Mundano, Ricardo Galvão, Célia Xakriabá, Nátaly Neri e Gustavo Guadagnini estão entre as 25 pessoas que podem salvar o mundo

Ajudar a salvar o mundo é uma tarefa dificílima, poxa, mas algumas pessoas até que podem ser classificadas assim pelo trabalho magnífico que desenvolvem pelo bem comum, pela coletividade. Por isso, a revista masculina GQque costuma fazer listas de coisas fúteis como os melhores calçados, lugares ou festas – resolveu fazer uma reflexão mais séria e criar uma lista diferente. Assim, escolheu 25 pessoas que se destacam por sua trajetória engajada e incluiu cinco brasileiros nesse grupo seleto: o artivista Mundano, o cientista Ricardo Galvão, a indígena Célia Xakriabá, a jovem ativista negra Nátaly Neri e o especialista em tecnologia e alimentação Gustavo Guadagnini.

Com bom humor e um montão de entusiasmo, Thiago Leite, mais conhecido como Mundano, escreveu em seu Instagram: “Já fui listado na escola como ‘garoto-problema’ e, pelo estado, como vândalo e criminoso ambiental. Mas, agora, estou entre os ’25 nomes que podem salvar o mundo’. Pra você ver como esse tal mundo dá voltas”. E completou: “Não acredito nessa ideia simplista de ‘salvar o mundo’, que parece meio de revista de quadrinhos, mas, sim, em bilhões de pessoas mudando seus hábitos e lembrando que somos a própria natureza e estamos nos destruindo”.

Para a publicação, cada um desses pensadores e/ou ativistas escolhidos oferece, a seu modo, ‘uma esperança real de que podemos consertar os erros do passado e ainda termos chances de viver um futuro sustentável”.

Com seus projetos ou iniciativas procuram neutralizar alguns dos maiores desafios da atualidade, entre eles a crise climática, algoritmos falsos (que espalham fakenews como praga), doenças fatais e monopólios de tecnologia. “Muitos desses problemas foram criados como consequência do nosso esforço incansável pelo progresso”, ressalta a publicação.

Ativismo e arte para qualquer parte

O artista ativista Thiago Leite é conhecido como Mundano, idealizador de dois projetos criados para apoiar o trabalho dos catadores e catadoras de materiais recicláveis ou aqueles que ele chama de “verdadeiros agentes ambientais“: o Pimp My Carroça e o premiado app Cataki. Com o primeiro, Mundano e uma turma de ativistas reformam as carroças dos catadores, inclusive exibindo frases espirituosas a respeito de politica. Com o segundo, conhecido como o Tinder da Reciclagem porque conecta o catador de quem separa o lixo. Já existem 3 mil catadores brasileiros inscritos no aplicativo.

Escrevi sobre ele, aqui, no Conexão Planeta, em janeiro e 2017, quando o Cataki ainda nao existia: A arte e o amor de Mundano pelos catadores e pela liberdade.

Desde que a mineradora Vale resolveu protagonizar desastres ambientais como os de Mariana (Rio Doce), de Brumadinho, ele aderiu às mobilizações locais e se engajou com sua arte. Primeiro, pintou quadros inspirados em obras como as de Tarsila do Amaral (Abapuru) e Cândido Portinari (O Mestiço), com tinta feita da lama tóxica jogada pela mineradora Vale no rio Paraopeba. Quando este crime completou um ano, em 25 de janeiro, ele também pintou um painel gigante na parede de um prédio próximo ao Mercado Municipal, no Centro da cidade de São Paulo (que fazia aniversário: foi um presente), com tinta feita de lama tóxica, inspirado pela obra Os Operários, de Tarsila. Ficou lindo!

Esta semana está finalizando mais um quadro: desta vez, faz a releitura da gravura A Grande Onda de Kanagawa, de 1830 , de autoria do grande artista Hokusai, com tinta a óleo produzida partir do vazamento no litoral nordestino. Ele a chama de Óleo cru do vazamento no nordeste coletado por voluntários sobre tela.

