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No Acre, 17 dos 22 municípios estão em situação de emergência e populações periféricas são as que sofrem mais com as enchentes

No Acre, 17 dos 22 municípios estão em situação de emergência e populações periféricas são s que sofrem mais com as enchentes

Por Hellen Lirtêz*

Dos 22 municípios acreanos, 17 estão em situação de emergência por conta das cheias dos rios. Nas dez cidades mais críticas, há 62 abrigos atendendo a quase 6 mil pessoas que tiveram de abandonar ou perderam suas casas – mais de 8,5 mil estão desalojadas e foram para moradia de familiares e amigos.

O rio Acre, que banha a capital, está acima da cota de transbordo: em 28/2, chegou a 16,50 metros. 

Já no rio Purus, a cheia deste ano atinge a marca de 11,12 metros, superando em quase um metro a marca da maior enchente até então, em março de 2021, com 10,13 metros. Mais de 5 mil famílias estão sem energia elétrica devido às enchentes e a situação está longe de se estabilizar.

Os municípios de Brasiléia e Epitaciolândia já enfrentam a pior alagação de sua história, com mais de 75% da cidade tomada pelas águas. Nos municípios mais isolados do Estado, como Marechal Thaumaturgo e Jordão, não há voos comerciais, impossibilitando inclusive maior assistência médica.

Santa Rosa do Purus, município que está isolado, sobrevive à base de doações, como os 26,7 mil quilos de alimentos e kits de higiene que o governo estadual enviou na segunda-feira (26). Até a notícia de redução do nível do rio Purus em cerca de 30 centímetros, como na última terça-feira, não traz alívio aos desabrigados. As autoridades ainda não sabem se grandes volumes de água estão por vir do Peru, país vizinho. 

Indígenas estão entre os mais afetados

Na região do Purus, há previsão de novos acumulados de chuva volumosa, segundo o Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental (Cigma), onde foi montada uma sala de situações e monitoramento ambiental.

No Acre, 17 dos 22 municípios estão em situação de emergência e populações periféricas são s que sofrem mais com as enchentes
Aldeia Apiwtxa, no rio Amônia em Marechal Thaumaturgo, do povo Ashaninka, em 2024 (Fotos: Bianca Piyãko/ Cedida)

Dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Alto Rio Purus indicam que um total de 23 aldeias estão sendo afetadas pelas enchentes dos rios Iaco, Purus e igarapés adjacentes. Aproximadamente 400 famílias indígenas, pertencentes às etnias Jaminawa, Kaxarari, Huni Kuin e Manchineri, sofrem com os impactos da cheia no Acre.

A Comissão Pró-Índio produziu levantamento e apontou que os povos afetados pela enchente são os Ashaninka (nos rios Amônia e Breu, em Marechal Thaumaturgo), os Apolima Arara (no rio Amônia, também em Marechal Thaumaturgo), os Huni Kuin (em Jordão, Humaitá e rio Breu, abrangendo Jordão e Marechal Thaumaturgo), os Manxineru (em Assis Brasil), os Jaminawá (também em Assis Brasil), os Yawanawá (em Tarauacá) e os Kuntanawa (em Marechal Thaumaturgo).

Foram identificadas ainda terras indígenas e aldeias diretamente afetadas, incluindo as Terras Indígenas (TIs) Kampa do Rio Amônia e Arara do Rio Amônia (em Marechal Thaumaturgo), as TIs Mamoadate e Cabeceira do Rio Acre (Assis Brasil), as TIs Kaxinawá do Rio Humaitá e Nova Olinda (Feijó), a TI Rio Gregório (em Tarauacá) e a TI Kaxinawá do Rio Jordão (Jordão).

Isolamento e esperança

Jordão é um dos municípios mais isolados por causa da cheia no Acre. Só é possível chegar no local por meio aéreo ou fluvial e um dos pontos que caracterizam a cidade é a sua população, que é majoritariamente indígena.

No Acre, 17 dos 22 municípios estão em situação de emergência e populações periféricas são s que sofrem mais com as enchentes
Cota de alerta do Rio Juruá, em Cruzeiro do Sul, foi ultrapassada no último domingo, 25 (Foto: Diego Silva/Secom)

Segundo o boletim de enchentes publicado em 27 de fevereiro, cerca de 1.706 pessoas estão desabrigadas, 2.061 desalojadas e a cidade conta com 7 abrigos e 4 bairros atingidos duramente.

A prefeitura mobilizou as escolas municipais para abrigar as pessoas que não possuem condições de voltar para suas casas, pois não tem alimentação o suficiente e nem material para retirar toda a lama trazida pela enchente. “Nossa casa ficou debaixo d’água”, relata Abraão Huni Kuin.

Liderança no município de Jordão, ele explica que as perdas materiais foram grandes, inclusive a casa e os pertences pessoais. Até o cartório e o hospital foram atingidos. “A situação está muito complicada para nós. Nós moradores daqui de Jordão, que é um município do Acre de difícil acesso e transporte, com uma alagação a gente preocupa mais ainda.”

Abraão Huni Kuin afirma que se sente triste por trabalhar bastante e perceber que tudo foi levado por mais uma cheia no Acre. Em referência à população desabrigada, ele fez um alerta para a reportagem da Amazônia Real: “Está cada vez mais  difícil para nós.Tem equipe do governo e da prefeitura. Estão dando apoio, mas não é suficiente para alimentação e abrigo, não é o suficiente”, diz.

