Moradores protegeram vilarejo em Portugal de incêndios e também salvaram uma aranha da extinção

Moradores protegeram vilarejo em Portugal de incêndios e também salvaram uma aranha da extinção

Assim como outros países do mundo, Portugal tem enfrentado devastadores incêndios florestais nos meses de verão. Foi assim há alguns anos, quando os moradores dos vilarejos de Fagilde e Vila Garcia, no Vale do Rio Dão, a cerca de 300 km ao norte de Lisboa, se viram de frente às labaredas que avançavam sobre as florestas próximas e colocava em risco suas casas e propriedades.

Ao lado de equipes de bombeiros, os cidadãos das duas pequenas cidades ajudaram no combate às chamas e conseguiram extinguir os focos de fogo.

Agora, tempos depois, esses mesmos portugueses acabam de descobrir que não apenas eles salvaram suas residências, mas uma espécie de aranha considerada praticamente extinta, pois já não era avistada há 92 anos. Observada pela última vez em 1931, a Nemesia berlandi é uma aranha-de-alçapão, chamadas desta forma porque constroem longas galerias embaixo da terra, cuja abertura tapam com folhas e fios de seda, que atuam como “sensores” para alertar sobre a invasão de inimigos.

Chamada popularmente de buraqueira-de-fagilde, justamente por ter sido encontrada no vilarejo que lhe dá nome, a aranha estava entre os animais da lista “Search for Lost Species – “Em busca de Espécies Perdidas ou Desaparecidas” – elaborada pela organização internacional Re:wild.

O responsável pela redescoberta da Nemesia berlandi é um pesquisador português, que liderou uma expedição à região.

“A buraqueira-de-fagilde é a única espécie endêmica de Portugal continental que não era avistada e documentada há quase um século ou mais”, diz Sérgio Henriques, coordenador de conservação de invertebrados do Centro Global para a Sobrevivência de Espécies do Zoológico de Indianápolis. “Esta é uma espécie notável. Ela é tão portuguesa como o fado e é nosso dever garantir que continue a fazer parte do nosso patrimônio natural. A sua existência continuada é uma prova de que Fagilde e o povo da Vila Garcia protegeram as suas florestas”.

Foi através das tocas que Henriques e seus colegas conseguiram achar a tão procurada aranha. Esses túneis têm 10 centímetros de comprimento e possuem “portas” circulares com no máximo 2,5 centímetros de diâmetro. Esses aracnídeos podem não sair dali por anos, exceto para encontrar comida ou parceiros.

O local onde a espécie foi redescoberta é o mesmo onde ela foi vista pela primeira vez, no século passado, e depois descrita por uma das mais famosas cientistas de Portugal, Amélia Bacelar, uma pioneira nessa área, e seu marido Fernando Frade.

Através de exames de DNA ficou confirmada que o espécime coletado recentemente era mesmo a Nemesia berlandi. Além disso, suas tocas são construídas horizontalmente, o que a diferencia das demais aranhas do gênero, que as cavam no sentido vertical.

Moradores protegeram vilarejo em Portugal de incêndios e também salvaram uma aranha da extinção

A buraqueira-de-fagilde tem poucos centímetros e passa a maior parte da vida dentro de sua toca
(Foto: Sérgio Henriques)

O objetivo da iniciativa “Search for Lost Species”, criada em 2017, é estimular pesquisadores e financiar seus projetos para que espécies não observadas há muitas décadas ou até séculos sejam redescobertas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o azevinho pernambucano, desaparecido por quase dois séculos, a toupeira cega, com superaudição e pelo iridescente, da África do Sul, e o equidna-de-bico-longo-de-attenborough, na Indonésia (leia mais aqui).

“Esta é a primeira redescoberta do Search for Lost Species na Europa e é um bom lembrete de quão incríveis e únicos são os invertebrados – que constituem 97% das espécies animais do planeta”, ressalta Christina Biggs, da Re:wild. “Tudo nesta espécie desafia o que normalmente esperamos das aranhas de alçapão e isso nos deixa esperançosos em relação a outras espécies negligenciadas”.

A Re:wild foi fundada pelo ator e ativista ambiental Leonardo DiCaprio.

*Com informações e entrevistas contidas no site da Re:wild

Foto de abertura: Sérgio Henriques

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Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.