
O cacique Raoni Metuktire tem 93 anos, mas sua idade avançada pouco importa quando é preciso proteger os povos originários e seus territórios. Liderança reconhecida internacionalmente, ele está na
COP30, a conferência climática da ONU que acontece pela primeira vez no Brasil, em Belém, para bradar contra aexploração de petróleo e a mineração na Amazônia e apoiar os “parentes” do município de
Oiapoque, levando sua mensagem ao presidente Lula.
“Eu quero falar mais uma vez! Me escutem com atenção: vamos nos unir! Vamos ter força. Nós não podemos permitir que essa perfuração aconteça. Nós temos que ser fortes e continuar lutando para que não seja feita essa perfuração”, disse ele, ao lado da delegação do povo Kayapó, composta por mais de 20 pessoas, no espaço do Ministério Público Federal (MPF), na Zona Verde, área de livre acesso, que reúne organizações da sociedade civil, representações de instâncias governamentais e dos governos subnacionais, além de empresas.
“Eu falei com o presidente Lula para ele não procurar petróleo aqui. Eu falei com o presidente para ele não autorizar fazer Ferrogrão. Vou continuar cobrando. Penso em marcar um novo encontro com ele para falar sobre isso. Se precisar puxar a orelha do presidente para ele me ouvir, farei isso. Ele tem que nos respeitar”, acrescentou.
Sua declaração aconteceu durante coletiva de imprensa na Cúpula dos Povos (evento paralelo à conferência), um dia após o ministro Alexandre Silveira, de Minas e Energia, declarar a jornalistas na Zona Azul, que tem sido “aplaudido por ambientalistas de bom senso [na COP30], que veem que o Brasil e o Ministério da Energia liderou pelos biocombustíveis, liderou pela regulamentação do hidrogênio verde, liderou pela lei do combustível do futuro e liderou com a transição energética”.

À sua esquerda, está seu sobrinho Megaron Txucarramãe, e acima dele, Patxon Metuktire,
neto que é intérprete em suas aparições. Raoni se recusa a falar português
Foto: Tània Rego / Agência Brasil
A coletiva foi realizada assim que Raoni chegou à capital paraense, ontem (11), com os integrantes da barqueata – “manifesto fluvial que ecoa o grito dos povos da floresta, das águas e das periferias”.
O percurso, de cerca de sete milhas náuticas, se iniciou na UFPA (Universidade Federal do Pará) e seguiu até a Vila da Barca, área de palafitas que simboliza as contradições sociais e ambientais da cidade. O cacique e seu povo – além de outra aguerrida liderança indígena, Alessandra Korap Munduruku – participaram da Caravana da Resposta, que integrou a barqueata e percorreu mais de três mil km do Mato Grosso à Belém.
Macron e Lula
Em sua declaração na Cúpula dos Povos, Raoni obviamente se referiu à exploração de petróleo pela Petrobras no bloco 59, que fica a 175 km da costa do Amapá, na Margem Equatorial, autorizada pelo Ibama poucos dias antes do início da COP30. A área é rica em recifes de corais praticamente desconhecidos e, além de abrigar o maior corredor de manguezais do mundo margeia a costa onde vivem povos tradicionais: indígenas, quilombolas, ribeirinhos e pescadores artesanais.
E ele ainda disse que, se for preciso, vai recorrer a lideranças internacionais, como Emmanuel Macron, com quem conversou por videoconferência, na semana passada.
O presidente francês esteve no Brasil para participar da Cúpula do Clima – que reuniu líderes mais de 50 países, dias antes da conferência (como contamos aqui)n – e reforçou a mensagem contra a exploração na bacia da Foz do Amazonas, pois fica próxima da Guiana Francesa, território ultramarino do país europeu.
Tanto no discurso da cúpula de chefes de Estado, como na abertura da COP30, o presidente Lula destacou a urgência de “a humanidade, de forma justa e planejada”, superar “a dependência dos combustíveis fósseis”.
Isso depois de apoiar, de maneira fervorosa e por meses, a perfuração na Margem Equatorial e de declarar, mais recentemente, que os recursos dessa exploração podem oferecer condições para que o país invista em transição energética, além de “melhorar a vida do povo brasileiro”.
Tais contradições do presidente foram lembradas por lideranças indígenas dos povos do Oiapoque durante o encontro com Raoni e, também, em painel sobre exploração de petróleo e gás, realizado na Zona Verde, do qual o cacique Kayapó participou.
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Foto (abertura): Tania Rego / Agência Brasil




