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“Não vai existir mais garimpo ilegal!”, diz Lula sobre a principal reivindicação de Davi Kopenawa: retirar 30 mil garimpeiros das terras Yanomami

Por Felipe Medeiros e Leanderson Lima, com colaboração de Kátia Brasil*

“O que eu posso dizer para você é que não vai existir mais garimpo ilegal e eu sei da dificuldade de tirar o garimpo ilegal. Eu sei que já se tentou outras vezes tirar e eles voltam, mas nós vamos tirar. Lamentavelmente, eu não posso dizer para você até quando, o que eu posso dizer é que nós vamos tirar”, declarou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no último sábado (21/1), ao responder à pergunta da agência Amazônia Real em coletiva de imprensa, em Boa Vista (RR), sobre a principal reivindicação do líder Davi Yanomami, que é retirar os cerca de 30 mil garimpeiros do território.

Lula foi à capital de Roraima para acompanhar as ações de saúde no estado, onde 99 crianças yanomami morreram de desnutrição extrema e malária somente em 2022.

Na coletiva, o presidente destacou que a situação dos yanomami é desumana. “Se alguém me contasse que, aqui, em Roraima tinha pessoas sendo tratadas de forma desumana, como eu vi o povo Yanomami ser tratado aqui, eu não acreditaria. Eu, por um acaso, tive acesso a umas fotos esta semana. As fotos, efetivamente, me abalaram, porque a gente não pode entender como um país que tem as condições que tem o Brasil deixa os nossos indígenas abandonados como eles estão aqui”.

Lula não informou se existe um plano do governo para a desintrusão, que é a retirada efetiva dos garimpeiros do território pelas forças de segurança. 

Ele chegou à Boa Vista acompanhado da primeira dama Janja Lula da Silva; da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara; do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias; da ministra da Saúde, Nísia Trindade; do ministro da Justiça e Segurança, Flávio Dino; dos Direitos Humanos, Silvio Almeida; da Defesa, José Múcio; da presidente da Fundação dos Povos Indígenas (Funai), Joenia Wapichana, e do secretário da Sesai (Secretaria Nacional dos Povos Indígenas), Weibe Tapeba, entre outras autoridades. 

Para surpresa dos eleitores bolsonaristas, o governador Antonio Denarium (PPS), que foi um dos principais responsáveis por inúmeras ações a favor da mineração ilegal no território indígena Yanomami, a maior do Brasil, também recebeu Lula durante a visita ao Estado.

Em entrevista exclusiva à Amazônia Real, Davi Yanomami disse que cobrou do presidente Lula a promessa feita na campanha eleitoral de 2022, em que derrotou Jair Bolsonaro. “A morte das nossas crianças na terra Yanomami e os quatro anos de governo que ficou comandando [Bolsonaro], matou o meu povo, matou meus filhos na comunidade, ele só estragou a saúde”, acusou.

Davi explicou como é o quadro da saúde dos yanomami e quantas mortes – por diversas doenças, incluindo a covid-19 -, foram contabilizadas no ano de 2022:

“O garimpo mata qualquer pessoa, qualquer animal, a vida do rio. São 577 crianças indígenas yanomami que morreram em quatro anos!”.

Lula também acusou Bolsonaro pela calamidade na saúde indígena. “Sinceramente, o presidente que deixou a presidência esses dias, se em vez de fazer tanta motociata, tivesse vergonha e viesse aqui uma vez, quem sabe essas pessoas não estivessem tão abandonadas como estão”.

Davi Kopenawa cobrou posicionamento de Lula sobre garimpo nas terras Yanomami / Foto: Giovani Oliveira/Semuc

A reportagem também ouviu o líder histórico dos garimpeiros, o minerador José Altino Machado. Sobre a eleição de Lula, ele afirmou: “É consenso para o pessoal do garimpo, o resultado das  eleições nós estamos respeitando, foi reconhecida a eleição dele, ele é o presidente da República”. Mas criticou os números de mortes de crianças Yanomami apresentados pelo governo.

“Mas Lula, por favor e pela governabilidade nacional, não seja movido por  mentiras que tomam espaço na vida política do país. É um exagero dizer que 100 crianças yanomami morreram por desnutrição. Que morreram envenenadas por mercúrio mais de 500. É preciso provar, os garimpeiros que estão lá trabalham com cassiterita, não usam mercúrio”.

