“No período de seca extrema, não tem trégua”, diz biólogo do ‘SOS Pantanal’: fogo volta à Serra do Amolar e se alastra para o sul

Mais de 23% do Pantanal já queimou. De 1º: de janeiro a 27 de setembro, foram destruídos mais de 3 milhões e 461 mil hectares. Não bastasse o avanço do fogo, que não para, e o surgimento de novos focos no Pantanal Sul, as chamas que pareciam ter sido vencidas em algumas regiões, voltaram.

“Os focos de incêndio que vinham da região da Transpantaneira e de Porto Jofre desceram e entraram no Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, na divisa entre o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul”, conta Gustavo Figueiroa, biólogo e divulgador cientifico da Instituto SOS Pantanal. “Os incêndios também ressurgiram de maneira muito intensa na Serra do Amolar e as chamas tomaram proporções gigantescas novamente”.

Agentes do Ibama/PrevFogo, dos bombeiros do Mato Grosso do Sul e do Paraná, e brigadistas do Instituto do Homem Pantaneiro foram rapidamente deslocados para lá.

Gustavo Figueiroa, biólogo e divulgador cientifico do SOS Pantanal

Como faz uma ou duas vezes por semana, Gustavo, que é especialista em manejo e conservação de fauna, gravou hoje, 29/9, um novo boletim com atualizações sobre os incêndios no Pantanal, divulgado nas redes sociais do SOS Pantanal e suas. Aliás, esta é das missões da organização: divulgar informações de qualidade a respeito do bioma, ainda mais agora, nesta situação dramática.

O fogo voltou à Serra do Amaolar

Ao sul da região do Parque Estadual Encontro das Águasque reúne a maior concentração de onças-pintadas por km2 do mundo e teve 80% de sua área queimada – ele conta que outra grande área está em chamas no Pantanal do Paiaguás e que, “ainda mais ao sul do Paiaguás, vários focos estão consumindo os arredores e dentro do Parque Estadual do Rio Negro”.

Foco de incêndio no Pantanal do Paiaguás

Em geral, Gustavo embasa suas atualizações com mapas – entre eles, os produzidos pelo LASA – Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas, neste boletim, eles chamaram ainda mais minha atenção. Não sei se pela quantidade e por me sentir melhor situada na região… Por isso, os reproduzo aqui para ilustrar o texto.

Gustavo prossegue, indicando mais fogo no bioma, como ao sul da Serra do Amolar, entre Corumbá e Miranda, onde grandes focos de incêndio surgiram em áreas próximas à BR 262, estrada que corta o Pantanal, ligando Campo Grande a Corumbá.

“As chamas estavam tão fortes e a fumaça tão intensa que cobriu toda a estrada, provocando um acidente com vítima fatal”.

A fumaça que tomou a BR 262 provocou um acidente entre um caminhão e uma carreta,
que resultou em uma vítima fatal. Imagem extraída do vídeo produzido pela equipe BRPEG

Os focos de incêndio também estão muito concentrados na região de Nabileque, abaixo de Corumbá, no Pantanal Sul, como mostra o mapa abaixo.

Foco de incêndio em Nabileque

Cuidados paliativos, até que chova

Gustavo destaca que equipes do Ibama/PrevFogo, dos bombeiros do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, brigadistas voluntários e brigadistas de fazendas estão mobilizadas “e lutando fortemente contra esses incêndios”. E sentencia: “Enquanto estivermos neste período de seca extrema, infelizmente não tem trégua”.

O cenário é desesperador e o biólogo acrescenta: “O fogo é uma força muito brutal, uma força da natureza. E ele só pode ser controlado por outra força da natureza, que é a chuva. A previsão indica que, do meio para o final de outubro, virá uma chuva considerável, que poderá controlar a situação. Mas é apenas uma previsão”.

Enquanto isso, o que os brigadistas podem fazer é atuar com “cuidados paliativos, que é o que está sendo feito: controlar o fogo, impedindo, ao máximo, que ele não se alastre”. De que forma? Limpando aceiros – que são faixas feitas ao longo de cercas onde a vegetação foi completamente eliminada da superfície do solo, para prevenir a passagem do fogo para a área de vegetação -, apagando fogos mais leves, checando se há fogos subterrâneos, que nem sempre são fáceis de detectar.

No caso do Pantanal norte, onde parecia que a situação ia começar se estabilizar, as chamas voltaram certamente por causa do fogo subterrâneo, que ressurgiu.

“O solo do Pantanal tem muitas raízes, as plantas têm características de Cerrado, então o solo tem muita matéria orgânica que fica por baixo da primeira camada. Quando o fogo começa a queimar, pode afundar e queimar por quilômetros debaixo do solo até que encontra oxigênio e uma outra insurgência e inicia um novo foco”, explica Gustavo. “Os brigadistas costumam cavar pra se certificar se o incêndio acabou mesmo”.

Mas, no Pantanal sul, não havia focos na região onde, agora, surgiram incêndios. “Não tinha como chegar foco lá. Foi gente que colocou! O fogo começou perto de uma trilha de pescadores, então, provavelmente foi alguém que colocou esse fogo”.

O biólogo explica que mais de 98% dos focos de incêndio são provocados pela ação humana: “alguns intencionais, outros não. Mas esses que começaram no Pantanal Sul certamente foram intencionais”. E completa: “Enquanto houver seca e gente tacando fogo, vai ser muito complicado controlar o fogo. Enquanto a chuva não vier, a gente vai apagando o fogo que aparece pra que a proporção não aumente; é muito complicado controlar”. 