Feliz com O artivista entende que sua inclusão na lista das 25 pessoas que podem salvar o mundo é um “reconhecimento importante porque mostra que catadores e catadoras são superheróis que todos os dias ajudam na preservação deste planeta. E são milhões deles por todo o mundo”.

E completa: “Esta é apenas uma lista, mas estar nela representando o nosso país – os catadores e o artivismo – ao lado de uma galera fantástica, que admiro, é uma honra”. E justifica sua alegria em compartilhar a notícia no Instagram: “Resolvi compartilhar a notícia com vocês porque ultimamente, tenho postado só obras sobre tragédias socioambientais e é preciso celebrar um pouco também. Queria fazer isso com vocês, afinal ninguém faz nada sozinho, muito menos salvar o planeta”.

Defensor da Ciência, herói nacional

O cientista Ricardo Galvão foi diretor do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, por três anos, até 2019, quando foi exonerado por Bolsonaro no an passado por não concordar com as orientações do presidente que queria esconder os dados sobre desmatamento, no auge dos incêndios florestais. Com um detalhe: os dados do instituto – onde ele trabalhava desde 1970 – estão disponíveis no site para qualquer pessoa deste planeta consultar. A transparência é total.

Como faz constantemente com todos que o aborrecem, Bolsonaro tentou desqualificar o físico e engenheiro com doutorado no MIT, dizendo que ele havia deturpado dados para beneficiar uma ONG. Se fosse num outro cenário – quero dizer, se o presidente tivesse credibilidade – isso poderia acabar com a carreira de Galvão já que foi a autoridade máxima da nação quem o acusou. Mas claro que o que aconteceu foi exatamente o contrário: dezenas de cientistas, associações e universidades do mundo se manifestaram a favor do cientista, inclusive uma das mais respeitadas revistas científicas, a Nature.

Em dezembro, a Nature divulgou as dez pessoas que fizeram a diferença na Ciência em 2019. Galvao está entre elas, ao lado de Greta Thunberg. Disse que o físico se tornou herói nacional ao enfrentar o governo brasileiro e, por isso, é um importante Defensor da Ciência.

E, assim, aos 71 anos, ganhou novo impulso em sua carreira. “As autoridades se incomodam quando escutam o que não querem, mas a comunidade acadêmica e científica e o povo brasileiro não se calarão”, disse à GQ.

Uma jovem liderança pelos povos originários

Célia Xakriabá, 30 anos, é ativista e jovem liderança indígena e trabalha na coordenação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (a coordenadora executiva é Sonia Guajajara), uma das instituições mais atuantes em defesa dos povos originários.

Só em 2019, 138 lideranças indígenas assassinadas. “Se o governo acha que somos o alvo, vamos mostrar para ele que também podemos ser a flecha”. Esta é uma das frases conhecidas de Célia, da tribo Xakriabá, no norte de Minas Gerais, que é professora e militante desde os 13 anos.

Cursou o ensino básico na primeira turma da Escola Indígena Estadual Xukurank, em São João das Missões, e se formou em Ciências Sociais na primeira turma de Educação Indígena da Universidade Federal de Minas Gerais. É a primeira de seu povo se formar mestre e, agora, cursa doutorado em Antropologia na UFMG.

Está há quatro anos na politica. Trabalhou na Secretaria de Educação de Minas Gerais e, hoje, é assessora da deputada federal Áurea Carolina, do PSOL.

Para Célia, a demarcação territorial é o principal problema dos povos indígenas no Brasil. “Quem tem território tem para onde voltar. Quem tem para onde voltar tem mãe, tem colo, tem cura e tem identidade”. 

Afros, afins e a autonomia intelectual

Ilustração: Victor Amirabile

Nátaly Neri tem 25 anos, é socióloga e usa as redes sociais para mudar o mundo, buscando e incentivando a autonomia intelectual. Em seu canal no YouTube – Afros e Afins – fala a respeito de raça, gênero, sociedade, sustentabilidade, slow living, beleza e tudo o que interessa a uma jovem interessada em melhorar sua vida e a realidade ao seu redor. Sempre questionando o capitalismo e falando de consumo conscientemente, empoderamento e estética negra.