Na sexta-feira (20), o presidente Lula assinou um decreto de emergência em saúde pública na Terra Indígena Yanomami. Também assinado pelas ministras Sonia Guajajara e Nísia Trindade, o decreto institui o Comitê de Coordenação Nacional para Enfrentamento à Desassistência Sanitária e prevê a criação de ações de enfrentamento à crise sanitária no território Yanomami, e aos problemas sociais e de saúde dela decorrentes, no prazo de 45 dias. 

A ministra Sonia Guajajara disse que a comitiva em Boa Vista foi para constatar a situação grave da saúde e tomar todas as medidas cabíveis

“Precisamos também responsabilizar a gestão anterior por ter permitido que essa situação se agravasse ao ponto de chegar aqui e a gente encontrar adultos com peso de crianças e crianças em situação de pele e osso”, declarou a ministra.

Repercussão entre ativistas

A comitiva de Lula em Boa Vista levou lideranças indígenas, defensores dos direitos humanos e ativistas a realizarem atos de protestos contra o garimpo. Eles estenderam faixas com as frases “fora garimpo” e “desintrusão já” pedindo uma solução para o conflito que se arrasta há décadas. 

Lideranças indígenas e ativistas se manifestam antes da chegada do presidente Lula na Casai Yanomai, em Boa Vista / Foto: Felipe Medeiros/Amazônia Real

O artista plástico e ativista Bartô Macuxi afirmou que “os povos indígenas estavam precisando deste momento, porque não aguentavam mais esse desmando, esse genocídio em terra Yanomami, com lama, mercúrio, violência e doenças”.

“Então, o que estávamos esperando era que o presidente Lula ganhasse as eleições primeiro, e depois uma resposta na Funai. Foi criado o Ministério dos Povos Indígenas, que é importante para nós, e eu acho que, agora, tem tudo para acontecer um trabalho em conjunto, de repente com a Força Nacional, com o Exército, com a Polícia Federal para retirar os garimpeiros”, completou.

Evilene Paixão, ativista dos movimentos sociais, disse que a retomada das pautas do movimento indígena valoriza a vida dos povos.

“Muitas crianças morreram no governo Bolsonaro. Ele [Lula] está vindo aqui, está retomando o Brasil, retomando as nossas pautas, as nossas lutas, e, aqui em Roraima, é prioridade a vida dos povos indígenas porque eles estão morrendo diariamente por conta do garimpo, invadido na época do governo Bolsonaro”. 

Situação de emergência

Equipes do Ministério da Saúde estão desde a última segunda-feira (16/1) no território indígena Yanomami, que conta com uma população estimada de 30,4 mil indígenas. As equipes encontraram crianças e idosos em estado grave de saúde.

Atendimento aos Yanomami pela Força Nacional do SUS / Foto: Antonio Alvorado

Além da desnutrição aguda, os indígenas enfrentam problemas como malária, infecção respiratória aguda (IRA), entre outros problemas de saúde. A missão deve continuar em Roraima até a próxima quarta-feira (25/1), para produzir um levantamento completo sobre a situação crítica do povo Yanomami.

O presidente Lula prometeu retornar ao estado, em março deste ano, para visitar a Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

Ameaça de morte

Um dia antes de Lula visitar Roraima, na sexta-feira (20/1), a Polícia Federal de Roraima prendeu em flagrante um homem que o ameaçou de morte. Em uma rede social, o suspeito teria dito que era “a hora de colocar a bala na cabeça dele”, referindo-se a Lula.

O preso foi encaminhado ao sistema prisional, onde permanecerá à disposição da Justiça, conforme divulgou a assessoria da PF de Roraima. 

Nas últimas eleições presidenciais, Boa Vista, em Roraima, saiu do pleito como a capital mais bolsonarista do Brasil. Ali, o ex-presidente Jair Bolsonaro recebeu 144.799 votos contra  37.412 votos para Lula, o que equivale ao percentual de  79,47% a 20,53%.

*Este texto foi publicado originalmente pela Amazônia Real em 21/1/2023 e adaptado por Mônica Nunes para reprodução aqui, no Conexão Planeta.

Foto (destaque): Ricardo Stuckert (Lula na Casai – Yanomami, em Boa Vista, na companhia da ministra Nísia Trindade, do secretário especial de saúde indígena, Weibe Tapeba, e da primeira-dama Janja da Silva)

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