Da seca à enchente

Marechal Thaumaturgo é outro município isolado do Acre que também possui diversas populações indígenas afetadas. De acordo com o informe da enchente disponibilizada pelo Dsei ARJ de 26 de fevereiro, a população indígena total afetada em Marechal Thaumaturgo é de 1.643 pessoas.

No rio Amônia são 1.118 pessoas afetadas em vários territórios indígenas, sendo  a aldeia Apiwtxa a que possui o  maior número de famílias afetadas (189). No rio Tejo, são 110 pessoas afetadas em três aldeias; no rio Bajé, 175 pessoas em seis aldeias; no Rio Breu, 220 pessoas afetadas em quatro aldeias e 70 indígenas desalojados na cidade.

Outros 20 indígenas da aldeia Jacobina e 6 indígenas da aldeia Pau Furado, alojados no polo base, estavam na cidade e suas casas foram alagadas. O Boletim do Tempo, disponibilizado pela Secretaria de Meio Ambiente do Acre, alerta que o rio Amônia continua enchendo e cobrindo muito mais áreas do entorno.

Wewito Piyãko, presidente da Associação Apiwtxa, pertence ao povo Ashaninka da TI Campo do Rio Amônia, explica que várias casas foram levadas pela correnteza. Foi preciso um dia inteiro para retirar as pessoas que ficaram ilhadas nas outras casas submersas. Para as lideranças indígenas, que diante da calamidade têm buscado se reunir em Cruzeiro do Sul, uma das maiores preocupações tem sido buscar apoio para alimentar a comunidade. 

Durante a entrevista para a Amazônia Real, Wewito Piyãko relatou que muita coisa precisará ser reconstruída, entre elas os roçados que alimentavam as famílias, e será preciso muito esforço e trabalho, mas também ajuda dos governantes. “A maioria da nossa comunidade da terra indígena mora em terras baixas. Nossos roçados ficaram todos na beirada do rio. Muitos poucos têm roçados agora”, explica. Todo o plantio de frutíferas, por exemplo, foi afetado.

No verão acreano, houve uma grande seca que afetou as produções agrícolas. A temperatura das águas foi tamanha que várias espécies animais morreram. O número de queimadas também foi elevado. “Muito  triste, mas isso é  coisa da mudança climática. A gente tem que estar preparado a qualquer momento. Ou é uma seca ou é uma enchente e realmente o tempo está tudo mudado e a gente não sabe direito”, desabafa Piyãko.

Racismo ambiental

Centenas de famílias indígenas estão buscando refúgio em locais mais seguros, como escolas e casas de parentes, diante do avanço da cheia no Acre.

As formas como são atingidas, os grandes deslocamentos a que são obrigados a fazer e os diferentes tipos de assistência que recebem em situações catastróficas como essa são um exemplo do racismo ambiental e climático, denuncia a Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj)

No Acre, 17 dos 22 municípios estão em situação de emergência e populações periféricas são s que sofrem mais com as enchentes
Com a subida do rio Tarauacá em Jordão (AC), móveis e eletrodomésticos quebrados compõem o cenário de destruição em 2024 ( Foto: Yaka Huni Kuin/ Cedida)

Com a destruição de plantios por causa das enchentes que atingiram extensas áreas de plantações, alimentos essenciais para a subsistência das comunidades, como a banana e mandioca, foram perdidos. Com isso, a segurança alimentar fica comprometida.

Muitas casas foram total ou parcialmente submersas, aumentando a vulnerabilidade das famílias afetadas. O Censo 2022, divulgado na semana passada pelo IBGE, indica que os povos amazônicos são os que mais sofrem com o racismo ambiental.

Para completar, a falta de acesso à água potável, a contaminação das fontes de água e a destruição de sistemas de abastecimento colocaram os indígenas e as populações mais pobres das cidades em risco de doenças, evidenciando a necessidade crítica de acesso ao bem. O isolamento de comunidades correlacionado ao aumento dos níveis dos rios dificultam o acesso a ajuda e serviços essenciais, além de impedir a movimentação para áreas seguras.

O governo estadual realizou uma reunião de alinhamento para trabalhar com os boletins das regionais como o Juruá e o  Purus, onde possuem cinco municípios que têm povos indígenas atingidos.

“Estamos fazendo uma força-tarefa para apoiar com alguns insumos de cesta básica, que nesse primeiro momento venha a minimizar esses danos, né? É uma perda irreparável, muito grande da produção da roça. Agora, a gente precisa atender ações emergenciais, como a entrega de algumas cestas, e depois a gente vai trabalhar uma política mais firme sobre a segurança alimentar desses povos”, explica a secretária dos Povos Indígenas (Sepi) Francisca Arara.

De 26 de fevereiro a 3 de março, o modelo de previsão do tempo produzido pelo National Center for Environmental Prediction (NCEP) indica chuvas com volume acumulado de 15 até 100 milímetros. Na região do Juruá, as precipitações deverão estar acima do esperado, indicando uma situação ainda instável.

___________

* Este texto foi publicado originalmente no site da agência Amazônia Real em 28/2/2024

Foto: Pedro Devani/SECOM/Agência Brasil

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