Nasce primeiro filhote de ararinha-azul no centro de reintrodução da espécie na Caatinga baiana

Nasce primeiro filhote de ararinha-azul no centro de reintrodução da espécie na Caatinga baiana

Em março do ano passado, 52 ararinhas-azuis percorreram uma longa jornada para “voltar pra casa”. Elas vieram de um criadouro particular, em Berlim, na Alemanha, a Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP), para um centro de reintrodução em Curaçá, na Bahia. Era o primeiro passo de um complicado processo, que durou muitos anos, para permitir a reintrodução dessa ave símbolo da Caatinga em seu habitat natural.

E há poucos dias, foi divulgada mais uma boa notícia: nasceu o primeiro filhote de um casal dessas ararinhas-azuis.

“Este filhote representa um marco significativo em um projeto de conservação da natureza que começou há mais de 30 anos. Graças ao empenho incansável de todos os parceiros e apoiadores e somente com um excelente trabalho em equipe, conseguiu-se criar o que hoje é uma população estável e com grande diversidade e criar condições para a reintrodução na Caatinga, habitat endêmico dessas aves”, escreveu a Association for the Conservation of the Threatened Parrots em sua página no Facebook.

Na verdade, o casal tinha colocado quatro ovos. Apenas dois eram férteis. Dos restantes, o primeiro eclodiu no dia 11 de abril, mas porque os pais eram inexperientes e não souberam cuidar bem do filhote, ele morreu no dia seguinte. O outro nasceu em 13 de abril e quando a equipe percebeu que ele não estava sendo alimentado, decidiu-se pela retirada da ararinha-azul do recinto, que será cuidada pelos veterinários.

“Esperávamos que todas as ararinhas-azuis em Curaçá fossem criadas pelos pais, mas infelizmente nem sempre é o caso. Os casais trazidos para cá são todos jovens e o objetivo era que tivessem uma longa vida reprodutiva. Infelizmente, isso também significa que eles são inexperientes e como pais de primeira viagem tendem a cometer erros”, explicou a equipe.

Todo o projeto de reintrodução das ararinhas-azuis envolveu a parceria de diversas organizações internacionais e também, do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade – ICMBio, órgão vinculado ao ministério do Meio Ambiente, responsável pelo Plano de Ação Nacional a Conservação da Ararinha-azul. A ACTP pagou pela construção do centro de reintrodução em Curaçá e é quem administra o local.

Na sua sede na Alemanha ainda há vários casais de ararinhas-azuis. Segundo o criatório informou na semana passada, também pelas redes sociais, por lá nasceram dez filhotes e outros dez ovos foram fertilizados e devem eclodir em breve.

Nasce primeiro filhote de ararinha-azul no centro de reintrodução da espécie na Caatinga baiana

Filhotes nascidos na sede da ACTP na Alemanha

Espécie endêmica do Brasil, ou seja, ela só existe (ou melhor, existia) em nosso país e em nenhum outro lugar do mundo, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) foi vítima do tráfico ilegal de aves e a cobiça de grandes colecionadores europeus. Fascinados pelo sua beleza e azul vibrante, eles não economizaram esforços (e muito dinheiro) para poder ter um exemplar da famosa arara brasileira.

Com isso, a ararinha-azul acabou sendo extinta no país. O último indivíduo voando livre, na natureza, foi observado por volta do ano 2000.

Nasce primeiro filhote de ararinha-azul no centro de reintrodução da espécie na Caatinga baiana

Um filhote de ararinha-azul: a espécie foi exinta na natureza

Processo de adaptação da ararinha-azul na Caatinga

Depois da chegada na Bahia em 2020, foi necessário que as 52 ararinhas-azuis passassem por um período de quarentena para garantir que nenhum indivíduo estivesse doente e não houvesse risco de transmissão de patógenos (vírus ou bactérias) para as espécies locais, que já vivem na região.

Após esse período, em maio, as aves foram transferidas para um aviário externo. O recinto possui uma dupla camada de proteção para permitir que as ararinhas tenham contato com o clima da Caatinga e também, para protegê-las do possível ataque de outros animais.

O ambiente com galhos, folhas e outras estruturas auxilia no gradativo processo de reintrodução da espécie no bioma. Segundo o ICMBio, aos poucos, serão oferecidos mais frutos e sementes locais para que quando as aves forem soltas saibam o que comer.

Quando for realizada a reintrodução, a soltura das ararinhas-azuis será feita junto a maracanãs (outra espécie de psitacídeo que possui hábitos semelhantes aos da Cyanopsitta spixii).

Brasil trará 50 ararinhas-azuis da Europa para projeto de reintrodução da espécie na Caatinga

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*Nós, do Conexão Planeta, torcemos muito pelo sucesso de reintrodução da ararinha-azul no Brasil! Mas por uma questão de ética jornalística e coerência com nosso trabalho, não podemos deixar de mencionar que a volta da espécie ao país envolve diversas acusações ao proprietário da ACTP, Martin Guth.

Em 2018, uma denúncia do jornal britânico The Guardian levantou uma série de fatos sobre Guth e Association for the Conservation of Threatened Parrots. De acordo com a reportagem, o alemão, que ficou preso durante 5 anos por crimes de extorsão e sequestro, poderia ter envolvimento com tráfico ilegal de aves.

O Conexão Planeta repercutiu a denúncia no Brasil e fez várias matérias sobre o assunto. Descobriu que muitos biólogos e criadores no país já tinham ouvido falar sobre a má fama de Guth, mas todos relataram medo em denunciar o criador (leia mais aqui).

Há uma petição internacional, que já tem 54 mil assinaturas, que pede uma investigação ao governo alemão sobre o criador de aves ameaçadas. Mas segundo o Bundesamt für Naturschutz (BfN), Agência Federal para a Conservação da Natureza da Alemanha, não há indícios de ilegalidade no trabalho da associação.

Procurado pelo Conexão Planeta, o ministério do Meio Ambiente, ainda sob a gestão de Edson Duarte e atualmente sob o comando de Ricardo Salles, nunca se posicionou sobre as denúncias.

Em entrevista por e-mail, Martin Guth disse que sua ficha criminal está limpa e prefere não envolver sua vida pessoal com o projeto das ararinhas.

Entretanto, entidades de conservação internacional, como a Rare Species Conservatory Foundation, dos Estados Unidos, alegam falta de evidências e cooperação científica, além de transparência no trabalho da ACTP, principalmente porque não se sabe a origem do dinheiro que o financia.

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Fotos: reprodução Facebook ICMBio/ACTP

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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