Morre o pesquisador Eneas Salati, um dos pioneiros nos estudos sobre a ligação entre a Amazônia e o clima e o papel dos rios voadores

Morre o pesquisador Eneas Salati, um dos pioneiros nos estudos sobre a ligação entre a Amazônia e o clima e o papel dos rios voadores

O Brasil perdeu no último sábado, 05/02, um dos pesquisadores mais brilhantes e importantes que teve na área ambiental. Eneas Salati morreu aos 88 anos, em Piracicaba (SP). Formado em 1955, em Engenharia Agronômica, pela Universidade de São Paulo, ao longo de sua longa carreira, ocupou importantes cargos em renomadas instituições brasileiras. Foi diretor do Instituto de Física e Química da Universidade de São Carlos no final da década de 70 e por duas vezes diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Coordenou ainda projetos de zoneamento ecológico-econômico para a Amazônia, foi assessor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington D.C., consultor do Banco Mundial e da International Financial Corporation (IFC) e membro do Fórum de Mudanças Climáticas.

Autor de quase 150 publicações científicas, foi um dos pioneiros nos estudos que associam o papel da Amazônia sobre o clima de outras regiões do Brasil. É considerado o “pai” do conceito dos “rios voadores”. O termo, hoje largamente utilizado nas pesquisas ambientais, descreve o fenômeno formado por imensos volumes de vapor de água, produzidos pelas árvores da floresta, e levados pelos ventos, muitas vezes, acompanhados por nuvens. Apesar de não os enxergarmos, esses rios têm cerca de três quilômetros de altura e milhares de quilômetros de extensão, e são responsáveis por levar chuva para outras áreas do país .

Nas redes sociais, várias amigos e colegas lamentaram a partida de Salati. Um deles foi o pesquisador Antonio Nobre. “Professor Eneas Salati partiu ontem, após uma vida preenchida de grandes realizações. Professor inspirador na ESALQ USP, diretor por duas vezes do INPA, diretor do CENA e líder de estudo seminal que puxou o longo e bem sucedido trem da pesquisa que liga floresta e clima na Amazônia. Foi ele o primeiro proponente da exportação de umidade da Amazônia para o resto da América do Sul. Foi o primeiro a colher água de chuva no RJ, e medir composição isotópica, indicando que a água vinha da Amazônia. Ele é o verdadeiro pai dos Rios Voadores”.

O ambientalista Fabio Feldmann também prestou sua homenagem. “Mais um gigante que se vai: Eneas Salati! Uma referência em nossos temas: foi um dos primeiros pesquisadores a estudar o papel da floresta amazônica no clima em função da evapotranspiração. Atuante e com inteligência especial vai fazer falta!”.

A ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, escreveu em seu perfil no Facebook: “Perdemos ontem o professor Eneas Salati, uma das mais brilhantes mentes científicas brasileiras. Em suas pesquisas descobriu a ligação entre as florestas e o clima, com foco na Amazônia. Seus colegas consideram que ele é o autor das primeiras formulações da teoria dos rios voadores que esclarece o papel da Amazônia nas chuvas para as demais regiões brasileiras e até o Norte da Argentina. Que Deus console sua família e seu amigos. A nós cabe honrar seu trabalho e cuidar do meio ambiente de nosso país sustentados em seu importante trabalho científico e legado”.

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Foto: reprodução redes socias

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.