‘Não deixe a soja entrar no Pantanal!’: organização lança campanha para sensibilizar sociedade e poder público sobre expansão do cultivo de soja no bioma no Mato Grosso do Sul

Que beleza majestosa! O Pantanal é a maior planície inundável do planeta em extensão contínua, que abriga uma rica e única biodiversidade. Um paraíso que continua ameaçado: depois de sofrer com os incêndios de 2020, está sendo progressivamente devastado pela expansão do cultivo de soja em suas áreas naturais de planície, localizadas em Mato Grosso do Sul.

E os danos podem ser irreversíveis

A situação é grave e, por isso, o Instituto SOS Pantanal – que atua na região desde 2009 – decidiu promover uma campanha para conscientizar e sensibilizar a sociedade civil e o poder público, com uma petição online: Não deixe a soja entrar no Pantanal!O objetivo é recolher assinaturas de todos que se solidarizam com a causa. Quanto mais, melhor! 

Os impactos visíveis da produção de soja no Pantanal do Mato Grosso do Sul / Foto: SOS Pantanal

A iniciativa já conta com o apoio de diferentes organizações que atuam em prol da conservação ambiental – como Ampara Silvestre, Ecoa, Onçafari, Instituto Arara-Azul, Projeto Onças do Rio Negro, SOS Mata Atlântica e WWF Brasil – e, segundo Gustavo Figueirôa, biólogo e diretor de comunicação e engajamento do SOS Pantanal, tem conquistado grande adesão e receptividade junto aos pantaneiros

“Eles têm a compreensão de que a natureza fala mais alto nesse bioma e precisa ser respeitada”, destaca o biólogo, lembrando que, no Pantanal, há cerca de 4.700 espécies, sendo 3.500 de plantas, 650 de aves, 124 de mamíferos, 80 de répteis, 60 de anfíbios e 260 de peixes de água doce. E muitas já estão ameaçadas de extinção

“Não podemos permitir que esse equilíbrio seja abalado por uma atividade altamente destrutiva como os plantios de soja em larga escala”, pondera o biólogo.

Alexandre Bossi, presidente do SOS Pantanal, destaca que, com a campanha, o instituto reafirma seu compromisso com as práticas sustentáveis na região. 

“Nossa principal agenda sempre foi, e continua sendo, o desenvolvimento econômico aliado à conservação ambiental. Para nós, a produção agropecuária conduzida de forma sustentável, aliada ao desenvolvimento do ecoturismo, é o caminho rumo a esse objetivo. É exatamente por isso que ressaltamos que o Pantanal não é lugar de soja!”.

Biodiversidade e povos tradicionais

O Mato Grosso do Sul tem 35,7 milhões de hectares, no total. Entre 2021 e 2022, cerca de 3,7 milhões de hectaresforam utilizados para o plantio de soja em planície pantaneira – , mais especificamente nos municípios de Coxim, Miranda e Aquidauana -, o que representa 11% do Estado. 

E isso não é pouco, pois o risco que vem e virá com o crescimento desse cultivo, nos próximos anos, afetará drasticamente o equilíbrio do meio ambiente. Com mais um detalhe: o governo do estado tem investido em estradas e aterros nessa região, o que facilitará sobremaneira a produção e o escoamento dessa produção.

É bem possível que tais investimentos em infraestrutura estejam sendo feitos com essa finalidade. Ainda mais porque o estado – ao contrário do Mato Grosso – não tem leis ambientais para barrar esse tipo de avanço.  

Figuerôa destaca que, embora ainda não seja possível avaliar os impactos gerados por essa área cultivada, já existe consenso – entre representantes rurais e outras instituições que atuam na defesa do ecossistema – de que o plantio do grão em larga escala é uma grande ameaça, pois interfere diretamente no meio ambiente e o Pantanal não tem vocação para esse cultivo. 

“O bioma tem vocação para a pecuária, que está estabelecida na região há mais de 200 anos. Bem manejada, a produção pecuarista mantém uma relação de equilíbrio com o Pantanal. Já a soja, não, pois requer o desmate de grandes áreas e o uso de defensivos agrícolas para viabilizar a produção em larga escala”.

O biólogo exemplifica a questão com um caso contundente na região, em Bonito (MS), cidade vizinha ao Pantanal: seus principais rios estão ameaçados pelo avanço do cultivo de soja em regiões de banhado, super vulneráveis a qualquer alteração. 

E acrescenta: “A morosidade do Estado em pautar ou direcionar o avanço dessas lavouras propiciou que ele fosse desordenado em locais ambientalmente sensíveis a um custo enorme para a região”.

Por ser uma grande extensão alagável, o risco dos impactos gerados por uma produção agrícola em larga escala no Pantanal é potencializado com a utilização de moléculas de ação biocidas (inseticidas, fungicidas, herbicidas e nematicidas) para controlar pragas, doenças e plantas invasoras.

E esses produtos ainda carregam substâncias poluidoras como metais pesados, surfactantes e emulsificantes que, quando entram em contato com o solo, contaminam a água de todo o sistema, afetando o bioma em todos os aspectos: sua rica biodiversidade e a vida das populações tradicionais.

Legislação ambiental

Hoje, há 8 milhões de hectares de áreas degradadas que podem ser utilizadas para plantio de soja e outras produções, sem necessidade de avançar no Pantanal. Mas, como   contei acima, faltam leis que impeçam tanta destruição.

Ao contrário do Mato Grosso do Sul, o estado vizinho – Mato Grosso – possui legislação ambiental, por isso, ali o Pantanal não sofre com o avanço da soja! E esta é uma das bandeiras do SOS Pantanal, como destaca Bossi: 

“O Mato Grosso do Sul deveria seguir o mesmo caminho. Viemos alertar sobre o futuro da planície e trazer à tona futuros problemas e, com eles, possíveis soluções, inclusive econômicas”. E completa: “Diante desse cenário, a hora de pautar e direcionar esforços nessa legislação é agora, quando ainda há poucos hectares de soja na planície e não há tempo a perder”.

A campanha e sua petição online destacam a urgência de sensibilizar a todos – sociedade civil, opinião pública, ambientalistas e a classe política do Mato Grosso do Sul – sobre os riscos que o amplo cultivo de soja pode acarretar.

Contar com sua adesão e assinatura é mais um passo para ajudar os defensores do Pantanal, como o SOS Pantanal, a garantir a preservação deste bioma tão lindo que tem encantado tanta gente ao vivo e, todas as noites, na novela Pantanal.

A seguir, assista ao vídeo da campanha Não deixe a soja entrar no Pantanal! no YouTube:

Fotos: SOS Pantanal/Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.