Monitoramento na Mata Atlântica ajudará pesquisa e preservação de espécies em risco de extinção

Monitoramento inédito de mais de 900 mil hectares de Mata Atlântica ajudará na pesquisa e preservação de espécies em risco de extinção

A Mata Atlântica é considerada um hotspot mundial da biodiversidade: uma das áreas mais ricas em diversidade biológica – são mais de 15 mil espécies de plantas e mais de 2 mil de animais vertebrados, sem contar insetos e outros invertebrados.

Originalmente o bioma abrangia 1.315.460 km2. Mas de acordo com o Atlas da Mata Atlântica, restam apenas 16,2 milhões de hectares de florestas nativas preservadas acima de 3 hectares, o equivalente a 12,4% do território que os portugueses encontraram quando chegaram ao Brasil.

Por esta razão, é tão importante o investimento em projetos de preservação nesse bioma. Como o poder público possui outras prioridades e poucos recursos para financiar iniciativas desse tipo, muitas organizações do setor privado têm contribuído e assumido esse papel.

É o caso do Monitoramento de Biodiversidade BAMGES, que vem sendo realizado desde o ano passado, pela Veracel e Suzano, empresas do setor de celulose e papel.

Desde 2008, as companhias já monitoravam a biodiversidade dos mesmos grupos de fauna (mamíferos e aves) e flora, mas de forma isolada e por meio de metodologias que não permitiam estudos integrados. 

“O BAMGES é o aperfeiçoamento desse projeto, porque melhoramos a qualidade das informações e comparamos cada ambiente com as suas particularidades. Com esse conhecimento acumulado, teremos uma avaliação sistêmica e geração de ações concretas para a conservação da biodiversidade, um importante legado para o setor florestal da região”, afirma Virginia Londe de Camargos, coordenadora de Estratégia Ambiental e Gestão Integrada da Veracel.

Espécies endêmicas e em risco de extinção

O BAMGES, nome que junta as siglas dos estados da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, abrange o chamado Corredor Central da Mata Atlântica. O projeto conjunto cobrirá mais de 900 mil hectares de áreas do bioma nesses locais.

Para realizar o trabalho, foi reunida uma equipe de mais de 20 profissionais da consultoria Casa da Floresta, especialistas em mamíferos, aves e vegetação. Durante os próximos dois anos, durante a estação da seca e das chuvas, eles farão a observação dessas espécies usando uma série de tecnologias diferentes – armadilhas fotográficas, observação com binóculo e também, softwares digitais.

“Os monitoramentos visam os grupos de mamíferos de médio e grande porte, aves e vegetação arbustiva e arbórea. Temos registros de várias espécies e esperamos reforçar a ocorrências delas na região e também identificar novas”, revela Virginia.

Segundo ela, já foram observadas onças-pardas, onças-pintadas, antas, cotias, saguis-da-cara-branca, macacos-prego, preguiças, gambás-de-orelha-preta e aves como o crejoá, araçari-de-bico-branco, cabeça-encarnada (na imagem que abre este post), beija-flor-balança-rabo-canela, beija-flor-bandeirinha e árvores como parajú, pequi-preto, massaranduba, gindiba, pau-brasil, jequitibá e jacarandá-da-bahia.

Monitoramento inédito na Mata Atlântica ajudará na pesquisa e preservação de espécies em risco de extinção

O gamba-de-orelha-preta é um excelente dispersor de sementes na floresta

A coordenadora explica ainda que o bioma é caracterizado por um grande número de espécies endêmicas, ou seja, que só existem ali e em nenhum outro lugar do planeta. É o caso da piaçava, a tiriba-grande e a anta.

O projeto é essencial também para animais e plantas ameaçados de extinção, dentre eles, a onça-pintada, o pássaro crejoá e a árvore parajú.

“A expectativa é de que os dados obtidos com o monitoramento possam potencializar ainda mais a criação de políticas públicas, manejo das propriedades rurais e pesquisas acadêmicas em prol da preservação e da conservação da biodiversidade da nossa Mata Atlântica”, destaca Virginia.

Um detalhe importante: o banco de dados obtido com o BAMGES será público, disponível para ajudar a embasar novas pesquisas públicas e particulares.

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Fotos: Fernando Igor de Godoi

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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