Mônica Pilz Borba: em defesa da educação vivencial e integrada à natureza

Antes de ser ativista, a pedagoga paulistana Mônica Pilz Borba é uma apaixonada pela natureza e suas interações, e sempre reparte seus conhecimentos de educação ambiental e agricultura sustentável com quem estiver disposto a aprender.

Muito jovem, em 1993, foi uma das fundadoras do Instituto 5 Elementos – Educação para a Sustentabilidade, do qual é diretora executiva. Em 28 anos de atuação, até agora desenvolveu projetos, cursos, palestras e publicações sobre temas como água, consumo, resíduos, agricultura, que ajudaram a levar conceitos de sustentabilidade a diferentes públicos, principalmente educadores.

Também lutou por políticas públicas, tanto como vice-presidente, por quase dez anos, do Subcomitê de Bacia do Pinheiros-Pirapora, quanto militando pelas políticas nacional e estadual (em São Paulo) de educação ambiental.

Mônica ainda dirigiu a Umapaz – Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz, da Coordenação de Educação Ambiental e Cultura de Paz da Secretaria do Verde do Município de São Paulo.

Defensora de uma educação integrada, onde os elementos da natureza estejam presentes, a ambientalista revelou, nesta entrevista ao blog Mulheres Ativistas, do Conexão Planeta, que gostaria que “aprendêssemos tudo de forma vivencial, significativa e transformadora, considerando o aluno como sujeito do processo”.

Exemplo disso é seu mais recente desafio: o lançamento, em 10 de novembro, do livro Mulheres e as Ervas da Amazônia e de uma série de dez vídeos educativos com as receitas dessas mulheres. Elas participaram de um curso promovido por Mônica para ajudá-las a desenvolver produtos a partir de seus conhecimentos tradicionais e acabaram se tornando protagonistas de um projeto realizado para que ensinassem umas às outras o que já sabiam.

O que te move a buscar um mundo mais sustentável?

Desce criança me incomodava a falta de integração na escola, ter 11 matérias legais, mas desconectadas entre si era desanimador. Hoje, a internet conectou tudo, mas a escola continua separando o conhecimento por meio de matérias. Meu lado ativista tem a ver com o inconformismo de não aprendermos como o mundo funciona de verdade. Criamos um mundo artificial que nos afasta do que deveríamos fazer. Acreditamos em Disneylândia, em jardins fakes e estáticos, quase sem vida.

Gostaria que aprendêssemos tudo de forma vivencial, significativa e transformadora, considerando o aluno como sujeito de seu aprendizado. Por exemplo, demorei muito para conseguir aprender equação de segundo grau, mas quando fui fazer um curso sobre mapa astral, descobri que era calculado a partir dela. Virei especialista em equação de segundo grau. Se ensinassem assim na escola, teria aprendido logo.

Além disso, as formações em permacultura e agricultura biodinâmica, que fiz entre 2004 e 2012, abriram para mim portais de conhecimento integrado, que têm como base a antroposofia. Foi um divisor de águas na minha vida, tudo começou a fazer sentido.

O que são permacultura e agricultura biodinâmica?

A permacultura é um sistema de planejamento de ambientes humanos sustentáveis, a partir de práticas agrícolas e sociais centradas em simular ou utilizar diretamente as características observadas em ecossistemas naturais. Ou seja, é uma cultura da permanência que utiliza a força da natureza e do bom senso para moldar ambientes produtivos e regeneradores.

A agricultura biodinâmica é uma forma de produção de alimentos que considera as energias sutis para melhorar a fertilidade do solo, o crescimento das plantas e a produtividade dos animais, respeitando seus ciclos e potenciais.

Mas o Instituto 5 Elementos já existia quando você fez essas formações?

Sim, minha ligação com a natureza vem de bem antes disso. Fui uma criança criada livre e solta, que frequentava o sítio do meu avô, onde havia fogão a lenha que ele construiu para mim quanto eu tinha seis anos. Também fui do Movimento Bandeirante, dos 14 aos 21 anos, com o qual viajei bastante e vivi num ambiente de mulheres, de cantar na floresta, fazer fogueira, trabalhar em equipe. Para mim, isso é educação.

Quando entrei na pedagogia na PUC, me identifiquei mais com o pessoal de ciências sociais, onde havia uma efervescência que não tinha na pedagogia. Trabalhava na Escola Vera Cruz, onde lidava com arte e desenvolvia uma horta com os alunos. Na faculdade, também comecei a frequentar a ONG Pró-Jureia e criamos um grupo de educação ambiental.

