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“Nós, que não defendemos a agenda autoritária, negacionista, somos desrespeitados”, diz Marina Silva sobre sessão com parlamentares ruralistas

"Nós, que não defendemos a agenda autoritária, negacionista, somos desrespeitados", diz Marina Silva sobre sessão com parlamentares ruralistas

Como era previsível (devido aos ataques que sofreu no Senado, em maio), ontem (2), a ministra Marina Silva foi novamente respeitada por parlamentares em sessão na Câmara dos Deputados. Desta vez, a convocação veio da Comissão de AgriculturaPecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, que disse buscar esclarecimentos sobre desmatamentos e queimadas.

Em coletiva de imprensa, após a sessão, Marina declarou que esse comportamento não é novo e que “o desrespeito às vezes é a única coisa que essas pessoas, que não conhecem o respeito, são capazes de oferecer”. E completou: “Todos nós que não defendemos a agenda autoritária – negacionista, que não reconhece a mudança do clima –, somos desrespeitados”.

Os deputados Túlio Gadêlha (Rede/PE), Talíria Petrone (PSOL/RJ), João Daniel (PT/SE) e Juliana Cardoso (PT/SP), entre outros, defenderam a ministra, prestando-lhe solidariedade. 

Acusações infundadas

Ignorando a trajetória de Marina (prática comum dos parlamentares de direita e extrema direita no Congresso) e, certamente, ávido por produzir vídeos bombásticos para suas redes sociais, o deputado Evair Vieira Melo (PP/ES) chamou a ministra de “adestrada” e “mal-educada” e disse que ela usa a mesma tática das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e dos grupos terroristas palestino Hamas e libanês Hezbollah (!!). 

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Também declarou que, na sua gestão, “houve o maior recorde de queimadas da última década” e a acusou de falar inverdades, de adotar “discurso alinhado com ONGs internacionais” e de ir muito ao exterior e “andar pouco pelo Brasil”. E completou: “A senhora tem dificuldades com o agronegócio, porque a senhora nunca trabalhou, a senhora nunca produziu, não sabe o que é prosperidade construída pelo trabalho”. 

deputado Zé Trovão (PL/SC) afirmou que Marina é uma “vergonha como ministra”, enquanto o capitão Alberto Neto (PL/AM) sugeriu que ela deveria “pedir demissão”.

A falta de respeito e de conhecimento impressiona. E claro que o presidente da comissão e autor do requerimento de audiência, o deputado Rodolfo Nogueira (PL/MS) não ficaria de fora das agressões. Afirmou que, sob a gestão de Marina, o desmatamento na Amazônia aumentou 482%. “As queimadas bateram recorde, e sua resposta tem sido o silêncio ou a burocracia”. 

“Aqui, a senhora trouxe uma explicação para as queimadas do Brasil jogando a culpa em São Pedro, e o Ministério do Meio Ambiente nada faz diante do crescimento das queimadas e do desmatamento, desmatamento este praticamente liberado pelo ‘seu’ Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] para construir a estrada do COP30. Vergonhoso, ministra”. 

Marina rebateu Nogueira com dados: “O Ibama aumentou sua capacidade de fiscalização em 96%, o ICMBio aumentou sua capacidade de fiscalização em mais de 200%, nós aumentamos os nossos orçamentos, fizemos concursos, temos inúmeras operações, milhares de operações quando envolve terra indígena, desmatamento, exploração de madeira”. 

Ela contou que, na Amazônia, a queda acumulada dos alertas de desmatamento em junho de 2025, comparada a junho de 2022, foi de 65% (menor índice para junho desde 2015). “Pela primeira vez, temos uma situação em que o desmatamento por incêndio [52%] tem sido maior do que o desmatamento por corte raso [48% das áreas desmatadas]”.

“Foi graças a esses esforços, sob orientação do presidente Lula, que tem compromisso com desmatamento zero até 2030, que nós tivemos o resultado de redução do desmatamento de 46% na Amazônia nos dois primeiros anos e de 32% no Brasil inteiro nos dois primeiros anos de governo do presidente Lula”, completou. Mais: “Nesses dois anos, segundo ela, o agronegócio cresceu 15% e a renda capita cresceu cerca de 11%”.

A ministra também destacou as retomadas do plano de combate ao desmatamento, que o governo anterior tinha abandonado, e do Fundo Amazônia, desativado durante os quatro anos sob a gestão de Bolsonaro. 

Não satisfeito, o relator jogou nas costas de Marina e do Ibama a responsabilidade pela construção de uma rodovia na Amazónia para receber a COP30. “Que ironia cruel, um evento climático internacional sendo viabilizado à custa de desmatamento em plena floresta Amazônica”.

Marina explicou que a responsabilidade por essa obra não é do governo federal – que tem sido constantemente acusado –, que o Ibama não licenciou a estrada e, sim, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Pará, e sugeriu ao deputado que recorra a essa secretaria para explicações, caso discorde da estrada, esclarecendo: “São 13 km, um pequeno trecho, e pela lei ambiental consolidada você até pode ter uma licença dentro de uma área protegida, desde que atenda aos regramentos estabelecidos”.

Nogueira criticou o confisco de mais de 9 mil cabeças de gado pelo Ibama “de forma arbitrária, sem clareza dos critérios, sem respeito à propriedade privada, sem diálogo com os produtores”. E ainda se queixou que o produtor rural é tratado como “inimigo do governo”, sugerindo que seja feito investimento em programas de regularização, orientação e apoio técnico ao produtor – “criminalizar quem produz não é política pública; é perseguição ideológica”.