Sua palestra A mulata que nunca chegou, realizada no TEDxTalks SãoPaulo Salon, em janeiro de 2017, no qual fala sobre preconceito, tem quase um milhão de views. Na época, ela ainda era estudante.

Desde 2018, é uma das 50 embaixadoras mundiais do movimento Creators for Change, do YouTube. “A senzala ainda está aqui quando eu, negra, odeio meu corpo, odeio quem eu sou porque não correspondo a um ideal de beleza da sociedade atual”, destacou à GQ.

Há seis anos, Nátaly namora um homem trans, que aniversaria em 5/5, mesmo dia de Karl Marx, autor de O Capital, que ela admira.

Por uma comida com menos impacto

Ilustração: Victor Amirabile

Gustavo Guadagnini é diretor do The Good Food Institute (GFI) no Brasil e seu trabalho consiste em desenvolver proteínas que poluem menos e que favorecem o crescimento populacional do planeta de forma sustentável.

Desde criança, sempre comeu carne, mas, em 2015, tornou-se vegano porque estava se sentindo muito acima do peso – perdeu 55 kg – e se comprometeu em adotar uma alimentação mais saudável. Ganhou uma nova vida.

Em 2017, deu mais um passo em seu engajamento pessoal e coletivo: assumiu a direção do GFI no Brasil. A organização tem o apoio da Fundação Bill e Melinda Gates e “incentiva pesquisas tecnológicas alimentares para diminuir a emissão de gases estufa, o uso intensivo do solo e da água e a degradação dos oceanos”, destaca a GQ.

“Hoje dá para replicar quase tudo com plantas”, garante Gustavo, que não vê nenhum problema em que as pessoas continuem comendo carne, desde que não tenham animais envolvidos. Ou seja, consumam produtos tecnológicos e saudáveis. Não de se trata de oferecer alternativas para vegetarianos, mas de ajudar os moradores deste planeta a rever hábitos. “Precisamos ter uma oferta de produtos que mantêm a cultura e se transformam com a tecnologia. Isto pode salvar o mundo”.

Os outros 20 nomes

Além dos brasileiros acima, há mais vinte pessoas inspiradoras na lista da GQ, que listo abaixo e você pode conhecer melhor no site da revista:

  • Joy Buolamwini, fundadora da Algorithmic Justice League (em tradução livre: Liga da Justiça Algorítmica);
  • Lina Kahn, Advogada principal do subcomitê da Câmara dos Estados Unidos sobre Direito Antitruste, Comercial e Administrativo;
  • Guillaume Chasnot, Criador do Algo Transparency;
  • Chad Rigetti, Fundador e CEO da Rigetti Computing;
  • Lisa Jackson, Vice-presidente de iniciativas ambientais, políticas e sociais da Apple,
  • Jason Buenrostro, Pesquisador de Harvard;
  • Emily Leproust, CEO da Twist Bioscience;
  • Dawn Song, Cofundadora e CEO da Oasis Labs;
  • Laura Boykin, Bióloga computacional da Cassava Virus Action Project (Projeto de Ação contra o Vírus da Mandioca);
  • Jonathan Yaney, CEO da SpinLaunch;
  • Alex Stamos, Diretor da Stanford Internet Observatory;
  • Jack Conte, Cofundador e CEO da Patreon;
  • Dominc Williams, Presidente e cientista-chefe da Dfinity;
  • Kate Darling, Especialista em pesquisa do MIT Media Lab;
  • Christofer Fabian e Sunita Groute, Unicef Ventures’;
  • Moriba Jah, Diretor da Astria, Pat Brown, Fundador e CEO da Impossible Foods;
  • Wendell Lim, Biólogo sintético da UC São Francisco;
  • Mariana Mazzucato, Fundadora e diretora do Instituto de Inovação e Finalidade Pública University College London; e
  • Uma Valeti, Cofundador e CEO da Memphis Meats;

Ilustrações: Victor Amirabile

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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