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Sete torcedores espanhóis foram presos por crime de ódio contra Vini Jr. e os árbitros responsáveis por sua expulsão, demitidos

Sete torcedores espanhóis foram presos por crime de ódio contra Vini Jr. e os árbitros responsáveis por sua expulsão, demitidos

TEXTO ATUALIZADO: em 23/5 (15h) e 22/5 (22h)

Hoje, 23/5, a polícia espanhola informou que sete torcedores foram presos por suspeita de crime de ódio contra Vini Jr.

Três por insultos racistas durante partida entre Valencia e Real Madrid, no último domingo, e os outros quatro pela simulação de enforcamento com um boneco que usava a camisa do jogador em janeiro deste ano (contei sobre o caso no texto original, abaixo). Mas os três primeiros já foram liberados pela polícia mediante compromisso de comparecerem em tribunal.

Atualizações de 22/5, às 22h:

A Federação Espanhola de Futebol e o Comitê Técnico de Árbitros tomaram sua primeira providência nesta segunda: demitiram o árbitro Iglesias Villanueva, que estava no controle do VAR na partida entre Valencia e Real Madrid, em que Vinicius Jr. foi expulso por agredir um jogador adversário. Mas outros cinco, da mesma equipe, serão desligados para a próxima temporada também.

De acordo com a Folha de SP, “no lance da expulsão, o jogador Hugo Duro, do Valencia, agrediu Vinicius Junior, que revidou. Porém, apenas o brasileiro foi expulso após consulta ao vídeo”.

Em suas redes sociais, o zagueiro do Valencia, Mouctar Diakhaby, que também já foi vitima de racismo, se manifestou sobre os ataques racistas contra o jogador brasileiro no jogo de ontem: “Apoio ele contra os insultos que recebeu dos torcedores. Espero que meu clube faça o que for necessário para punir fortemente aqueles que cometeram esses atos. Não dizer nada é ser cúmplice”.

E, o Rio de Janeiro – cidade onde nasceu o atleta – declarou sua solidariedade ao apagar as luzes do Cristo Redentor, entre 18h e 19h, em sua homenagem. Em nota, o Santuário Arquidiocesano Cristo Redentor declarou:

“O Santuário Arquidiocesano Cristo Redentor repudia os ataques racistas sofridos pelo jogador brasileiro Vinícius Júnior nesse domingo, 21 de maio, durante jogo entre Real Madrid e Valencia. Por isso, nesta segunda-feira, das 18h às 19h, o monumento ao Cristo Redentor terá a iluminação desligada como símbolo da luta coletiva contra o racismo e em solidariedade ao jogador e a todos os que sofrem preconceito no mundo inteiro”.

A ação foi realizada de forma cooperada entre a Confederação Brasileira de Futebol, o Núcleo de Esporte e Fé do Santuário e o Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

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TEXTO ORIGINAL, escrito em 22/5:

O domingo foi mais um dia deplorável para a história do futebol espanhol e triste na trajetória do atacante brasileiro Vinicius Jr. (Vini Jr.), do Real Madrid. Ele foi novamente vítima de racismo.

A violência aconteceu ontem, 20/5, no segundo tempo da partida em que o time de Vini Jr. perdia para o Valencia, no Estádio Mestalla. Torcedores do time adversário proferiram insultos racistas e gritos de ‘mono’, que significa ‘macaco’. 

O jogo foi paralisado por oito minutos e, depois de uma confusão entre os dois times, quase no final da partida, Vini foi rendido pelo jogador Hugo Duro, do Valencia, com um golpe conhecido como “mata leão” e revidou. Mas somente o brasileiro foi expulso.   

Não bastasse a violência emocional e psicológica sofrida, neste episódio ele ainda sofreu agressão física e foi injustiçado com a expulsão. 

O mais irônico é que, ontem, fazia 11 dias que a ministra da Igualdade Racial do Brasil, Anielle Franco, e a ministra da Igualdade da Espanha, Irene Montero, assinaram acordo histórico no qual se comprometeram a combater racismo e xenofobia, em especial no esporte. 

Coincidência? Não! O acordo resultou da repercussão das notícias sobre atletas brasileiros – entre eles Vini Jr. – que têm sido vítimas de tais práticas repugnantes em clubes europeus. Mas também em locais públicos. Quem se lembra do boneco vestindo a camiseta que Vinicius Jr. usa no Real Madrid, que apareceu pendurado numa ponte em Madri, simulando um enforcamento, acompanhado de uma faixa que dizia: “Madri odeia o Real”?

Um ataque em cada estádio?

Na entrevista coletiva que deu ontem, em Hiroshima, sobre sua participação no encontro do G7, o presidente Lula falou sobre o episódio: “Eu queria começar esta entrevista fazendo um gesto de solidariedade a um jogador brasileiro, jovem, negro, que joga no Real Madrid. Ontem, num estádio do Valencia, ele foi fortemente atacado e chamado de ‘macaco’”. E continuou, indignado:

“Não é possível que, em pleno século XXI, a gente tenha o preconceito racial ganhando força em vários estádios de futebol aqui na Europa. Não é possível que um menino pobre, que venceu na vida, que está se transformando num dos maiores jogadores de futebol do mundo, talvez o melhor do Real Madrid, seja ofendido em cada estádio a que comparece. Penso que é importante que a Liga Espanhola e a de outros países tomem sérias providências porque não podemos permitir que o fascismo e o racismo tomem conta dos estádios de futebol”. 

