“Não nos reunimos para planejar uma guerra, mas para defender nossos povos, nossas terras”, diz Raoni

Com essas palavras, o cacique Raoni Metuktire deu início ao Encontro Mebengokrê em 14 de janeiro, revelando sua intenção ao convocar indigenas e representantes de outros povos da floresta para debater retrocessos e ameaças do governo Bolsonaro e definir um plano de ação para combatê-los.

O encontro está sendo realizado numa aldeia kayapó (etnia do cacique) no Xingu, às margens do rio de mesmo nome e reúne cerca de 450 indígenas – entre lideranças, ativistas, pajés, jovens, mulheres –, além de ribeirinhos, seringueiros, entre outros povos.

“Esse encontro não é para planejar uma guerra, um conflito. Estamos aqui para defender nosso povo, nossa causa, nossa terra. Eu quero pedir, mais uma vez, que o homem branco nos deixe viver em paz, sem conflito, sem problema. Eu nunca faria um encontro para atacar alguém. Estamos reunidos aqui para nos defender”.

O líder que, junto com Ailton Krenak, representou os povos indígenas na Assembleia Constituinte, em 1988, e é reconhecido por políticos e ativistas em todo o mundo, também enviou mensagem para o presidente:

“Bolsonaro, veja se faça coisas bonitas, veja se faça as coisas direito. Ajude seu povo. Ajude o povo indígena. Você vem fazendo as coisas querendo destruir. Você mesmo não está respeitando o seu povo. Você não tá respeitando meu povo indígena. Vê se me escuta. Vê se minha voz chega à você, para você respeitar seu povo e o povo indígena. Mas você fazendo coisa ruim, eu não gosto. Não gosto de você prejudicar o povo indígena e seu povo”.

O Encontro Mebengokrê vai até 17 de janeiro. Acompanhe a cobertura da Mídia Ninja pelo Instagram.

Posição da ‘Funai governamental

Ontem, a assessoria de comunicação da Funai – Fundação Nacional do Índio divulgou nota comunicando que, “como entidade oficial do Estado brasileiro nas questões indígenas, a Funai não participa de eventos particulares ou sequer apoia iniciativas que são alheias ao projeto governamental do órgão.

A Funai, um dia, até foi a entidade oficial nas questões indígenas, mesmo aos trancos e barrancos. Mas, desde que Bolsonaro assumiu o governo, não é mais, “virou a casaca” como bem desenhou o cartunista Carlos Latuf a convite do CIMI – Conselho Indigenista Missionário. E, hoje, a situação é ainda mais perigosa. O presidente está apenas cumprindo as promessas que fez quando ainda era candidato à presidência e confirmando o que diz sobre eles sempre que tem uma oportunidade.

Desde janeiro de 2019, o presidente tem tentado neutralizar a ação dessa instituição, criada em 1967 para proteger os direitos dos povos indígenas. Primeiro, transferiu a Funai para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, gerido por Damares. Também tirou os processo de demarcação das terras de sua alçada, transferindo-os para o Ministério da Agricultura, da ruralista Tereza Cristina.

Tais ações já revelavam suas reais intenções. Os povos indígenas se mobilizaram e foram às ruas. Indígenas e parlamentares lutaram para anular a decisão de Bolsonaro determinada pela MP 870/19, em janeiro de 2019. E conseguiram: demarcação voltou para a Funai e a Funai para o Ministério da Justiça (de Moro!!!). Uma derrota para Bolsonaro, que durou pouco.

Como tem feito com as instituições ambientais – como Ibama e ICMBio – e de direitos humanos, o governo iniciou processo de desmonte da Funai, trocando a presidência e demitindo servidores, pessoas especializadas em todos os temas referentes aos indígenas, entre eles, antropólogos, que foram substituídos por “profissionais de confiança“.

Em novembro, a associação de servidores da Funai – Indigenistas Associados (INA) – publicou, em novembro, nota de repúdio, na qual elencou as ações criminosas do governo Bolsonaro, que priorizam o desenvolvimento econômico a qualquer custo e, por consequência, determina a não-demarcação e a invasão das terras dos povos indígenas.

Esta semana, a instituição não acatou recomendação do Ministério Público Federal (MPF), que solicitou a anulação da nomeação de dois coordenadores técnicos responsáveis por estudos de natureza antropológica no órgão. O MPF diz que eles não possuem formação acadêmica ou especialização nas áreas de antropologia e ciências sociais. Eles tampouco têm conhecimento técnico sobre os povos Pankará e Tuxi, em Pernambuco, e Guarani Mbya, em Santa Catarina, e ainda defendem os interesses de ruralistas. Com esta atitude, fica ainda mais claro que a instituição não defende mais os indigenas, mas ataca seus direitos, em qualquer lugar do país.

Soma-se a tudo isso, esta nota fria da assessoria de comunicação a respeito do Encontro Mebengokré. Se estivesse ao lado dos indígenas e defendendo suas causas, de fato, esse texto não teria sido divulgado. É mais um tapa na cara dos povos indígenas e uma declaração de que os interesses da instituição estão alinhados com o plano desenvolvimentista do governo. Nada mais.

Quando voltarem do recesso, os parlamentares do Congresso terão um projeto espinhoso para votar: o PL do governo que libera as terras indígenas para exploração econômica – mineração, gás e petróleo, agronegócio… -, sem necessidade de consultar as comunidades que nelas vivem. Temos que fazer pressão junto aos parlamentares! Alguém precisa parar essa gente.

Fonte e foto: Mídia Ninja

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta