e leu, visivelmente tocado (foto acima), a carta entregue a Pacheco (que você pode ler neste link). 

“O país vive, hoje, sua maior encruzilhada ambiental desde a redemocratização. O desmatamento na Amazônia saiu do controle. A violência contra os indígenas e outros povos tradicionais aumentou. E as proteções sociais e ambientais, construídas nos últimos 40 anos, vêm sendo solapadas. Nossa credibilidade internacional esta1 arrasada. O prejuízo é de todos nós”. 

Sob o olhar frio de Pacheco, aconteceu um dos momentos mais emocionantes dessa audiência: Caetano cantou a música Terra – que escreveu quando estava preso na época da ditadura militar -, acompanhado por todos que estavam na plateia. No final deste post, assista a um trecho: reproduzi o link do psot da Mídia Ninja no Instagram.

O final, gigante!

"O Brasil tem alma, o Brasil tem gente, o Brasil resiste!", diz Caetano Veloso no maior ato pelo meio ambiente realizado em Brasília
Foto: Mídia Ninja

Lá fora, na Esplanada dos Ministérios, cerca de 15 mil pessoas aguardavam Caetano e seus convidados. 

A comitiva cresceu com a chegada de mais músicos, artistas e lideranças indígenas como Célia Xakriabá, Lala Zaid, Duda Beat. Baco Exu do Blues, Zezé Polessa, Cissa Guimarães, entre outros. 

Caetano subiu ao palco com outro figurino – substituiu o costume e a camisa social por calça jeans e camisa florida, linda! E gritou: “O Brasil tem alma! O Brasil tem gente! O Brasil resiste!”, agradecendo a presença e  convidando todos a se engajarem nesta causa urgente.

Todos os artistas se pronunciaram. A sentença que não para de ser pronunciada desde 2018 – “Fora Bolsonaro!” – ecoou diversas vezes. 

Foto: Mídia Ninja

A empresária Paula Lavigne, esposa de Caetano e líder do movimento 342 Amazônia, convidou a plateia a gritar “Lira, não! Lira, não aprove o pacote da destruição!”, certamente enquanto o presidente da Câmara dos Deputados articulava mais um retrocesso.

O show começou com Caetano, que levou a plateia ao delírio. Depois de diversas apresentações, o músico voltou ao palco acompanhado por lideranças indígenas e cantou Um Índio – que se tornou hino para esses povos -, protagonizando um dos momentos mais impactantes desse dia histórico.

Foto: Mídia Ninja

Sim, o Brasil é muito maior que Bolsonaro.!, como declarou Caetano nessa noite. E a gente deve mostrar isso nas urnas, em outubro. E, até lá,  lutar para impedir que seus planos de destruir o país sejam bem sucedidos. 

Se faltar inspiração, reveja as imagens da Esplanada lotada de brasileiros unidos pela proteção das florestas e de seus guardiões. Por futuro comum

Foto: Mídia Ninja
Foto: Mídia Ninja

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Entre os artistas e personalidades que aceitaram o convite de Caetano estavam Daniela Mercury, Seu Jorge, Emicida, Nando Reis, Alessandra Negrini, Cristiane Torloni, Malu Mader, Maria Ribeiro, Lázaro Ramos, Criolo, Mariana Ximenez, Maria Gadu, Leticia Sabatella, Maria Paula, Duda Beat, Baco Exu do Blues, Leona Cavalli, Cissa Guimarães, Elisa Lucinda, Zezé Polessa, Lala Zaid, Rafa Kalimann, as chefs Bel Coelho, Bela Gil e Paola Carosella e a ativista e protetora dos animais, Luísa Mell.

Agora, assista a um dos momentos mais emocionantes do Ato pela Terra: Caetano e convidados cantam ‘Terra’ para Rodrigo Pacheco, no Salão Negro do Senado.

Fotos: Mídia Ninja (navegue em seu perfil no Instagram para ver todos os momentos registrados em sua super cobertura)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.