Brigadas permanentes e educação

Reprodução do vídeo SOS Pantanal, com imagens do PrevFogo/Ibama

O Pantanal vive a pior seca dos últimos 47 anos, intensificada pelo desmatamento na Amazônia, responsável pela umidade e pelas chuvas que banham o centro-oeste e o sudeste do país. Mais: no ano passado, o bioma perdeu cerca de 19% de sua área florestada original devido aos incêndios. E foi neste cenário que o governo reduziu o orçamento para combate a incêndios florestais em 58%.

Por conta desse corte, o contingente de agentes do ICMBio e do Ibama, este ano, está bem menor. De qualquer forma, mais do que falar em combate, precisamos começar a falar de prevenção. Afinal, por que esperar que o fogo chegue de forma dramática à região para tentar apagá-lo. Ainda mais num cenário tão inóspito de seca?

“O que está sendo feito – e muito bem feito – é paliativo. No ano que vem vai queimar de novo e, se a gente não se prevenir, os próximos incêndios podem ganhar a mesma proporção destes”, comenta Gustavo. “Então, precisamos montar brigadas fixas, permanentes, pelo Pantanal. Equipa-las, integra-las com as equipes dos bombeiros para que a resposta seja rápida, para que incêndios dessa magnitude sejam evitados”.

Ele conta que o SOS Pantanal é parceiro do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que participa da Brigada Alto Pantanal (sobre a qual publiquei aqui no site), então também está envolvida nesta iniciativa. “Uma parte dos recursos que arrecadamos foi direcionado para apoia-la”.

Mas independente disso, o plano da organização é espalhar brigadas pelo Pantanal. Na região da Serra do Amolar, em parceria com o IHP, e, em outras partes do bioma, com parceiros locais. “Esta é uma das metas da SOS Pantanal. Vimos o tamanho do problema muito de perto, agora, então decidimos aumentar a meta e tentar espalhar brigadas pelo bioma inteiro”.

Como ajudar

“O contraste é brutal. Pouco verde em meio às cinzas sem fim”, escreveu Gustavo Figueiroa
em seu perfil no Instagram, nos primeiros dias no Pantanal. A foto também é dele

É comum ouvir amigos ou conhecidos comentarem nas redes que adorariam ir ao Pantanal para ajudar e que acham muito pouco, numa situação como esta, apenas doar dinheiro. No entanto, esta é a forma mais efetiva de colaborar.

Gustavo confirma: “É complicado vir gente pra cá que não conhece o Pantanal porque a logística é muito complicada”. E conta: “Outro dia, encontramos um pessoal que veio por conta própria querendo descer para a Serra do Amolar de carro, mas só se chega de barco ou avião lá. Eles não sabiam, ficaram perdidos, gastaram dinheiro à toa, não tinham contato com nenhuma instituição…”.

Claro que voluntários são sempre necessários, mas fazer a coordenação desse tipo de trabalho não é só envia-los pra todo canto. É preciso gestão e treinamento, o que, neste momento, também é complicado. E, quando precisam de mais gente, se valem de suas redes.

Mas há duas maneiras bastante eficientes para ajudar na manutenção do trabalho maravilhoso que está sendo realizado no Pantanal por brigadistas, equipes de resgate e de veterinários, biólogos e outros voluntários que se encarregam de alimentar os animais famintos: compartilhar informações de qualidade e doar dinheiro.

No primeiro caso, é importante acompanhar bons veículos de comunicação e os perfis das organizações e profissionais que estão trabalhando no Pantanal, e mostrando e comentando o que por lá se passa. Compartilhar e divulgar.

“Isso é tão importante para o SOS Pantanal, que seu trabalho vai além de dar apoio operacional e logísticos a organizações e profissionais que atuam no bioma. Ela investe em comunicação”, conta Gustavo. “Entendemos o cenário para passar informações sérias e atualizadas porque tinha muita informacao distorcida saindo de lá, sem questionamento”.

Gustavo e Diego Arruda mantêm contato direto e diário com boa parte de quem está trabalhando lá – formam uma rede potente -, filtram as informações, pesquisam o que dizem os satélites, e divulgam todos os dias nas redes sociais, com fontes seguras e confiáveis. Além disso, fazem um boletim periódico, como o de hoje, narrado pelo Gustavo, para dar uma ideia geral de como estão os incêndios, de fato, no bioma”.

Então, acompanhar a SOS Pantanal e seus parceiros é um dos passos para ajudar a divulgar informação de qualidade.

No que se refere à doação de dinheiro, há organizações bastante sérias, que desenvolvem trabalhos imprescindíveis para a conservação no Pantanal e precisam de ajuda constante. Publiquei em 14/9, uma matéria – Como ajudar o Pantanal – na qual fiz uma seleção que pode ajudar nessa tarefa. A maioria pede doações em dinheiro, mas algumas indicam equipamentos, materiais e alimentos que também podem ser doados.

Como oferece apoio operacional e logístico a diversas entidades que trabalham na linha de frente do combate a incêndios e do resgate e recuperação de animais, a SOS Pantanal se limita a receber dinheiro.

“Esse tipo de doação facilita porque as organizações e voluntários dizem o que precisam e a gente viabiliza. Podemos comprar exatamente o que está faltando”, explica Gustavo. São elas: GRAD – Grupo de Resgate a Animais em Desastres (estadia), Instituto Homem Pantaneiro (recurso financeiro), Instituto Arara Azul (recurso financeiro) e Instituto É o bicho! (apoio operacional e logístico), sobre o qual escrevi aqui.

Agora, assista ao último boletim publicado por Gustavo Figueiroa no perfil do Instagram da SOS Pantanal:

Foto: Gustavo Figueiroa/SOS Pantanal

 

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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