Nossas árvores africanas

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A população brasileira é dotada de grande pluralidade cultural, com referências que reúnem conexões com todo o mundo. Historicamente, desde a chegada dos portugueses vemos essa mesma pluralidade retratada na vegetação que ocupa nossas cidades.

Como já disse no post anterior, neste blog, a maior parte da vegetação utilizada ao longo dos últimos cinco séculos na composição paisagística urbana é basicamente exótica, ou seja, é formada por espécies originárias de outros países e biomas. Em inúmeras cidades brasileiras, temos árvores e outras categorias de plantas vindas de quase todos os continentes. Por isso, quando caminhamos  pelas ruas e aprendemos a conhecer as espécies, o que acontece, na verdade, é o aprendizado de um pouco da identidade ambiental de inúmeros lugares do mundo.

São árvores que têm raízes evolutivas na África, na Ásia, na Europa, Oceania, em ilhas diversas, na América Central e também em muitos países vizinhos do Brasil. Essas espécies chegaram por aqui de formas diversas e uma das coisas de que mais gosto de lembrar é da referência afetiva promovida pelas plantas em cada local onde vivemos, ou de onde viemos. Explico.

Imagine quantos imigrantes pelo mundo que, em suas viagens e mudanças de continente, quiseram guardar e manter uma lembrança viva de sua origem, de sua terra, de seu país, Quantos trouxeram com eles um pedacinho dessa vida como, por exemplo, sementes e pequenas mudas das espécies mais comuns na paisagem de sua terra natal.

Outras formas comuns nessa multiculturalidade expressa na vegetação é a própria capacidade comercial de reprodução das espécies. E isso os europeus já sabiam muito bem já que eles cultivavam espécies africanas, asiáticas, indianas e também europeias. Quando optaram por especificar espécies para a arborização urbana brasileira, preferiram as espécies que conheciam lá em detrimento das existentes em nossa diversidade florestal.

As espécies de origem e representatividade africana, facilmente identificadas na arborização e no paisagismo das cidades brasileiras, são muitas e se adaptaram bem por aqui. Mas é importante saber que algumas vezes as espécies transportadas de uma região para outra tornam-se ameaça à biodiversidade natural do local, inclusive algumas vezes promovendo impactos negativos na capacidade natural de reprodução das espécies nativas.

As ilhas, em geral, sofrem muito mais com a chegada de espécies exóticas, como é o caso da Austrália que faz um controle fortíssimo na entrada de materiais biológicos em seu território. Mas, com tanta conexão global, essa situação é muito comum. No Brasil, essa invasão é tão forte que, hoje, temos algumas espécies classificadas como exóticas-invasoras pelos seus impactos danosos à biodiversidade local. É o caso da palmeira australiana seafórtiaArchontophoenix cunninghamii – muito utilizada em paisagismo. Suas sementes atingiram, por intermédio das das aves, algumas áreas de reserva e têm prejudicado a reposição natural da palmeira-juçaraEuterpe edulis -, que é uma espécie de palmeira essencial para o equilíbrio ecológico das florestas. Isso acontece, principalmente, por ela ser uma palmeira exótica, ou seja, sem predadores naturais em nosso país.

Entre as espécies africanas, há algumas – que apresento a seguir – sob atenção e classificação de invasoras. Na minha opinião, situações como essa devem ser controladas com um plano de substituição e manejo para compor as áreas com espécies nativas, pois toda árvore está cumprindo funções importantes para a manutenção da saúde ambiental das cidades, e remover essas árvores adultas sem um plano de reposição e substituição por nativas traria mais prejuízos do que benefícios nas primeiras décadas.

