Movimento ‘Black Lives Matter’ é indicado ao prêmio Nobel da Paz

O movimento Black Lives Matter (BLM)Vidas Negras Importam – surgiu em 2013, logo após a absolvição do segurança George Zimmerman que matou Trayvon Martin, de 17 anos, nos EUA. Nas redes sociais, a escritora, professora e ativista Alicia Garza (ao centro, na foto acima) escreveu “Pessoas negras. Eu amo vocês. Eu nos amo. Nossas vidas importam. Vidas negras importam” (no centro da foto acima).

A artista e ativista Patrisse Khan-Cullors (à esquerda, na foto) viu o post de Garza e o compartilhou, indicando a hashtag #BlackLivesMatter, que tocou a escritora Opal Tometi.

As três se uniram e deram início ao movimento, que foi impulsionado em 2014 com as mortes de Michael Brown e Eric Garner. E, no ano passado, ganhou ainda mais força após a morte de George Floyd por um policial branco que o asfixiou, em maio, em Minneapolis, resultando em uma série de protestos globais.

Para Petter Eide, 61 anos, parlamentar norueguês que fez a indicação, a ação popular foi um forte apelo por uma mudança no sistema, que se espalhou rapidamente pelo mundo e inspirou pessoas de outros países a lutarem contra o racismo em suas sociedades.

“Acho que um dos principais desafios que vimos na América, mas também na Europa e na Ásia, é o tipo de conflito crescente baseado na desigualdade. E o Black Lives Matter se tornou um movimento mundial muito importante para combater a injustiça racial“, destacou Eide à reportagem do The Guardian. Ele representa o partido de esquerda socialista no parlamento desde 2017.

E disse mais: “Eles têm mobilizado pessoas de todos os grupos da sociedade, não apenas afroamericanos, não apenas os oprimidos, tem sido um movimento amplo, de uma forma diferente de seus antecessores”. Como se uma onda de conscientização sobre a injustiça social tivesse se espalhado por várias partes do mundo.

Eide já indicou para o Nobel ativistas de direitos humanos da Rússia e da China e fez questão de salientar que não quer que sua indicação seja vista como uma crítica à política interna dos Estados Unidos. E ainda rebateu vozes da direita que criticaram o movimento alegando que ele foi o responsável por muita violência nas cidades americanas.

“Estudos mostram que a maioria das manifestações organizadas pelo Black Lives Matter foram pacíficas”, destacou Eide, sem negar incidentes. “A maioria deles foi causada ​​pela polícia ou por contra-manifestantes”.

Os estudos aos quais Eide se refere foram realizados pelo projeto Armed Conflict Location and Event Data (Conflito Armado Local e Dados do Evento, em tradução livre), em setembro do ano passado, e apontam que “93% das manifestações Black Lives Matter não envolveram danos graves a pessoas ou propriedades“.

Na documentação apresentada para a indicação do BLM, o político citou que o comitê do Prêmio Nobel reconhece a batalha contra o racismo. “Existe uma tradição para fazer isso. É uma forte ligação entre movimentos anti-racismo e paz, e um reconhecimento de que sem este tipo de justiça, não haverá paz e estabilidade na sociedade“, explicou.

Nos anos de 1960 e 1963, Albert Luthuli e Nelson Mandela receberam o prêmio respectivamente. O motivo? Lutar contra a discriminação racial na África do Sul. No ano seguinte, Martin Luther King foi agraciado com o prêmio por promover a resistência não violenta contra o racismo nos EUA.

Vale lembrar que, na ocasião, Mandela compartilhou seu prêmio com FW de Klerk, o homem que ordenou sua libertação. \

Em sua indicação por escrito, Eide conclui: “Conceder o prêmio da paz a Black Lives Matter, como a mais forte força global contra a injustiça racial, enviará uma mensagem poderosa de que a paz é fundada na igualdade, solidariedade e direitos humanos, e que todos os países devem respeitar esses princípios básicos”.

Julian Assange, do Wikileaks, entre os indicados

As indicações para o Prêmio Nobel da Paz podem ser feitas por parlamentares e ministros de todos os países, ex-laureados e professores universitários e são mantidas em sigilo, a menos que seus promotores decidam divulgá-las.

O prazo para as inscrições deste ano termina hoje, 1º de fevereiro. No final de março, o comitê elaborará uma lista restrita e secreta e o vencedor só será conhecido em outubro.

A cerimônia de premiação está marcada para 10 de dezembro. Devido à pandemia ainda não se sabe se será presencial ou virtual.

Até agora, sabe-se que foram indicados Julian Assange, fundador do Wikileaks, três ativistas bielorrussos liderados por Svetlana Tikhanovskaïa, além das organizações Cepi e Gavi (que atuam em prol vacinação), da RSF e CPJ (que lutam pela liberdade de imprensa) e da IFCN, rede internacional de verificadores de fatos.

Pra quem não tem acompanhado, vale ressaltar que Assange está preso desde abril de 2019 em Londres, depois de ter sido tirado à força da embaixada do Equador pela polícia, certamente por vingança do presidente Lenin Moreno, denunciado por esquema de corrupção por Assange. Desde 2012, o ativista vivia refugiado nessa embaixada sob proteção do ex-presidente Rafael Correa. Aguarda julgamento.

E pasme! O ex-presidente dos EUA, Donald Trump também foi indicado, por um parlamentar norueguês da extrema-direita, Christian Tybring-Gjedde. Ele justificou sua escolha citando o papel de Trump na “normalização das relações entre Israel e os Emirados Árabes Unidos sob os Acordos de Abraham”.

Mas Eide contou ao The Guardian que Tybring-Gjedde teve “um pouco de dificuldade em defender essa nomeação” depois do motim incitado por Trump, em 6 de janeiro, que levou uma multidão a invadir o Capitólio, com um saldo de cinco mortos (todos pró-Trump).

Pandemia foi decisiva em 2020

No ano passado, foram feitas mais de 300 indicações ao prêmio. O Cacique Raoni, do povo Kayapó, e a ativista climática, Greta Thunberg, estavam entre os indicados. Ambos disputaram o Nobel em 2019 também.

O vencedor foi o Programa Mundial de Alimentos, da ONU, como contamos aqui, no site. Segundo o próprio comitê, a intenção foi “voltar os olhos do mundo para os milhões de pessoas que sofrem ou enfrentam a ameaça da fome”.

Hoje, 690 milhões de pessoas passam fome no mundo. A pandemia tornou a comida menos acessível e os pobres ainda mais vulneráveis, por isso influenciou a escolha do comitê. “A premiação é um apelo à comunidade internacional para que o programa não fique sem fundos”.

Agora, assista ao vídeo sobre o movimento Black Lives Matter que apresenta sua dimensão global

Fonte: The Guardian, Black Lives Matter, US Today

Fotos: Reproduções do vídeo acima

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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