Mulheres são maioria no gabinete de governo de Gabriel Boric, presidente eleito no Chile

Gabriel Boric, presidente eleito do Chile, tomará posse apenas em 11 de março, mas, na última sexta-feira, 21 de janeiro, em cerimônia realizada no pátio do Museu de História Natural de Santiago, divulgou a formação de seu gabinete de governo, com 14 mulheres (58%) e 10 homens, destacando sua diversidade, não só de gênero.

“Temos certeza que a riqueza do Chile está, justamente, na diversidade de sua gente. O gabinete é tão diverso como o nosso país, representa, de forma simbólica, os 19 milhões de chilenos e chilenas, e tem a missão de lançar as bases para as grandes reformas que nos propusemos realizar em nosso programa”.

“O Chile é essa mistura entre um ambiente natural, suas cidades, seu povo e sua história”, acrescentou para explicar porquê escolheu o museu para apresentar seu gabinete. E acrescentou:

“A nós se juntam, nesta equipe de ministros, pessoas de diversas origens e formações, é um gabinete diversificado, um gabinete com maioria de mulheres (…), com a presença de regiões variadas, intergeracional, com pluralidade política, com diversos pontos de vista e com uma forte presença também de independentes e militantes de partidos políticos“.

Boric se voltou para os ministros presentes – parte dos escolhidos não participou da cerimônia por estarem com covid-19 – dizendo: “Peço-lhes que assumam suas tarefas com o maior compromisso e responsabilidade, tendo em mente que todas as pessoas que habitam nosso país esperam que possamos fazer do Chile um lugar mais humano e amigável para viver , onde a dignidade se torna costume”.

Para tanto, pediu-lhes que “devem trabalhar com as pessoas, precisamos que dialoguem, que ouçam muito, que ouçam o dobro do que falam”.

Comparação entre gabinetes de Boric e do primeiro governo pós Pinochet viraliza

Foto: reprodução Facebook

Em uma imagem, homens brancos, engravatados e sentados, em posição séria, formal. Na outra, muitas mulheres, uma criança e homens, com trajes coloridos e poses informais.

Na primeira, os integrantes do governo do presidente Patrício Aylwin, em 1989, que assumiu o governo do Chile logo após a derrubada de Pinochet. Na segunda, o ministério de Gabriel Boric.

A montagem foi divulgada pela TVN, do Chile, em seu Twitter e viralizou na internet. Sobre ela, a emissora escreveu: “Assim era em 1990, o primeiro gabinete da volta à democracia, quando Patricio Aylwin era presidente, e assim é parte do gabinete do presidente eleito Gabriel Boric em 2022”.

Neta de Allende, entre os ministros escolhidos

Um dos destaques do ministério de Boric é a ministra da Defesa: Maya Fernanda Allende, neta do ex-presidente socialista Salvador Allende, deposto durante o golpe de estado liderado pelo general Augusto Pinochet.

A notícia viralizou nas redes sociais com posts que exibiam uma foto emocionante de Maya bebê nos braços do avô que, aqui, compus com um retrato recente da nova ministra.

Veterinária e bióloga, Maya se dedica à carreira política desde 2014. É deputada e presidiu a Câmara dos Deputados de 2018 a 2019, onde também foi presidente da Comissão de Defesa.

Fotos: Divulgação e reprodução do Facebook

Mineração, meio ambiente, saúde e cultura entre as pastas ‘femininas’

No Ministério do Interior e da Segurança Pública, a médica e cirurgiã Izkia Siches, de 35 anos, também foi muito celebrada. Ela presidiu o Colégio Médico do Chile durante o enfrentamento da pandemia da covid-19, sendo uma das vozes mais ativas no tema. Também comandou a campanha de Boric à presidência. Em 2017, tornou-se a primeira mulher a presidir a Associação Médica no país. Agora, é a primeira mulher a ocupar essa pasta.

Na Secretaria Geral de Governo, Camila Vallejo Dowling, deputada do Partido Comunista desde 2014, que participou das manifestações estudantis de 2006 e ganhou reconhecimento da Anistia Internacional por seu trabalho em defesa dos direitos humanos. Giorgio Jackson, membro do partido Revolución Democrática (RD), gestado durante as manifestações estudantis de 2012, assume a Secretaria-Geral da Presidência.

A seguir, as pastas do ministério de Boric comandadas por mulheres:
Mineração: Marcela Hernando;
Desenvolvimento Social e Família: Jeanette Vega, médica sanitarista, foi subsecretária de Saúde Pública, diretora do Fundo Nacional de Saúde e do Instituto Nacional de Saúde Pública;
Culturas: Julieta Brodsky, antropóloga formada pela Universidade de Granada;
Saúde: María Begoña Yarza, médica-cirurgiã;
Mulher e Equidade de Gênero: Antonia Orellana, jornalista e membro do partido de Boric;
Esportes: Alexandra Benado, ex-jogadora de futebol, professora de educação física, ativista; sua mãe foi assassinada durante a ditadura de Pinochet;
Meio Ambiente: Marisa Rojas;
Ministério de Bens Nacionais: Javiera Toro, advogada da Universidade do Chile;
Trabalho e Previdência Social: Jeanette Jara, advogada, foi subsecretária da Previdência no segundo governo da ex-presidente Michelle Bachelet e, por fim,
Ministério da Justiça: Marcela Ríos, socióloga, construiu parte de sua carreira no PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Crescimento e redistribuição de riqueza

Entre os homens escolhidos para compor o governo, está o atual chefe do Banco Central do Chile, Mario Marcel, ligado ao partido socialista, que assumirá o Ministério da Fazenda. Sua missão inclui a reforma tributária prometida por Boric (elevando o PIB até 8% o PIB em seis a oito anos), o aumento do salário-mínimo para 500 mil pesos chilenos (o equivalente a 3.403,85 reais) e a recuperação de pequenas e médias empresas.

“Assumimos, com enorme carinho e energia, o desafio de consolidar a recuperação da nossa economia sem reproduzir suas desigualdades estruturais”, destacou o jovem presidente. “Estamos falando de um crescimento sustentável acompanhado de uma justa redistribuição de riqueza“. Um grande desafio.

A seguir, os demais ministérios:
Economia: Nicolás Grau engenheiro de comércio e economista da Universidade do Chile;
Educação: Marco Antonio Ávila, que foi coordenador nacional de ensino médio nesse ministério no segundo governo de Michele Bachellet;
Obras Públicas: Juan Carlos García, arquiteto;
Habitação: Carlos Montes, presidente do Senado em 2018;
Agricultura: Esteban Valenzuela;
Transportes e Telecomunicações: Juan Carlos Muñoz;
Energia: Claudio Huepe e
Ciência e Tecnologia: Flavio Salazar.

Na cerimônia em que anunciou seu ministério, o ex-líder estudantil de esquerda, Gabriel Boric – eleito em 19 de dezembro de 2021 – declarou:

“Hoje começa um novo capítulo em nossa história democrática. Não estamos começando do zero, sabemos que existe uma história que nos eleva e nos inspira”.

Bons ventos

Este é certamente um dos gabinetes de governo mais diversos e femininos (58%) do mundo. Muito auspicioso.

A julgar pela trajetória de Gabriel Boric e a escolha de seus secretários gerais e ministros, parece que o mais jovem presidente da história do Chile dará início a novos e aguardados tempos, nos quais prevaleçam a democracia e a justiça social.

Desejo que ventos tão prósperos soprem no Chile e se espalhem pela América Latina, especialmente no Brasil.

Fontes: TVN Chile, G1, Congresso em Foco

Foto (destaque): Reprodução Facebook Gabriel Boric

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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