Não existe discussão entre vida ou saúde X economia: vida e saúde são variáveis essenciais da economia

Brasil é 4o maior poluidor de lixo plástico do planeta e o que menos recicla

Passou despercebida a mais significativa declaração do ministro Henrique Mandetta em sua coletiva de 28 de março. Ele explicou que a redução de acidentes de trânsito devido às medidas de cautela levou a liberar entre 30% e 50% dos leitos de UTI no Brasil. Pois nossa taxa relativamente alta de leitos de UTI se deve justamente ao fato de sermos o país recordista em traumas e mortes no trânsito.

O ministro citou isso para sugerir que nossa capacidade de atendimento de infectados por coronavirus pode ser melhor do que se pensava. Assim, escancarou quanto a cultura de aceitar morbidade e mortalidade, em troca de uma noção fictícia de “desenvolvimento econômico” esteja enraizada no país, até o ponto de considerar normais fenômenos como esse.

Ficamos arrasados ao ouvir o presidente Bolsonaro dizer “paciência, haverá mortos” no caso do COVID-19. Mas é exatamente o que a sociedade diz diariamente sobre mortos nas estradas, mortos por poluição atmosférica nas cidades, mortos por falta de saneamento, mortos por insalubridade industrial. Na sua lista de sandices, consta também aquela pela qual “o brasileiro pula no esgoto e nada acontece”.

Mas ele não está sozinho na sandice: nem os políticos de oposição retrucaram que esse pular no esgoto gera meio milhão de internações por ano no SUS – Sistema Único de Saúde, e corta a renda média do país em 6%, mais do que o Brasil cresceu no governo dos últimos três presidentes.

A Universidade de Stanford concluiu, em 28/3, um estudo que estima em 50 mil as mortes evitadas na China por poluição desde janeiro, por conta do lockdown (isolamento) devido à pandemia. Paradoxalmente, o saldo em vidas humanas desse trimestre naquele país é positivo, embora isso tenha ocorrido por fatores indesejáveis e de forma insustentável.

Eis a principal lição da conjuntura que vivemos: deixar de trabalhar com planilhas econômicas falsas, que desconsideram as chamadas externalidades, isto é todos aqueles custos reais, de origem social e ambiental, que tornam as contas econômicas convencionais uma patética ficção. Que iludem sobre a viabilidade de atividades consideradas viáveis só porque se esconde em baixo do tapete seu custo verdadeiro. Como a ideia que temos de um frete barato só porque não se embute nele a necessidade de bancar os leitos de UTI.

Não existe discussão entre vida ou saúde versus economia. Vida e saúde são variáveis essenciais da economia.

Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado/Creative Commons/Flickr 

Roberto Smeraldi

Jornalista e cozinheiro, é vice-presidente do instituto Atá e idealizador do Centro de Gastronomia e Biodiversidade, em Belém, lançado em 2015 e que iniciará suas atividades em 2019. Autor de livros e ensaios sobre temas da sustentabilidade, alimentos e Amazônia, promoveu no Brasil a certificação socioambiental de alimentos. Incentiva o aproveitamento total dos alimentos, especialmente os animais. Também é colunista do caderno Paladar, do jornal O Estado de São Paulo

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