Novas espécies de corujas minúsculas são descobertas na Amazônia e na Mata Atlântica e já estão em risco de extinção

Novas espécies de corujas minúsculas são descobertas na Amazônia e na Mata Atlântica e já estão em risco de extinção

*por Liz Kimbrough, traduzido por Roberto Cataldo

“São corujinhas lindas, provavelmente com 13 a 15 centímetros de comprimento e com tufos de penas na cabeça”, disse John Bates, curador de aves no Museu Field de Chicago e um dos pesquisadores que descreveram a nova espécie de corujas na revista científica Zootaxa.

“Algumas são marrons, outras são cinzentas e outras, ainda, ficam no meio termo [entre as duas cores].”

A descoberta é resultado de vários anos de trabalho em florestas, acervos de história natural e análises em laboratório do complexo da corujinha-sapo/corujinha orelhuda (Megascops atricapilla – M. watsonii), um grupo de corujas cujo número total de espécies é incerto.

Ao todo, os pesquisadores analisaram 252 espécimes, 83 gravações de gritos e 49 amostras genéticas.

“Para atrair os pássaros, nós usamos gravações”, disse Bates. “Nós gravamos os seus gritos e depois os reproduzimos. As corujas são territoriais e, ao ouvir as gravações, saem para defender seu território”.

Examinando de perto a aparência, os gritos e o DNA das corujas, os cientistas determinaram que havia diferenças suficientes para classificar duas espécies como novas.

Novas espécies de corujas minúsculas são descobertas na Amazônia e na Mata Atlântica e já estão em risco de extinção
Acredita-se que a recém-descrita corujinha-de-alagoas (Megascops alagoensis),
da Mata Atlântica, esteja em perigo crítico. Foto: Gustavo Malacco

Ameaçadas pelo desmatamento

As novas corujas foram denominadas corujinha-de-Alagoas (Megascops alagoensis), em referência ao estado nordestino onde vive, e corujinha-do-Xingu (Megascops stangiae) em homenagem ao Rio Xingu, na Amazônia, e à falecida Irmã Dorothy Mae Stang, ativista dos direitos à terra nascida nos Estados Unidos e radicada no Brasil. A freira católica foi assassinada em 2005.

Embora sejam novas para a ciência, as corujas estão em risco de extinção e provavelmente serão classificadas como em perigo crítico.

“As duas novas espécies estão ameaçadas pelo desmatamento”, disse Jason Weckstein, coautor do estudo, professor associado e curador de ornitologia da Academia de Ciências Naturais da Universidade Drexel.

“A corujinha-do-Xingu é endêmica da área mais atingida pelos incêndios que ocorreram na Amazônia em 2019, e a corujinha-de-Alagoas deve ser considerada em perigo crítico devido à ampla fragmentação florestal na minúscula área onde ocorre”.

Novas espécies de corujas minúsculas são descobertas na Amazônia e na Mata Atlântica e já estão em risco de extinção
Uma das espécies recém-descritas, a corujinha-do-Xingu (Megascops stangiae) foi batizada
em homenagem à falecida ativista Irmã Dorothy Mae Stang. Foto: Kleiton Silva

A corujinha-de-Alagoas foi encontrada em apenas cinco fragmentos isolados de Mata Atlântica. Restam em torno de 10% do bioma, que é um dos mais biodiversos do planeta.

Antes da descoberta, as novas espécies de coruja estavam agrupadas com duas outras espécies da América do Sul: a corujinha-sapo e a corujinha-orelhuda.

Com 21 espécies nas Américas, seu gênero, Megascops, é o mais rico em espécies do Hemisfério Ocidental. No entanto, muitas são parecidas, por isso tem sido difícil determinar quais delas são espécies diferentes.

O principal do estudo, Sidnei Dantas, que coletou muitas das gravações de campo e
amostras de tecido durante sua pesquisa de doutorado, medindo espécimes
de coruja no Museu Field. Foto: John Bates/Museu Field

“As corujas são consideradas um grupo bem conhecido em comparação com alguns outros tipos de organismos nessas áreas”, diz Bates. “Mas quando a gente começa a ouvir essas aves e compará-las em toda a extensão geográfica, descobre que há aspectos que as pessoas não haviam notado. É por isso que essas novas espécies estão sendo descritas”.

“Nem mesmo entre ornitólogos profissionais que trabalharam a vida toda com corujas haveria consenso sobre o número real de espécies encontradas nesse grupo”, diz Alex Aleixo, chefe da equipe de pesquisa responsável pelo estudo e curador de aves no Museu Finlandês de História Natural, da Universidade de Helsinque. “Então, um estudo como o nosso é esperado há muito tempo”.
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Citação: Dantas, S. M., Weckstein, J. D., Bates, J., Oliveira, J. N., Catanach, T. A., & Aleixo, A. (2021). Multi-character taxonomic review, systematics, and biogeography of the black-capped/tawny-bellied screech owl (Megascops atricapilla-M. watsonii) complex (Aves: Strigidae). Zootaxa, 4949(3), 401-444. doi: 10.11646/zootaxa.4949.3.1

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*Este texto foi publicado originalmente no site Mongabay Brasil em 3/5/2021 e publicado, aqui, por Mônica Nunes

Fotos: Gustavo Malaccoe Kleiton Silva

Mongabay Brasil

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