Na estrada do Mundo Lixo, por Jaime Prades

arte feita com lixo

Embale a sua sede, a sua fome. Embale o que você sente para viagem. Embale tudo entre o céu e a terra. Até que você se paralise e o todo se comprima. Até que navegar não seja mais uma ação e o transporte já não seja possível. Até que o cerne seja só verme. Não. Melhor acreditar, como Jaime Prades, que acharemos a tempo aquela centelha humana que iluminará e salvará a humanidade. Aquela centelha que se preocupa com conteúdo e não com embrulhos e embalagens coloridos pela moda, feitos de beleza nociva e recheados de qualidade duvidável.

arte feita com lixo

Pensemos que daremos conta do nosso lixo, tomando-o como nossa responsabilidade.  E, se der, transformaremos em arte. Como Jaime faz procurando resto por aí. Entulhos, que circulavam em caçambas na cidade de São Paulo, passaram a ser suporte para uns delicados hieróglifos mutantes. Sei, sei. Hieróglifos foram usados nas paredes dos templos, túmulos durante um período de 3.500 anos para escrever a antiga língua do povo egípcio. Coisa que apareceu há 3000 AC.

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Mas me deixa com minha liberdade poética. O que são esses pedaços de parede senão templos de matéria de memórias que ficaram impregnadas na matéria de concreto e que a demolição não destrói? Depois da demolição não passaram, de prédios e casas habitadas, a ser placas lotadas em túmulos nessa tumultuada e intraduzível civilização atual? Histórias que o artista espanhol nacionalizado brasileiro tenta agregar às falas das paredes.  Palavras  encavernadas no escuro das lembranças do homem primário e primeiro. E aí desviamos pelo caminho do contraste irônico, da abissal diferença entre as necessidades de consumo da pré-história e as nossas.

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Temos desejos alimentados por um dragão-máquina que nos ameaça.  Já deveria estar no ferro-velho, mas, não! Continua queimando nossas reais importâncias e esperanças na chama voraz expelida a cada tentativa de batalha contra as regras da acomodação social vigente. Acomodação que nos mantém em conforto e aparente segurança.

arte feita com lixo

A lona usada de caminhão que suporta a obra e o peso da imagem da falta de solidariedade não é cobertura para quem permanece à margem da estrada, enquanto permanecemos envolvidos pela lataria do carro que nos protege e faz ignorar o mundo da maioria lá fora. Não esqueçamos, respiramos todos juntos o CO2 dos carburadores, das queimadas provocadoras do efeito estufa com seu gases que aumentam a temperatura da Terra e ameaçam de extinção várias espécies.

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Um ratinho australiano, que os cientistas reconhecem ser o primeiro mamífero a desaparecer do mapa por causa direta da mudança climática foi notícia esta semana e deveria ter causado um alarde maior. Ele é um de uma grande lista ameaçada. Ratinho habitante de uma pequena ilha que passou a ser inundada com frequência em decorrência do dominó do aquecimento global. Esse jogo, em que só há perdedores, derrete geleiras, aumenta o nível do mar, invade terras, afoga espécie…arte feita com lixo

Os absurdinhos estão rodando por aí, feito fantasmas de ratinhos, avisando que é bom não esperar a água chegar no pescoço, ainda que o pescoço seja do seu neto, bisneto, tataraneto. Assombrações do futuro devem organizar uma puxada coletiva nos pés contemporâneos que vão acabar chutando lixo no lugar da bola de futebol.

Obras: Mundolixo, À Deriva, Bruto 01.03.2012, Brasil, O sinal, Osso, Absurdinhos

Fotos: site oficial do artista

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além do Arte na Roda, mantém seus escritos poéticos, inspirados em música, no Para de gritar isso seu irresponsável. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado.

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