No Twitter, o Ministério da Igualdade Racial declarou que notificará o governo espanhol e a La Liga, devido aos reiterados ataques a que o jogador vem sofrendo. 

“Repudiamos mais uma agressão racista contra Vinicius Junior. Notificaremos autoridades espanholas e a La Liga. O Governo brasileiro não tolerará racismo nem aqui nem fora do Brasil! Trabalharemos para que todo atleta brasileiro negro possa exercer o seu esporte sem passar por violências”.

Lembrando dos esforços dos dois países no combate a essas violências, em nota oficial interministerial – assinada em conjunto com os ministérios dos Esportes, das Relações Exteriores, da Justiça e Segurança Pública, e dos Direitos Humanos e da Cidadania -, a pasta ainda destacou: 

“Tendo em conta a gravidade dos fatos e a ocorrência de mais um inadmissível episódio, em jogo realizado ontem, naquele país, o Governo Brasileiro lamenta profundamente que, até o momento, não tenham sido tomadas providências efetivas para prevenir e evitar a repetição desses atos de racismo. 

Insta as autoridades governamentais e esportivas da Espanha a tomarem as providências necessárias, a fim de punir os perpetradores e evitar a recorrência desses atos. Apela, igualmente, à FIFA e à Liga a aplicarem as medidas cabíveis”.

“A gente vai cuidar do povo preto aqui e fora do Brasil!”

Em coletiva de imprensa, hoje, a ministra Anielle disse que o Brasil não vai ficar só na indignação e em notas de repúdio. Protestou contra o descaso dos organizadores da partida (La Liga) – “o presidente chegou a acusar Vini Jr. sobre tudo que aconteceu” – e contra falta de medidas que coíbam tais agressões contra o brasileiro, que têm sido sistemáticas (assista ao vídeo completo no final deste post). 

Anielle contou que os dois países estão em contato, que o Itamaraty está articulando reuniões, o governo já acionou o Ministério Público da Espanha para investigar o caso de racismo contra o jogador, que ela ligou para a vice-presidente da Espanha, entrou em contato com a família de Vini, e que o ministério mobilizou seu empresário, o embaixador do Brasil e o ministério da igualdade naquele país. E que aguarda posicionamento oficial.

Também lembrou que os países assinaram acordo recente – que contempla, entre outras medidas, acompanhamento psicológico, jurídico etc -, que ainda está em processo de alinhamento. 

E prometeu que lutará por todos os brasileiros negros, aqui e fora do país, até o fim do racismo!

“Ontem, falei com o tio dele, que me disse que era importante Vini saber que o Brasil está com ele. Quero mandar esse recado diretamente para ele. Estou perguntando as autoridades espanholas qual é o próximo passo. A gente vai cuidar do povo preto aqui e fora do Brasil”, sentenciou.

“Vou até o fim contra os racistas!”

Em seu primeiro pronunciamento a respeito do ocorrido, Vini Jr. ironizou: “O prêmio que os racistas ganharam foi a minha expulsão. Não é futebol, é La Liga!”. Em suas redes sociais, contou que, lá, “o racismo é normal” e que continuará combativo, mesmo que tenha que deixar o time ou o país.

“Não foi a primeira vez, nem a segunda e nem a terceira. O racismo é normal na La Liga. A competição acha normal, a Federação também e os adversários incentivam. Lamento muito. O campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi, hoje é dos racistas.

Uma nação linda, que me acolheu e que amo, mas que aceitou exportar a imagem para o mundo de um país racista. Lamento pelos espanhóis que não concordam, mas hoje, no Brasil, a Espanha é conhecida como um país de racistas. 

E, infelizmente, por tudo o que acontece a cada semana, não tenho como me defender. Eu concordo. Mas eu sou forte e vou até o fim contra os racistas. Mesmo que longe daqui”.

A indignação do técnico

Logo após a partida, Carlo Ancelotti, técnico do Real Madrid, foi procurado pela imprensa para falar da partida, mas quis falar apenas sobre os ataques e a expulsão de Vini Jr.:

“Não sou a pessoa mais indicada para dizer o que fazer, mas não se pode jogar futebol assim. Eu diria o mesmo se tivéssemos vencido, não jogar bem, é difícil buscar motivação. Isso é muito sério, jogaram uma bola durante um ataque, insultam Vinicius o tempo todo e depois mostram cartão vermelho para ele”. E completou:

“Estou muito triste, temos que acabar com isso porque é 2023, o racismo não deveria existir. É verdade que agora existe um protocolo, o árbitro explicou que primeiro você tem que avisar as pessoas e se voltarem a fazer, mandá-las pra casa”. Mas não foi o que aconteceu.

Em seu Instagram, Angelotti escreveu: “Hoje foi um dia triste em Mestalla, onde um grupo de fãs mostrou a sua pior versão. Hora de parar de falar e agir com força. O racismo não pode ter lugar nem no futebol nem na sociedade. NÃO AO RACISMO EM NENHUM LUGAR!”.

Agora, assista à fala de Anielle Franco e, em seguida, ao pronunciamento rápido do presidente Lula, sobre o caso:

Leia também:
Dez vezes em que Vini Jr. foi vítima de racismo na Espanha

Foto: Real Madrid/divulgação

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