#NiUnaMenos: morte violenta de jovem argentina fortalece movimento contra feminicídio na América do Sul

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Em 5/10, a brasileira Joana de Oliveira Mendes foi morta de forma violenta – a facadas – pelo pai de seu filho de dois anos. Ela tinha 34 anos, era professora e também mãe de um adolescente de 14 anos. Seu rosto ficou completamente desfigurado. Mas foi o crime que aconteceu, no início deste mês, na pequena cidade de Mar del Plata, na Argentina – país onde uma mulher é morta a cada 36 horas –, que comoveu o mundo – incluindo o Brasil: Lucia Perez, uma garota de 16 anos, foi drogada, violentada, empalada (!!!) e morta por três homens.

A violência cresceu estupidamente na Argentina, entre 2008 e 2015: quase 80%. Por isso, desde o ano passado, coletivos e ONGs se mobilizam para criar consciência entre a população e sensibilizar políticos.

Com a tragédia de Lucia, a comoção foi geral e a campanha #NiUnaMenos – criada em 2015 – ganhou força pelo mundo, principalmente na América do Sul.

No dia 19/10, as mulheres argentinas se mobilizaram contra o feminicídio. Os protestos foram liderados por 50 coletivos e grupos feministas – entre eles, o Miércoles Negro, o maior –, que convidaram as mulheres a se vestirem de preto, de luto. Antes do encontro nas ruas – o Encontro Nacional de Mulheres, que é realizado uma vez por ano -, pararam tudo, fizeram greve por uma hora. Em seguida, foram às ruas, mesmo debaixo de forte chuva como no caso de Buenos Aires. Também em Mar del Plata aconteceram manifestações.

E os protestos se espalharam por La Paz (Bolívia), Valparaíso e Santiago (Chile), Cidade do México, Montevideo (Uruguai), só para citar algumas cidades latinas. Em Paris, as manifestações foram realizadas em frente à Embaixada da Argentina. São Paulo também aderiu – com o incentivo da União Brasileira de Mulheres (UBM) e da União da Juventude Socialista (UJSFeminista) – e, ontem, 23/10, os manifestantes se concentraram em frente ao MASP (Museu de Arte de SP).

Em todos os lugares, obviamente, a presença das mulheres dominou, mas elas foram acompanhadas por alguns homens que também levaram sua indignação e solidariedade às ruas.

O apoio da presidenta do Chile ao movimento

ni-una-menos-movimento-contra-feminicidio-michele-bacheletAs chilenas aderiram às mobilizações nas redes e nas ruas e, no dia seguinte (20), sua presidenta, Michelle Bachelet, declarou apoio ao movimento #NiUnaMenos por meio de vídeo publicado em sua página no Facebook e também por texto no Twitter.

“Nosso país expressa a frustração de nossos compatriotas nos casos de violência contra mulheres e garotas. Dia a dia, a violência de gênero afeta mulheres sem importar a idade, a condição econômica, social ou religiosa”, declarou. “A violência contra mulheres deve terminar. É meu compromisso como mulher e mandatária”.

Só a mobilização cidadã nas ruas e nas redes pode transformar

Lamento muito não termos mais uma mulher dirigindo o país para que pudéssemos nos unir a essa causa, a todas as brasileiras e estrangeiras e à Michele Bachelet, também como país, aumentando a visibilidade desse tema e sua urgência por aqui também.

O governo de Michel Temer, como já vimos, além de machista, tem eliminado os direitos humanos – os das mulheres, incluídos, claro! – de sua agenda diária. Portanto, se depender de sua gestão, será impossível avançar na luta para reduzir esse tipo de violência.

Retrocederemos como tem acontecido em relação a inúmeros temas – educação, saúde, segurança – e está previsto em seu “plano para o futuro”.

Agora, conquistar direitos e exigir punição dos criminosos dependem muito da mobilização dos cidadãos. Sabemos que, enquanto as mulheres forem tratadas como culpadas e seu comportamento e forma de se vestir e de agir for destacado como motivo das agressões dos homens, nada mudará. Enquanto essa violência for justificada, muitas ainda serão violadas ou morrerão, por um longo período.

Na semana passada, mais uma mulher sofreu estupro coletivo (1o homens) em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Descobriu-se depois que, na verdade, ela está sendo violentada por esse bando e comparsas há quatro anos, desde que um antigo namorado divulgou um vídeo dos dois na internet.