No grupo, visávamos à formação de professores para ampliar a consciência ambiental nas escolas. Com a grande conquista que foi a criação da Estação Ecológica da Jureia, o movimento se diluiu e criamos, em 1993, o Instituto 5 Elementos, uma ONG fundada e liderada por mulheres, das quais ainda permanecemos eu e a Patrícia Otero.

Em 1995, saí do Vera Cruz e passei a me dedicar exclusivamente ao 5 Elementos e aos meus dois filhos. Sempre ponho mãe no meu currículo, o que para mim é fundamental, embora entenda que é uma decisão do universo particular de cada mulher.

Como foi sua participação, como representante da sociedade civil, em políticas públicas?

Entre 1993 a 2012, o instituto planejou e ministrou cursos de formação em educação para a sustentabilidade, além de elaborar inúmeras publicações na área de educação ambiental.

Um desses projetos foi o Manual do Rio Tietê, para o Núcleo Pró-Tietê, da SOS Mata Atlântica. A partir dele, me elegi para o Subcomitê de Bacia Hidrográfica Pinheiros-Pirapora, como representante da sociedade civil, e fui vice-presidente por quase dez anos, até meados da década de 2000. É uma parte da bacia do rio Tietê onde todo o cocô da cidade de São Paulo sai em direção ao interior. É uma cloaca grossa que dá para andar em cima na época de seca, no mês de julho.

No período, fizemos site, encontros, a publicação Águas no Oeste do Alto Tietê sobre a realidade da região para os municípios, mas há uma dificuldade grande em trabalhar com o estado, que cria os comitês para existirem, não para resolver o problema. Mesmo assim, conseguimos recursos e desenvolvemos vários projetos para fortalecer o subcomitê, mas os municípios não apostaram e, depois de anos, cansamos. Essas instâncias são um processo educacional de emancipação, mas com pouco resultado.

No 5 Elementos, também batalhamos muito, sem recursos, pelas políticas nacional e estadual de Educação Ambiental e organizamos, para a Rede Paulista de Educação Ambiental, o segundo Encontro Estadual de Educação Ambiental.

Entre 2003 a 2005, produzimos 5 mil livros gratuitos sobre Orientação para EA nas Bacias Hidrográficas do Alto Tietê. Lutamos muito pela causa, mas os municípios precisam fazem sua parte para que os resultados perdurem como política pública, o que é muito difícil de acontecer. Por isso, me desloquei das questões macro e passei a atuar em um universo mais pequeninho, onde o resultado é mais fácil de ver.

Que tipo de universo é esse?

Passamos a conduzir projetos educativos que conectem pessoas à natureza, com espaços educadores em parques, áreas verdes e escolas. Um deles foi o Dedo Verde na Escola, com o objetivo de apoiar a escola a se tornar sustentável, implantando esse tema no currículo, conteúdos e práticas dos professores, alunos e comunidade escolar.

Esse projeto começou em 2009 em duas escolas municipais de educação infantil da cidade de São Paulo: Dona Leopoldina e Ricardo Gonçalves. Quando terminou, em 2012, resolvi escrever um livro sobre a experiência, que publiquei em 2018.

Paralelamente, a partir da experiência com permacultura e agricultura biodinâmica, passamos a trabalhar com a população da região de mananciais de São Paulo, nas áreas de proteção ambiental de Bororé-Colônia e Capivavi-Monos, para o desenvolvimento de hortas e agricultura orgânica, o que foi uma experiência ótima, por ver a transformação mais próxima e não diluída.

Deu mais concretude à minha atuação profissional e publicamos Educação Ambiental para Agricultura Orgânica.

Também trabalhamos muito com cursos e palestras sobre resíduos, como a coleta seletiva e a redução de consumo. Um dos principais resultados desse trabalho é a Coleção Consumo Sustentável e Ação, voltado para professores. Nesse material, falamos sobre a política de resíduos e indicamos atividades para se fazer com os jovens. Há livrinhos sobre cada tipo de resíduo, dizendo de onde vêm e para onde vão.

Você também atuou em outras organizações?

Entre 2014 e 2016, me afastei do 5 Elementos. Primeiro, tirei um tempo sabático e viajei durante seis meses para lugares como Nova Zelândia, Bali e Istambul.

Quando voltei, fui convidada para ser diretora da Umapaz, o departamento de educação ambiental do Município de São Paulo. Reabri os dois planetários da cidade, organizei a gestão e fiz um plano de comunicação para essa área. Os cursos começaram a bombar. Fiquei um ano e meio, durante a gestão de Fernando Haddad, e saí.

Fui, então, convidada pelo Instituto Alana para coordenar o projeto EcoAtivos, ao qual me dediquei dois anos e desenvolvemos uma plataforma, com cursos on-line voltados para professores nas cinco regiões de São Paulo.

