Raoni para Nobel da Paz em 2020! Indígenas e organizações resgatam campanha, às vésperas do anúncio do vencedor

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Em setembro do ano passado, como noticiamos aqui, o cacique Raoni teve seu nome indicado para o Prêmio Nobel da Paz de 2020 pela Fundação Darcy Ribeiro. No entanto, especulou-se sobre a inclusão de seu nome na disputa de 2019.

Tanto que uma campanha relâmpago foi feita nas redes sociais por seus admiradores, independente da campanha oficial. Nós chegamos a noticiar, nas redes sociais, que Raoni e Greta Thunberg haviam se tornado concorrentes da honraria: amamos os dois.

No final, o prêmio foi concedido ao primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali.

Durante o Encontro Mebengokré, convocado por Raoni e realizado em janeiro deste ano em sua aldeia – Piaraçu -, na Terra Indígena Capoto Jarina (MT), o fotógrafo Todd Southgate produziu retratos de diversas lideranças para a campanha ao Nobel da Paz deste ano, que tem 318 inscritos.

Veja, abaixo: Tuíra Kayapó, Bedjai Txucarramãe (chefe da aldeia Piaraçu), Ana Terra Yawalapiti e Tapi Yawalapiti (sobrinha e filho do cacique Aritana).

Campanha lançada no início deste ano / Fotos: Todd Southgate

Uma pandemia no meio do caminho

Em fevereiro, a fundação retomou a campanha. Raoni tinha uma longa programação a cumprir este ano – que incluía encontros e viagens -, mas a pandemia do novo coronavírus cancelou tudo. E ele viveu diversos reveses.

O cenário para os indígenas, que não era nada alvissareiro, piorou barbaramente. Num momento em que, como nós, eles precisavam ficar isolados, as invasões de garimpeiros e madeireiros aumentaram e levaram a Covid-19 para dentro das aldeias.

Hoje, de acordo com o Comitê de Memória e Vida Indígena, 158 povos já foram atingidos pelo vírus (mais de 50%), 32.615 indígenas, contaminados e 818, mortos.

Em março, Raoni se isolou com sua companheira, Bekwyjkà Metuktire. Em junho, ele a perdeu para um infarto fulminante, o que o abalou de forma avassaladora. Parentes contam que ele passou por um período de depressão.

Raoni e sua companheira querida, Bekwika / Foto: Instituto Raoni

Um mês depois, o cacique Kayapó foi internado em hospital de Sinop, Mato Grosso, com complicações gástricas graves. Preocupou a todos, mas, em uma semana, teve alta médica. Durante o tempo em que esteve hospitalizado disse a seu neto, Patxon Metuktire, para que avisasse a todos que não se preocupassem porque ele ia sair logo dali “para continuar lutando pelos povos indígenas e pela floresta amazônica”.

Em um mês, o líder indígena voltou a ser internado: desta vez com pneumonia. Dias depois veio a confirmação de que estava com Covid-19, mas se curou e voltou à aldeia ainda mais disposto. Difícil entender de onde ele tira tanta força, mas parece que nada nem ninguém derruba o cacique, que está com 90 anos.

O que dizem as lideranças

Foto: Todd Southgate

Neste cenário de destruição que se desenvolve em todo o país com o apoio do governo – que nada faz para amenizá-la, muito ao contrário: nega a pandemia, os incêndios florestais, que arrasam Amazônia, Pantanal e Cerrado, e apoia as invasões de terras e medidas anticonstitucionais tomadas por ministros, secretários e diretores de órgãos como a Funai – o melhor que poderia acontecer, este ano, seria Raoni ganhar o Prêmio Nobel da Paz.

Por isso, há poucos dias do anúncio do vencedor – que será feito pelo comitê julgador em 9 de outubro -, o Instituto Raoni, indígenas e outras organizações não-governamentais, retomaram a campanha. Por meio de ações nas redes sociais ilustradas por imagens e dois belíssimos vídeos dirigidos pelo cinegrafista ambientalista e indigenista Todd Southgate.

Em um deles, diversas lideranças dizem porque apoiam o cacique:

Tapi Yawalapiti, filho do cacique Aritana, que faleceu em agosto de covid-19. Ele é o atual cacique da etnia: “Ele merece porque vem lutando há muitos anos pela causa indígena, pela Amazônia e pelo meio ambiente”. Em Xxx de 2019, Tapi fez parte da comissão de Raoni na viagem que fez à Europa para pedir apoio a líderes como Emmanuel Macron, presidente da França, e o Papa Francisco”.