Saiba mais sobre três adoráveis espécies de árvores africanas:

nossas-arvores-africanas-2Flamboyant – Delonix regia, família botânica Leguminoseae – é a árvore flamejante. Quando floresce é extremamente marcante em qualquer caminho. Já encontrei flamboyants em muitas regiões diferentes do Brasil, até mesmo em cidades que pertencem ao bioma da Caatinga. A região de ocorrência natural da espécie é a ilha de Madagascar. E aqui vai uma curiosidade: poucos sabem que, além da variedade com flor vermelha, também existe outra com flores amarelas como a da foto. As duas são lindas e incríveis e, por isso, podemos passar um bom tempo contemplando sua beleza, suas formas e existências. O Flamboyant é uma árvore espetacular, desde suas raízes largas – que dão o sustento necessário ao seu tamanho – à copa gigantesca. Quando vemos um Flamboyant nas ruas de cidade, logo notamos: sua copa costuma cobrir a passagem inteira da rua, mesmo quando está sem flores! Ela tem folhas e folíolos bem pequeninos, muito delicados, que parecem flutuar. Quando observo aves descansando sobre sua copa, eles parecem suspensos em uma nuvem verde. E, finalmente, falo de sua vagem que, quando aberta, pode até virar um brinquedo do tipo reco-reco. Encontrar ou ter um Flamboyant como companheiro é um privilégio. Escrevi sobre essa espécie, em 2007, no site do Instituto Árvores Vivas, que dirijo.

Espatódea – Spathodea campanulata – também conhecida por bisnagueira ou tulipeira-africana é uma árvore oriunda da África Central. É da mesma família botânica dos ipês – Bignoniaceae – e pode ter flores alaranjadas ou amarelas. É comum encontrar as duas espécies plantadas às margens do Rio Pinheiros em São Paulo, o que, nesta época do ano, é um espetáculo para se ver. Há pesquisas que sinalizam a presença de um princípio ativo nas flores da Espatódea que pode matar as abelhas. O formato dos botões florais é muito bonito e revela uma grande flor com pequenos botões. As crianças costumam brincar muito com as flores de espatódea que fazem reserva de água em seu botão; elas as usam como disparador de jato de água. As grandes pétalas são muito chamativas. Seus frutos são vagens que, quando secas e maduras, também servem de brinquedo, como pequenos barquinhos. As sementes são leves como as sementes dos ipês e voam facilmente com o vento, encontrando novos locais para germinar.

nossas-arvores-africanas-1Tamarindo – nome científico: Tamarindus indica – tem origem nas savanas africanas, apesar de ser muito cultivado na Índia. A árvore proporciona inúmeros usos para a sociedade, seja medicinal seja como provedora de matéria-prima. Mas o que mais me chama atenção em sua existência é a delicadeza. Conheci algumas árvores de Tamarindo, curiosamente todas em terrenos bastante férteis e úmidos. Com suas copas de folhas miúdas, ela cria uma sombra leve no espaço. As flores são super pequenas e delicadas. Se souber onde vive um Tamarindo, recomendo muito que tome tempo a observá-lo. Procure suas flores, sinta a delicadeza da textura das folhas em seus dedos e, se possível, prove um suco de tamarindo lendo um livro em boa companhia junto de seu tronco. É mágico.

Sempre acompanho diferentes mídias que divulgam informações sobre a flora e, por isso, quero compartilhar com você uma fonte de que gosto bastante: são os vídeos Você sabia? de autoria do biólogo Massanori Takai. Com ele, você pode conhecer outras plantas africanas comuns no nosso dia-a-dia, como Copo-de-leiteEspada-de-São-Jorge e Agapanto

No portal Minhas Plantas, você também pode encontrar muitas informações sobre espécies diversas e, aqui, já deixo uma dica bacana de lá: uma outra amiga comum de todos nós, também de origem africana, a Maria-sem-vergonha.

E, para finalizar, quero falar de uma das árvores (africanas) mais simbólicas do mundo, o Baobá. De dimensões espetaculares, é uma das espécies que mais tem histórias, mitos e lendas em torno de sua existência. Falei muito dela em 2011, durante uma exposição itinerante realizada pelo Instituto Árvores Vivas. No site, contei como foi a experiência de abrir os frutos desta árvore que, nessa ocasião, compôs o acervo de elementos das árvores da tal exposição.