Foi um dos projetos mais difíceis da minha vida, pois educação não é levada a sério no estado e nem nos municípios, muito menos a educação ambiental. Os secretários mudam a toda hora e, a cada vez, toda a política e equipe mudam, não mantendo projetos e a descontinuidade é permanente. Mesmo com tantas dificuldades, os resultados da formação junto aos professores que participaram foram muito bons. Quando terminou esse projeto, voltei para o 5 Elementos.

Qual o foco do instituto no momento?

Hoje, não existem mais recursos para organizações independentes, como os fundos públicos, por exemplo. Continuamos atuando, mas basicamente com trabalho voluntário. Também desenvolvi uma plataforma de cursos sobre Educação para Sustentabilidade.

Em 2018, fui convidada para fazer uma parceria com a ONG Casa do Rio, que trabalha com comunidades na Região Metropolitana de Manaus. Fui para lá para ajudar a criar a Escola Itinerante de Agroecologia. Achei a atuação deles muito bacana e propus fazermos mais coisas juntos.

Concorremos a um edital do Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2020 da União Europeia, para qualificar o trabalho das mulheres, transformar o saber delas em produtos que possam ser comercializados. Como os recursos eram insuficientes, consegui o restante com a Associação Bem-Te-Vi Diversidade, com a qual tinha desenvolvido o Cineclube Socioambiental, na sala Crisantempo, em São Paulo, entre 2008 e 2018.

Começamos o projeto com um encontro em março. Convidei a Marta Magalhães, fitoterapeuta especialista em ervas medicinais para dar oficinas e eu fiquei com a parte sobre direitos das mulheres, plantio das ervas, economia solidaria e gestão geral do projeto. Participaram 29 mulheres, todas muito envolvidas.

Um dos depoimentos que mais me marcaram foi o de uma mulher que disse que tinha ido até lá pra aprender a fazer sabonete, mas saiu muito melhor, pois aprendeu sobre seus direitos. Aquelas mulheres não sabem o quão forte são!

Voltamos de Manaus em 18 de março, quando se instalou a pandemia e não pudemos mais voltar ao projeto. Com isso, resolvemos aproveitar o que tínhamos vivenciado e contar a experiência delas.

Qual foi o resultado?

Produzimos o livro Mulheres e as Ervas da Amazônia, que será lançado em 10 de novembro, com uma live, às 17h30, no Youtube e Facebook do Instituto 5 Elementos.

Consegui, ainda, um pouco mais de recursos financeiros e estamos produzindo dez vídeos educativos com as receitas de mães, agricultoras, artesãs, cozinheiras e curandeiras da Amazônia sobre o uso das ervas medicinais, suas práticas de manuseio para a criação de produtos para a saúde, bem-estar e beleza.

Tanto o livro quanto os vídeos procuram não apenas resgatar usos e costumes de ervas da floresta mas, principalmente, valorizar esses saberes como uma riqueza das comunidades e fortalecer a bioeconomia que preserva a floresta e estimula seu uso sustentável. Tanto o livro quanto os vídeos estarão disponíveis gratuitamente na internet. Também imprimimos 500 exemplares para as mulheres da comunidade de Careiro Castanho, município a 127 km de Manaus, onde fica a Casa do Rio, e parceiros.

Você também é uma das idealizadoras de uma ecovila. Como tem sido essa experiência?

A ideia da Ecovila Águas Contentes surgiu em 2012 entre um grupo de amigos. Compramos a terra em Conceição do Rio Verde, em Minas Gerais. A primeira coisa que fizemos foi construir um centro comunitário com cozinha e um lugar para armazenamento, fazer mudas para trabalharmos juntos e receber pessoas interessadas em viver de forma mais simples e comunitariamente. Hoje, já construíram algumas casas.

Fazemos tudo em mutirão, como horta e pomar. Por enquanto, tudo o que produzimos é para alimentar os caseiros e para nós, associados. Estamos exercitando a possibilidade de produzir e usar os alimentos ao longo do ano. Todos que participam estão convencidos que, com as mudanças climáticas, teremos problemas de alimentação, por isso nos dedicamos, ensinamos os caseiros, fazemos educação ambiental permanente.

O maior aprendizado é a convivência. Uma coisa é ser amigo, outra é fazer junto. Nem todos são ambientalistas, por isso um precisa ensinar o outro. É difícil, mas temos amadurecido muito.

O que me alimenta é fazer algo para o outro. Se for bom para as pessoas, para o catador, para o professor, para os alunos, será o dobro para mim.

Edição: Mônica Nunes

Foto: arquivo pessoal

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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