Kaialú Kamayurá: “Ele tem história de luta de muito tempo, em defesa de território, floresta, ele é um símbolo da paz, um símbolo de luta pra todos os povos indígenas do Brasil”. Como Tapi, Kaiulú também acompanhou Raoni à Europa.

Crisanto Xavante, presidente da federação indígena de Mato Grosso: “O cacique merece, neste 2020, ganhar o prêmio Nobel da Paz por tudo o que ele fez com esses companheiros de luta, pelos nossos direitos”.

Gasodá Paiter Suruí: “Pra mim, Raoni é uma das principais liderancas indigenas do Brasil que sempre lutou pela valorização e preservação dos povos indigenas”.

Yabiwa Juruna Yud Já: “Ele é um grande líder, que defende a floresta e defende os povos indígenas brasileiros”.

Ianukulá Kaiabi Suyá, presidente da Associação Terra Indígena do Xingu: “Ele tem todas as condições para ganhar o prêmio Nobel pela sua longa trajetória de vida em luta, em prol dos povos indígenas do Brasil e do mundo inteiro”.

Narubia Karajá: “Sem Raoni, a nossa geração nao estaria aqui, com terras demarcadas, com perspectiva da nossa cultura, dos nossos costumes respeitados. Raoni é o grande responsável por uma luta de todos os nossos direitos”.

Kaianaku Kamayurá: “No momento crítico que a gente vive, no atual cenário político, a gente precisa apoiar a luta dos povos indígenas e o cacique Raoni é a maior referência para todos nós”.

Bed Jai Txucarramãe: “Eu quero que meu tio ganha prêmio, importante pra nós”.

Ana Terra Yawalapiti: “E não é só pelos povos indigenas que ele faz isso! Faz isso para o mundo inteiro. Ele é uma pessoa que sempre defendeu a proteção do nosso planeta”.

Assista ao vídeo produzido para a campanha, no final deste post.

Reconhecimento, visibilidade e apoio

Retrato de Raoni, por Renato Soares

Em suas reflexões sobre a importância do prêmio, Toni Lotar, vice-presidente da Fundação Darcy Ribeiro, vai além.

À Sergio Valente, do UOL, ele disse que a premiação seria “uma belíssima maneira de reconhecer todo esse trabalho de Raoni. O prêmio representaria um reconhecimento merecido à história de vida e de luta do cacique em nome de todos os povos indígenas“.

E acrescentou: “Ele não é individualista, a cabeça dele sempre foi voltada para o coletivo. E também premiaria todas as lideranças indígenas, levantaria o astral dos indígenas brasileiros e iria valorizar para o Brasil e para o mundo a importância que os povos indígenas têm na preservação da Amazônia. Eles é que estão lá na linha de frente, são os guardiões ativos da floresta“.

Sim, Lotar tem razão: o reconhecimento e a visibilidade mundiais trariam ainda mais força e garra para esses povos tão ameaçados e feridos em seus direitos. São os povos originários, os verdadeiros guardiões desta terra, mas não têm sido assim tratados. Parte da sociedade brasileira apoia Bolsonaro em sua forma desrespeitosa de lidar e se referir aos indígenas. Sentimos isso nas redes sociais do Conexão Planeta, sempre que publicamos noticias sobre o líder.

Por isso, ganhar este prêmio é precioso para Raoni, os povos indígenas e tudo o que eles representam: a terra protegida, a floresta, os animais, a natureza, sua cultura e identidade. Mas claro que não se trata apenas de obter reconhecimento e visibilidade.

Não se pode ignorar que o vencedor do Nobel da Paz recebe um certificado e uma medalha de ouro, além de cerca de 1 milhão de dólares. O valor varia, mas, desde 2017, o prêmio tem sido de US$ 1,1 milhão, o equivalente a R$ 5.913 milhões. Nada mau.

Raoni é respeitado e reconhecido no mundo todo como o maior líder indígena do Brasil, mas atacado e desrespeitado pelo presidente do país. Está, aqui, mais um motivo pra gente torcer para que o cacique kayapó ganhe o Prêmio Nobel da Paz de 2020. Na torcida.

Foto: Renato Soares (destaque)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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