Marina defendeu a atuação do Ibama e informou que apenas 2,6% dos imóveis rurais concentram 60% das irregularidades e que o confisco de gado só ocorre em propriedades com operações comprovadamente fora da lei, depois de alerta e aplicação de multas. De acordo com a ministra, decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) respalda as ações.

“Não há como você cumprir com a função, numa cultura de muitos crimes ambientais que vão sendo praticados em relação ao desmatamento, à exploração de madeira, a garimpo e a incêndios criminosos, se o agente público vai lá e não cumpre com sua função institucional”. 

E a ministra lembrou ao parlamentar que quem se sente prejudicado pode recorrer em relação à penalidade aplicada.

Por fim, o relator criticou a falta de iniciativas do ministério para combater “a invasão de javalis às lavouras”. Em resposta, Marina cntou que o Ministério do Meio Ambiente está fazendo um plano nacional de prevenção, controle e monitoramento do javali. 

“Nós estamos fomentando a pesquisa, a avaliação de eficiência dos métodos para fazer esse manejo adequado e estamos criando estímulos a novos protocolos de manejo. Os animais não devem servir de alvo para aqueles que gostam de treinar tiros, existe um código de éticaque precisa ser observado”.

“Brasil recuperou seu lugar de potência ambiental”

Para complementar as informações deste post, reproduzo, a seguir, o texto publicado pela Agência Brasil, de autoria de Fabíola Sinimbu.

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou nesta quarta-feira (2), na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, o papel de protagonismo que o Brasil voltou a ocupar no cenário político internacional após reconstruir a política para o setor dentro do país. “O Brasil recuperou seu lugar de potência ambiental”, afirmou.

Segundo a ministra, apesar de todas as adversidades enfrentadas, o país acumula números positivos que já são reconhecidos em ambientes multilaterais. “Nesses dois anos em que o desmatamento caiu quase 46% na Amazônia e 32% no país inteiro, o agronegócio cresceu 15% e a renda per capita cresceu em torno de 11%”.

Os resultados foram alcançados com ações de prevençãocapacidade de mobilização e parceria com estados, municípios, organizações sociais e empresariado brasileiro, que se empenham no avanço da agenda ambiental, informou a ministra.

“Quem destrói é uma minoria. Apenas 2,6% dos imóveis rurais concentram 60% das irregularidades. A maioria não é irregular. Então, aqueles que o Ibama está autuando são os que comprovadamente promovem atividades fora da lei”.

A afirmação foi feita após ser questionada sobre a apreensão de 20 cabeças de gado ilegal que ocupavam a Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, no estado do Acre. A operação, realizada em junho, atuou para remover 400 bovinos mantidos irregularmente em toda a unidade de conservação federal. “Esses 2,6% não falam pelo agronegócio brasileiro”.

A ministra foi convidada a participar de audiência na comissão para esclarecer a atuação dos órgãos de fiscalização e o trabalho de combate aos incêndios nos biomas brasileiros. Ela disse que a redução do desmatamento só não foi maior por causa dos incêndios ocorridos em 2024. 

“De fato, nós tivemos em 2024 um aumento dos incêndios no Brasil, que se deu em função de um extremo climático que não afetou apenas o Brasil, mas afetou o mundo inteiro.”

extremo climático levou o país a um cenário de seca com baixa precipitação, temperatura alta e baixa umidade que potencializaram os incêndios iniciados de forma criminosa. “Isso fez com que a gente tivesse um processo de retroalimentação perverso”, ressaltou.

Avanços

Para enfrentar todas as adversidades, o governo federal destinou quase R$ 1,5 bilhão para ações de combate aos incêndios, estruturou a capacidade operacional ampliada para 3,5 mil brigadistas e reduziu a área atingida na comparação com os números de 2022.

“Fizemos uma verdadeira força-tarefa no país para evitar que tivéssemos uma situação de completo descontrole, porque a situação ficou muito agravada”, reforçou.

Agrotóxicos

A ministra também foi questionada sobre a demora na liberação do uso de agrotóxicos no país e informou que o Ibama tem autonomia para realizar as análises técnicas a partir de critérios que consideram os benéficos para a saúde pública, para o meio ambiente e para o próprio produtor rural.

[NOTA DO CONEXÃO PLANETA: importante lembrar que a cobrança dos parlamentares se deu um dia depois de o presidente Lula assinar decreto para a redução do uso de agrotóxicos]

Segundo Marina, a demora muitas vezes se dá pela insistência na aprovação de produtos que já foram proibidos anteriormente. “A maioria dos pedidos para autorização de novos agrotóxicos são para genéricos que não têm nenhuma molécula nova, nem atualização da fórmula”.

A ministra enfatizou ainda que boas práticas como o uso de bioinsumosrespeito a reserva legal e regularização ambiental são bonificadas na forma de incentivos na concessão de crédito dentro das políticas públicas.

“No Plano Safra deste ano, lançado recentemente, criamos uma inovação e estabelecemos um redutor de juros por boas práticas, que chega a 1%. Isso se constituiu em um incentivo para que os agricultores façam investimentos na área da agricultura de baixo carbono.”

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Com informacoes de Marina Silva, G1, Agência Câmara de Notícias e Agência Brasil

Foto (destaque): Lula Marques / Agência Brasil

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