Número de desastres naturais aumentou quase 75% nas últimas duas décadas, resultando na morte de 1,2 milhão de pessoas

Número de desastres naturais aumentou quase 75% nas últimas duas décadas, resultando na morte de 1,2 milhão de pessoas

As fotos que ilustram esta reportagem foram feitas no Haiti e são apenas dois registros de como os impactos da crise climática têm afetado a vida de milhões de pessoas no mundo todo. Sobretudo a dos mais pobres. A menina que aparece com o rosto coberto de lágrimas havia recebido tratamento contra a cólera, depois de ser infectada pela doença. Um surto ocorreu na ilha do Caribe, após o terremoto que a devastou em 2010. A imagem mais abaixo mostra crianças brincando em meio aos escombros, dos prédios destruídos.

Há anos especialistas alertam que o aumento da temperatura da superfície da Terra fará com que os chamados eventos climáticos extremos, como enchentes, incêndios florestais, secas históricas e furacões, se tornarão mais frequentes e intensos.

Mas os alertas têm sido ignorados. O planeta teve a década mais quente da história e 2019 foi o segundo ano com as mais altas temperaturas já registradas.

E um novo levantamento traz mais números para que governantes entendam – e ajam! – , de uma vez por todas, porque a natureza não dá sinais de que dará trégua, caso as emissões de gases de efeito estufa se mantenham no ritmo atual.

O relatório divulgado pelas Nações Unidas para marcar o Dia Internacional para a Redução dos Riscos de Desastres, 13 de outubro, analisa como nações do mundo inteiro enfrentaram, nas últimas duas décadas, eventos catastróficos como terremotos e tsunamis até ameaças biológicas, como a pandemia do novo coronavírus.

“Houve um aumento impressionante nas emergências climáticas entre os anos de 2000 e 2019”, destacam os especialistas envolvidos na elaboração do documento, que contou com o trabalho do Belgium’s Centre for Research on the Epidemiology of Disasters. De acordo com a análise, foram registrados 7.348 desastres nos últimos 20 anos, em comparação a 4.212 entre 1980 e 1999, um salto de 74,4% nessas ocorrências.

Cerca de 1,2 milhão de pessoas morreram, aproximadamente 60 mil por ano, e outras 4 bilhões foram afetadas por esses eventos. Os prejuízos econômicos chegam a U$ 2,9 trilhões.

“Nações industrializadas estão falhando miseravelmente na redução das emissões de gases de efeito estufa ”, afirmou Mami Mizutori, representante especial do Secretário-Geral para Redução de Risco de Desastres da ONU.

Número de desastres naturais aumentou quase 75% nas últimas duas décadas, resultando na morte de 1,2 milhão de pessoas

Crianças brincam no meio de casas destruídas pelo terremoto no Haiti

O relatório aponta que as inundações foram responsáveis por mais de 40% dos desastres, seguidas por tempestades (28%), terremotos (8%) e temperaturas extremas (6%).

“Esta é uma evidência clara de que em um mundo onde a temperatura média global em 2019 era 1,1oC acima do período pré-industrial, os impactos estão sendo sentidos no aumento da frequência de eventos climáticos extremos”, ressalta o documento.

Para a representante da ONU, apesar do fato de que esses desastres relacionados às alterações no clima do planeta se tornaram tão regulares nos últimos 20 anos, apenas 93 países implementaram estratégias de risco de desastres em nível nacional.

“A governança do risco de desastres depende de liderança política acima de tudo e do cumprimento das promessas feitas pelo Acordo de Paris. Mas o triste é que somos deliberadamente destrutivos. E essa é a conclusão deste relatório: a COVID-19 é apenas a prova mais recente de que os políticos e líderes empresariais ainda não se sintonizaram com o mundo ao seu redor”, criticou Mami Mizutori.

“É realmente tudo uma questão de governança se quisermos livrar este planeta do flagelo da pobreza, da perda de espécies e da biodiversidade, da explosão do risco urbano e das piores consequências do aquecimento global”, salientou.

Sobre a pandemia do novo coronavírus, os pesquisadores das Nações Unidas afirmam que praticamente todas as nações falharam ao prevenir uma ” onda de mortes e infecções”.

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Fotos: Flickr/UNICEF/Marco Dormino (Haiti, 2010)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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