Nascem em vida livre filhotes de arara-azul-de-lear, resultado de soltura de aves de cativeiro no norte da Bahia

Nascem em vida livre filhotes de arara-azul-de-lear, resultado de soltura de aves de cativeiro no norte da Bahia

A arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), ave belíssima com a plumagem toda em um tom de azul vibrante e apenas dois pontos amarelos em sua face, um deles em volta dos olhos, é endêmica do Brasil, ou seja, não existe em nenhum outro lugar do mundo. Todavia, ela quase foi levada à extinção por causa do tráfico de animais silvestres e pela perda de habitat. Em 2001, foram registrados pouco mais de 200 indivíduos na região ao norte da Bahia, o único refúgio da espécie.

Duas décadas depois, graças a esforços de conservação, o mais recente censo apontou que nas áreas do Raso da Catarina e do Boqueirão da Onça já são cerca de 2.250 aves. Apesar do aumento de sua população, a arara-azul-de-lear ainda é classificada como em “perigo de extinção” (leia mais aqui).

Na Área de Proteção Ambiental do Boqueirão da Onça, que junto ao parque nacional de mesmo nome forma o maior contínuo preservado da Caatinga, a espécie era considerada funcionalmente extinta, oque significa que a população de aves ali não era mais capaz de crescer.

Decidiu-se então, como parte das ações do Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves da Caatinga (PAN Aves da Caatinga), coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave/ICMBio), a soltura no Boqueirão da Onça de araras-azuis-de-lear nascidas em cativeiro.

No ano passado então, nasceu a primeira ararinha em vida livre ali. Ela era filha de um casal vindo do Fundação Loro Parque, na Espanha, em 2018. E esse ano, o ICMBio anunciou o nascimento de mais três filhotes, também das aves “espanholas”.

“Os filhotes nasceram em março de 2023, e foram avistados pela primeira vez em junho pelo morador Gilmar Rodrigues, parceiro do projeto de soltura. Os três filhotes estavam juntos ao grupo de araras e se alimentavam nos licurizeiros no entorno do viveiro de treinamento, que é uma das áreas de alimentação, descanso e dormitório da espécie”, informou o instituto em nota.

Segundo o ICMBio, a cada dois meses os pesquisadores do grupo de Pesquisa e Conservação da Arara-azul-de-lear monitoram a população no Boqueirão da Onça e durante os períodos de soltura (treinamento pré-soltura e monitoramento pós-soltura), essa ação é feita diariamente por até seis meses consecutivos.  

Nove instituições nacionais e internacionais participam do Programa de Manejo Integrado da Arara-azul-de-lear. Atualmente são 117 aves são mantidas por esses parceiros, que promovem a reprodução da espécie em cativeiro. Posteriormente, os filhotes são destinados para a soltura. 

“Isso demonstra a importância de se manter uma população de segurança ex-situ (mantidas sob os cuidados humanos) para apoiar a conservação da espécie na natureza”, explica Antonio Emanuel de Sousa, o coordenador do PAN.

Infelizmente, a arara-azul-de-lear ainda continua ameaçada pelo tráfico de aves silvestres. No final de julho, o Serviço Florestal do Suriname apreendeu 29 delas contrabandeadas, junto com sete micos-leões-dourados. Todos estavam sendo preparados para a repatriação no Brasil, quando na noite antes do avião da Polícia Federal chegar à capital do país, criminosos invadiram o local onde as aves estavam e roubaram 23 delas (confira a reportagem completa neste link).

De acordo com a Freeland Brasil, organização que trabalha pelo fim do tráfico de animais e esteve envolvida o tempo todo com o processo de repatriação dos animais, a hipótese de trabalho é a participação do tráfico internacional organizado.

“Esses animais podem atingir altos valores. A suspeita é que eles seriam vendidos na Europa, provavelmente para colecionadores, zoos particulares ou criadores”, revela a bióloga Juliana Machado Ferreira, diretora executiva da Freeland Brasil.

Reportagens da mídia local denunciam que pode ter havido envolvimento de pessoas ligadas ao governo do Suriname no crime.

Outra ameaça que aves da Caatinga enfrentam é o avanço dos complexos eólicos no bioma. A região Nordeste concentra 90% desses empreendimentos no Brasil e 85% deles estão no bioma, a maior parte nos estados do Rio Grande do Norte e na Bahia.

Só no APA do Boqueirão da Onça há quatro complexos de energia eólica. Um deles com 500 torres. Outros dois estão em expansão.

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Foto de abertura: divulgação ICMBio / Thiago Filadelfo  

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Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.