Como a maioria das vítimas de abuso, ela se calou por medo e vergonha. E a história só veio à tona porque dois adolescentes que participaram do crime foram presos próximos da vítima, encontrada num terreno baldio por policiais após denúncia de moradores da região. Como se não bastasse o que acabara de vivenciar, ela foi levada à delegacia junto com seus agressores na mesma viatura, ou seja, obrigada a conviver com eles durante o trajeto. Na delegacia, o policial que os atendeu se ateve muito mais aos detalhes do que ela fez e disse durante o crime do que ao que fizeram os criminosos. Abuso sobre abuso. Como essa mulher pode prosseguir depois de tantas violações de seus direitos?

Não esqueçamos as mulheres assassinadas! Nem Uma a Menos! E não esqueçamos também as que sobrevivem à violência, como esta moça de São Gonçalo, a adolescente de 16 anos violentada por mais de 30 homens com o aval do namorado num morro do Rio de Janeiro ou a garota que, em 2007, foi colocada em uma cela com dezenas de homens por uma juíza. Esta, inacreditavelmente, não foi punida, mas premiada: apenas afastada do trabalho com direito a salário. Sim, não esqueçamos disto, também: de que há mulheres que violentam mulheres.

Como surgiu o movimento #NiUnaMenos

ni-una-menos-movimento-contra-feminicidio-ganha-forca-america-do-sul-logotipoA campanha Ni Una Menos tomou a forma de uma marcha lançada na Argentina – com a adesão do Chile e do Uruguai – em 3 de junho de 2015 como protesto contra a violência de gênero nos três países. Na Argentina, o encontro se repetiu em 3 de junho deste ano. E, agora, como já contamos, no dia 19 de outubro.

O nome foi inspirado em um poema escrito por Susana Chávez, em 1995, para protestar contra os feminicídios da Cidade Juárez, e que tinha uma frase forte: Nem uma morta mais! Dezesseis anos depois, a poetisa foi assassinada justamente por lutar por essa causa.

No ano passado, um grupo de escritoras, artistas e jornalistas resgatou o poema e a frase de Susana e transformou-a no slogan da campanha – Nem uma a menos! –, que virou um belíssimo grito de convocação para a mobilização. Primeiro, aconteceu uma maratona de leituras na Praça Boris Spivacow, em março, pouco depois da morte de Daiana Garcia e dez anos do desaparecimento da estudante Florencia Pennacchi. Além disso, no ano anterior, haviam sido assassinadas 277 mulheres. Veio o assassinato de Chiara Páez e o grupo se organizou novamente em 3 de junho do ano passado.

O movimento, inicialmente feminista, viralizou e se espalhou por meio das redes sociais. Em pouco tempo, a marcha conquistou a adesão de artistas, jornalistas, esportistas, atores, políticos, jogadores de futebol e ONGs. Nela, mulheres e homens pediam a redução e a eliminação da violência de gênero, exigindo proteção às vítimas e que o tema passasse a ser discutido em todas as esferas, inclusive nas estratégias educacaionais para todo o ensino.

A violência no Brasil e na Argentina

Por aqui, a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada (também pode ser menina ou adolescente) e, a cada dia, 13 mulheres são assassinadas. Apenas porque são do sexo feminino. A taxa de feminicídios no Brasil é a quinta maior do mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em 2015, o Mapa da Violência revelou que, em dez anos (2003/2013), os homicídios contra mulheres negras cresceu 54%. Nesse mesmo ano, foi criada e sancionada pela presidenta Dilma Roussef a Lei do Feminicídio (13.104/2015), que alterou o Código Penal Brasileiro, qualificando o homicídio de mulheres – decorrente de violência doméstica ou de discriminação de gênero – como crime hediondo.

Na Argentina, a preocupação com o aumento da violência contra a mulher mobilizou a Corte Suprema de Justiça, que criou o Registro Nacional de Feminicídios, atualizado diariamente. Por isso, eles têm mais dados e mais recentes. São mais de 200 assassinatos por ano – 235 no ano passado, sendo que 18% tinha menos de 20 anos, 43% entre 21 e 40 anos, 25% entre 41 e 60 anos e 9% mais de 60 anos.

Outro dado alarmante: duas em cada 10 mulheres argentinas mortas já haviam registrado queixa contra o agressor. Apenas 5% dos crimes foram cometidos por desconhecidos; a maioria dos assassinos tinha vínculo com a vítima: cônjuge, ex-cônjuge ou familiar.

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Fotos: Reprodução vídeo Telefenotícias e Divulgação Chile

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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