“Não podemos mais deixar que pessoas no poder decidam o que é esperança. Esperança não é blá, blá, blá. Esperança é dizer a verdade e agir”, diz Greta

"Não podemos mais deixar que pessoas no poder decidam o que é esperança. Esperança não é blá, blá, blá. Esperança é dizer a verdade e agir", diz Greta

Sorrindo e com uma fala bem mais otimista do que costuma ter, mas ainda assim contundente, como sempre, a ativista sueca Greta Thunberg arrancou aplausos do público presente hoje no Youth4Climate, encontro de jovens sendo realizado em Milão, na Itália, como uma preparação para a Conferência das Nações Unidas para o Clima, a COP-26, que acontecerá em novembro, em Glasgow, na Escócia.

Durante cerca de oito minutos, Greta criticou novamente a inação de governos para combater a crise climática, mas ressaltou diversas vezes que sim, há esperança para reverter esta situação, que depende apenas de vontade política para que medidas urgentes sejam implementadas. Em vários momentos, ela se referiu ao atual discurso dos líderes globais como “blá, blá,blá”.

“A mudança climática é uma ameaça, mas acima de tudo, uma oportunidade para criar um planeta mais verde, limpo e saudável que irá beneficiar a todos nós. Precisamos aproveitar essa oportunidade e assim conquistar uma vitória de mão-dupla, tanto para a conservação ecológica como para o desenvolvimento de alta qualidade. Combater a crise climática envolve inovação, cooperação e força de vontade para fazer as mudanças que o mundo precisa”, disse.

E ela continuou.

“Quando eu digo mudança climática, o que vem à mente de vocês?… Eu penso em empregos. Empregos verdes. Precisamos fazer uma transição gradual para uma economia de baixo carbono porque não há um planeta B, não existe uma planeta blá, blá, blá”.

Daí em diante, a ativista começou a repetir várias frases e promessas ditas constantemente por governos de todo o mundo, e em seguida, ela completava com “blá, blá, blá”.

“Zero emissões de carbono até 2050, blá, blá, blá. Neutralidade climática, blá, blá, blá. Isto é tudo o que ouvimos dos nossos chamados líderes, palavras. Palavras que soam ótimas, mas que até agora não levaram a ação nenhuma. Nossos sonhos e esperanças se afogam nas palavras e promessas vazias deles. Obviamente que precisamos de um debate construtivo, mas eles já tiveram 30 anos de blá, blá, blá”, disse Greta.

A jovem ressaltou que 50% de todas as emissões de CO2 (gás carbônico, apontado como principal responsável pelo aquecimento global) ocorreu depois de 1990 e 1/3 desde 2005.

“Não me entendam mal. Uma mudança não é apenas ainda possível, mas urgentemente necessária… A crise climática é apenas um sintoma de uma crise muito maior: a crise da sustentabilidade, a crise social, a crise de desigualdade que remonta aos tempos da colonialismo. Uma crise baseada na ideia de que algumas pessoas valem mais que outras e por isso têm o direito de explorar e roubar a terra de outros e seus recursos. E é muita ingenuidade acreditar que podemos achar uma solução para esta crise sem enfrentar as raízes dela”, enfatizou.

Diante da mesa organizadora do evento, Greta afirmou que jovens são convidados para participar de encontros como esses mas nunca são ouvidos. Basta olhar para os números, as estatísticas e ouvir os cientistas. As emissões dos gases de efeito estufa continuam a subir.

E mais uma vez, ela usou de ironia para denunciar a paralisia de governos. “Não podemos mais deixar que pessoas no poder decidam o que é esperança. Esperança não é blá, blá, blá. Esperança não é passiva. Esperança é dizer a verdade e agir. E esperança sempre vem do povo. E nós, o povo, queremos um futuro seguro. Queremos ações climáticas reais e justiça climática”.

Ao final, conclamou o público a responder em coro, à sua pergunta, “O que queremos e quando queremos?”. E centenas de jovens ativistas, como ela, responderam, de pé: “Ação climática, agora. Justiça climática, agora“.

Confira abaixo, em inglês, o discurso completo de Greta Thunberg na Youth4Climate hoje:

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Foto: reprodução Facebook Greta

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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