Nove ex-ministros do Meio Ambiente pedem que Alemanha, Noruega e França ajudem a Amazônia

Nove ex-ministros do Meio Ambiente pedem que Alemanha, Noruega e França ajudem a Amazônia

Em uma carta enviada hoje, ex-ministros do Meio Ambiente do Brasil relatam a grave crise ambiental e de saúde que a Amazônia enfrenta e pedem ajuda a líderes de três países europeus. O texto é endereçado ao presidente da França, Emmanuel Macron, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e a primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg.

“A Amazônia brasileira está sendo devastada neste momento por dupla calamidade pública, ambiental e de saúde, que necessita da urgente solidariedade e colaboração de países amigos interessados de forma genuína e desinteressada na solução dos problemas amazônicos”, diz o primeiro parágrafo da carta (leia texto completo mais abaixo).

Assinam o documento José Goldemberg, Rubens Ricupero, Gustavo Krause, Izabella Teixeira, José Sarney Filho, José Carlos Carvalho, Marina Silva, Carlos Minc e Edson Duarte.

Os nove ex-ocupantes do ministério do Meio Ambiente solicitam a doação de equipamentos que ajudem no enfrentamento da pandemia da COVID-19 na Amazônia, como por exemplo, cilindros de oxigênio, concentrador de oxigênio, usinas de produção de oxigênio medicinal, equipamentos para a instalação de unidades de terapia intensiva, macas e oxímetros.

As cidades amazonenses enfrentam o colapso na maioria de seus hospitais. Não há mais leitos disponíveis em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), o estoque de oxigênio é mínimo e pacientes estão morrendo sem tratamento. Quase 300 já foram transferidos para outros estados e hoje, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que está em Manaus, afirmou que outros 1,5 mil podem ser enviados também para outras capitais.

Nas últimas semanas, entre as dezenas de mortes diárias registradas em Manaus, dois cientistas também perderam a vida para a COVID-19: os biólogos Marcelo Menin e Richard Vogt, um dos maiores pesquisadores do mundo sobre tartarugas.

De acordo com dados da Secretária Estadual de Saúde do Amazonas, em 20 dias de janeiro, as mortes pelo coronavírus superaram a soma dos últimos três meses.

Nove ex-ministros do Meio Ambiente pedem que Alemanha, Noruega e França ajudem a Amazônia

Pacientes sendo transportados para outros estados

Em 2019, Noruega e Alemanha, os principais financiadores do Fundo da Amazônia, cancelaram o repasse de verbas para a iniciativa, depois que o governo federal (leia-se ministro Ricardo Salles) decidiu, por conta própria, tentar mudar as regras do fundo.

Confira abaixo o texto, na íntegra, da carta enviada a esses países e à França:

“Senhor Presidente e Senhoras Primeiras Ministras,

A Amazônia brasileira está sendo devastada neste momento por dupla calamidade pública, ambiental e de saúde, que necessita da urgente solidariedade e colaboração de países amigos interessados de forma genuína e desinteressada na solução dos problemas amazônicos.

No ano de 2020, a região sofreu aumento sem precedentes do desmatamento e das queimadas florestais, que atingiram cifras não registradas há uma década. Incêndios criminosos, em larga escala, durante o período de estiagem, agravaram enormemente os problemas respiratórios
causados pela pandemia da Covid-19, contribuindo para a elevada taxa de óbitos na Amazônia.

Infelizmente, as primeiras semanas do ano de 2021 vêm coincidindo com um colapso do sistema hospitalar que se iniciou por Manaus, capital do estado do Amazonas, já se propaga rapidamente pelo interior desse estado de mais de um milhão de km² e ameaça os demais estados amazônicos. Uma característica particularmente cruel do colapso atual reside na ausência de oxigênio, o que vem provocando a morte atroz por asfixia de centenas de pessoas, às vezes aniquilando famílias inteiras.

Com mais de 30 milhões de habitantes, a Amazônia brasileira sofre de problemas que a tornam especialmente vulnerável à pandemia em razão do isolamento, da pobreza, da estrutura precária de saúde e da dificuldade de acesso. Essa situação se vê agravada pelo padrão de dispersão da população que vive às margens dos grandes rios e dos povos indígenas que habitam
áreas ainda mais distantes.

Grande parte dessas populações que estão sendo dizimadas pela pandemia são justamente as detentoras de valiosos conhecimentos tradicionais associados aos recursos naturais. Esses grupos são também os principais guardiões da floresta, da qual necessitam para sua própria sobrevivência e cujo modo de vida e valores culturais os levam a conviver armoniosamente
com a biodiversidade.

Conhecendo de perto a realidade amazônica, os signatários desta carta, ex-ministros do Meio Ambiente do Brasil, sabem por experiência que nem o governo federal nem os governos locais possuem todos os meios indispensáveis para socorrer as populações mais frágeis e vulneráveis
da região. É por esse motivo que nos permitimos dirigir um veemente e emocionado apelo a Vossa Excelência, em favor de imediata ajuda a essas populações, sob a forma de doação de materiais, equipamentos e medicamentos vitais para assegurar a sobrevivência deles, como por
exemplo: cilindros de oxigênio, concentrador de oxigênio, usinas de produção de oxigênio medicinal, equipamentos para a instalação de unidades de terapia intensiva, macas, oxímetros, bi-level positive airway pressure (bipap), compressor que infla as vias aéreas superiores (vpap)
e remédios usados no tratamento hospitalar da Covid-19.

Solicitamos igualmente que V. Exa possa se fazer intermediária, junto a outros governos de países desenvolvidos, deste urgente pedido de socorro que lhes dirigem os necessitados habitantes das nossas florestas, tão severamente assolados pela pandemia.

Um gesto efetivo de solidariedade nesta hora dramática jamais será esquecido pelos brasileiros de todas as regiões e se constituirá em mais uma demonstração do compromisso de sua nação com a proteção da floresta amazônica e com o bem-estar de seus habitantes.

Por fim, encaminhamos o link do artigo do The Guardian, como suplemento a esta carta, que retrata de forma verossímil a situação calamitosa do Estado do Amazonas e, em especial de Manaus.”

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Foto: Márcio James/Amazônia Real/Fotos Públicas e divulgação Ministério da Saúde

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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