O afegão Abbas Karimi da Equipe Paralímpica de Refugiados não ganhou medalha, mas tem lugar garantido no pódio da vida

O afegão Abbas Karimi da Equipe Paralímpica de Refugiados não ganhou medalha, mas tem lugar garantido no pódio da vida

Mohammad Abbas Karimi nasceu sem os braços. Apesar disso, sua família decidiu criá-lo como qualquer outro menino de Cabul, no Afeganistão. Todavia, com o tempo, ele começou a sofrer bullying. Para poder enfrentar fisicamente as agressões sofridas, começou a praticar kickboxing aos 12 anos. Mas não era no ringue que o garoto afegão conseguia extravasar, e sim, na água. Eram os banhos de rio próximo à sua casa. E quando seu irmão construiu uma piscina de 25 metros para a comunidade local, ele teve certeza de sua grande paixão: a natação.

“Eu tinha 13 anos quando saltei na piscina pela primeira vez. Tive tanto medo, mas foi assim que comecei. Dia a dia achei mais interessante e aprendi a nadar. Adoro água desde criança. Às vezes meus amigos e eu nem íamos à escola, íamos ao rio e pulávamos de roupa e quando saíamos o sol quente a secava”, relembra.

O atleta paralímpico afegão é um dos seis integrantes da Equipe de Refugiados dos Jogos de Tóquio 2020. Vindos de países diferentes, todos deixaram para trás suas pátrias devido a conflitos e perseguição. A primeira vez que um time selecionado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) participou dos Jogos Olímpicos foi no Rio de Janeiro, em 2016 (leia mais aqui).

Karimi saiu do Afeganistão quando tinha 16 anos. Deixou sua terra natal, que durante sua infância foi controlada pelo Talibã e meninos precisavam de braços para segurar armas e metralhadoras. “Quando você nasce deficiente, sem braços ou pernas ou partes do corpo faltando no Afeganistão, você é considerado sem esperança”, diz.

Durante os quatros anos seguintes, ele viveu em quatro campos de refugiados diferentes na Turquia. Em um deles, destinado a pessoas com deficiência, conseguiu continuar praticando a natação. Em pouco tempo, já estava conquistando medalhas, incluindo vitórias em campeonatos nacionais.

“Nadar me acalma. É como um escudo para mim, sempre me protegendo. Se eu estou chateado ou a qualquer momento que eu tiver algum problema, eu simplesmente entro na água e isso me relaxa. A natação salvou minha vida. Ela abriu meu coração e está na minha alma”.

Entretanto, por causa da falta de documentação, o nadador não podia participar de competições internacionais. Até que o treinador de luta livre, o americano Mike Ives, viu um vídeo de Karimi pedindo ajuda do governo afegão para que ele fosse às Paralímpiadas do Rio. Com a ajuda da ACNUR, foi possível levar o nadador para os Estados Unidos.

O afegão Abbas Karimi da Equipe Paralímpica de Refugiados não ganhou medalha, mas tem lugar garantido no pódio da vida

Hoje Karimi treina seis dias por semana num centro aquático em Fort Lauderdale, na Flórida, onde vive. Em 2017, conquistou uma medalha de prata nos 50 metros borboleta, no Campeonato Mundial Paralímpico de Natação, no México.

Dois anos depois, logo após participar de outro evento mundial, em Londres, sofreu uma das maiores perdas da vida. O pai havia falecido. “Voltei ao Afeganistão por onze dias para ficar com minha mãe. Chorei muito. Queria desistir porque, quando me coloquei nesse caminho, desisti de tudo. Custou-me muito tentar me tornar um campeão paralímpico . Meu pai me disse: ‘Eu sabia quando você nasceu que se tornaria alguém especial'”.

Agora, em Tóquio, aos 24 anos, Karimi sonhava com uma medalha. Mas ainda não foi dessa vez. Chegou em oitavo lugar nos 50 metros borboleta, sua especialidade. Mas aos olhos do mundo, ele já está no pódio e é um exemplo para todos nós.

“Quando eu morrer, quero que as pessoas saibam que Abbas Karimi, sem braços, nunca desistiu de seus sonhos e seus objetivos. Posso fazer algo para mudar o mundo. Percebi que poderia fazer isso sendo um campeão, um campeão paralímpico”, afirma o afegão.

*Com informações do Comitê Paralímpico Internacional

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Fotos: divulgação Comitê Olímpico Internacional/Getty Images/Michael Reave

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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