Apreciar a natureza e a diversidade de plantas em um mundo globalizado é um exercício multidisciplinar. Começamos por saber mais sobre como germinar suas sementes e descobrimos conexões com momentos marcantes da história, ou dados de representantes especiais de outros locais do mundo. Com as plantas é assim e podemos aprender sempre algo novo todos os dias.

Foto: Flor de flamboyant-vermelho, flor de flamboyant-amarelo e fruto de tamarindo / Juliana Gatti

Juliana Gatti

Mestranda na área de Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, sua pesquisa dedica-se a avaliar a influência da natureza na qualidade de vida de crianças e sociedade. Idealizou o Instituto Árvores Vivas em 2006, onde promove ações de conexão com a natureza por meio de apreciação, restauração e fomento da cultura ambiental.

4 comentários em “Nossas árvores africanas

  • 27 de abril de 2016 em 4:14 PM
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    Meus melhores cumprimentos!
    Edson Vilela – Itu, SP
    Sugestão: Conheça o trabalho do Sr. Helton Josué, especialista em frutas e plantas raras, contato pelo e-mail abaixo.
    hnjosue@ig.com.br / 15 98132-5140

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    • 28 de abril de 2016 em 1:36 PM
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      Olá Edson, agradeço seu contato e por acompanhar o blog! Vou conhecer sim o Sr Helton, enviarei email para ele! Abraço

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  • 23 de setembro de 2017 em 8:09 AM
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    É muito radical ser contra espécies invasoras. As espécies nativas do território onde hoje o Brasil está localizado não são de importância cultural para o Brasil e sim apenas de importância ambientalista radical e registratória (visto que só sabemos das espécies nativos do Brasil através de documentos botânicos e zoológicos feitos por expedições científicas).

    A idéia de achar que espécies invasoras é algo ruim veio do do livro Ecology of invasion by animals and plants, do ambientalista Charles Shuterland Elton, lançado em 1958, o livro foi lançado precocemente para a época, pois ainda tinhamos um grande fluxo de imigrantes europeus chegando nas Américas, África, Ásia e Oceania e introduzindo espécies invasoras de origem européia, além de que nessa época ainda existia os impérios coloniais, eles faziam introdução de espécies invasoras, levavam espécies nativas da metrópole colonial e países vizinhos para introduzirem nas côlonias e espécies nativas das colônias e do Sudeste da Europa para introduzirem em países europeus ocidentais. Assim como o Brasil da época era do tipo que o Brasil não sabe nada e nem quer saber sobre as espécies nativas do território onde o Brasil está localizado. O livro também é uma hipocrisia do autor, visto que Charles Elton participou como militar da Segunda Guerra Mundial e muitos militares da Segunda Mundial introduziram espécies invasoras na Oceania.

    Para o Brasil, assim como para a Austrália, o livro de Charles Elton também hipocrisia, pelo fato do Brasil e da Austrália estarem localizados fora da Europa, da África ou da Ásia, assim como é uma hipocrisia para Portugal ou para a Inglaterra pelo fato de terem tido Impérios coloniais e tiveram participação na rota das especiarias.

    Com o passar do tempo, os biólogos, os ambientalistas, muitos governos e a IUCN começaram a levar a ideia transmitida pelo livro de Charles Elton a sério demais.

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    • 25 de setembro de 2017 em 4:10 PM
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      Olá Daniel, agradeço sua visita e participação no Blog. ótimos dados e visão que você apresenta. O processo de classificação de árvores como invasoras é bastante falho no meu entendimento também, pelos motivos ecológicos que cumprem na maioria das vezes e com certeza o tratamento deve ser muito bem estudado antes de optarem pro supressão das árvores. precisamos ficar atentos e participar das discussões sobre o assunto. Abraço

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