Morre Thomas Lovejoy, um dos maiores estudiosos da Amazônia e criador do conceito de ‘diversidade biológica’

Morreu, neste Natal, o biólogo americano Thomas Lovejoy, 80 anos, um dos mais importantes estudiosos da Amazônia, que também teve papel decisivo para a criação de políticas de proteção da floresta.

Nascido em Nova York, Lovejoy chegou à Amazônia em 1965, para fazer seu doutorado sobre aves na Universidade Yale. Em 1970, ano seguinte ao seu retorno aos EUA, o governo brasileiro anunciou a abertura da rodovia Transamazônica, e Lovejoy escreveu um artigo pioneiro alertando para os impactos da estrada na extinção de espécies da floresta.

Em 1979, de volta à Amazônia, iniciou o Projeto de Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, numa reserva de mata próxima a Manaus. O programa, que buscava entender o impacto da fragmentação sobre a viabilidade da floresta, é o projeto científico contínuo mais antigo em curso na Amazônia.

Em 1980, trabalhando no WWF, Lovejoy, juntamente com os biólogos Edward Osborne Wilson e Eliott Norse, cunhou o termo “diversidade biológica”, que usou pela primeira vez no prefácio de um livro naquele ano.

No começo dos anos 1980, a comunidade científica e os ambientalistas passaram a usar o conceito em campanhas de conservação. Mais tarde, Wilson popularizou o termo, contraindo-o para biodiversidade em seu livro Diversidade da Vida, de 1988.

Nessa época, Lovejoy assumia uma outra faceta igualmente importante em sua carreira: a incidência política em defesa das florestas tropicais. Ele lançou uma proposta chamada debit-for-nature swaps, segundo a qual países endividados do mundo tropical poderiam abater parte de suas dívidas externas em troca da conservação das florestas.

A ideia foi mal recebida pelo governo brasileiro (o presidente era José Sarney) na época, mas com os anos se tornaria um instrumento relevante para levantar recursos para a conservação no mundo todo.

Lovejoy também organizou, no começo de 1989, uma visita pioneira de senadores americanos ao Brasil – entre eles Al Gore, em sua primeira visita ao país –, na qual se discutiram possibilidades de cooperação para manter a floresta em pé.

A conversa evoluiria após a Rio-92 para o PPG7, o Programa-Piloto de Proteção às Florestas Tropicais do Brasil. O pesquisador nunca deixou de trabalhar junto ao Congresso americano.

No ano passado, ajudou a articular uma carta de notáveis a Joe Biden pedindo ação em relação ao desmatamento, que explodiu sob o governo Bolsonaro.

Lovejoy tampouco largou a pesquisa. Nos últimos anos, juntamente com o climatologista brasileiro Carlos Nobre, ele vinha estudando as formas como a mudança climática e o desmatamento se combinam para levar a Amazônia para um ponto de virada, a partir do qual a floresta entra num colapso sustentado e não é mais capaz de se recuperar.

A dupla publicou um artigo sobre o tema em 2018 no periódico Science Advances e vinha, desde então, refinando dados sobre sua teoria.

Vitimado por um câncer no pâncreas, Tom Lovejoy deixa três filhas: Elizabeth, Katherine (ambas nascidas no Rio de Janeiro) e Anne, e seis netos.

* Este texto foi publicado originalmente no site Observatório do Clima em 26/12/2021, e reproduzido aqui, no Conexão Planeta, por Mônica Nunes

Foto: Alexis Glenn/ George Mason University

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Observatório do Clima

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