“Minha vacina não chegou”, desabafa meu pai de 90 anos

"Minha vacina não chegou"

*Atualizado em 12/02/21

Meu pai tem 90 anos. Logo, logo, em março, completa 91. Tem consciência que já viveu uma longa vida. Minha mãe partiu há três anos e o que traz um pouco mais de conforto a ele nesse final de existência solitária, sem a presença da companheira, são os passeios com minha irmã, as visitas aos filhos, que moram em cidades distantes da dele, e o estar com os netos.

Assim como o resto da humanidade, e sobretudo, para aqueles que já atingiram uma certa idade, meu pai viu seu mundo se limitar à sua casa desde o início da pandemia. Ele é um privilegiado, não tem do que reclamar. Não possui nenhum problema de saúde mais sério e tem uma ótima condição de vida para se manter.

Mas desde que foi obrigado a se isolar desde o ano passado, penso nele como um passarinho preso dentro da gaiola. Meu pai adora sair de casa, bater perna pela rua. Conversa com todo mundo. Bate papo com o feirante, com a vendedora da loja. Não foi apenas uma, nem duas, mas diversas vezes que cheguei a um lugar e me disseram “Ah, você é a filha do Seu Camargo. Ele me contou sobre você… É a jornalista, né?”.

Nos últimos meses, quando falamos ao telefone, as conversas têm sido mais curtas. Ele não sai de casa e a nossa família aqui também tem evitado ao máximo se expor, por isso, não há muito assunto. Tento falar sobre o clima, as plantas do quintal, o que meus filhos andam fazendo… Mas bastam alguns minutinhos de conversa e a palavra mágica é mencionada por ele “a tão esperada vacina“.

É só nisso que ele pensa. Levanta, come e dorme pensando nela.

Quando finalmente soubemos no último final de semana sobre a aprovação do uso emergencial das vacinas no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), eu falei pra ele: “Pai, agora falta pouco!”. Eu não tinha dúvida que, com 90 anos, ele estaria entre os primeiros a serem vacinados.

Hoje liguei pra ele e lá veio ela, logo de cara: a vacina. Mas não da maneira que eu, ou ele, esperávamos.

“Minha vacina não chegou”, desabafou, com a voz mostrando toda sua frustração, desapontamento e tristeza.

Sem planejamento, Brasil sofre com falta de vacinas

Como já estava sendo noticiado nos últimos dias, as 6 milhões de doses da CoronaVac distribuídas pelo governo federal aos estados não serão suficientes para vacinar o grupo prioritário: profissionais de saúde, indígenas e quilombolas, e… idosos.

Assim como meu pai, outros tantos milhões de pessoas mais vulneráveis à infecção da COVID-19, não poderão ser vacinadas neste primeiro momento. E por que? Porque desde o início, a pandemia e o coronavírus nunca foram levados a sério por Bolsonaro. A tal da “gripezinha” não estava entre as “prioridades” da agenda dele.

O presidente do Brasil menosprezou o vírus, a ciência e o uso da máscara. Por diversas vezes, afirmou que a mídia fazia alarde demais. O coronavíus não era tudo isso. O importante era reabrir a economia. Com isso, o governo brasileiro não se planejou com antecedência para vacinar a população, assim como fizeram outros países.

Bolsonaro debochou da CoronaVac, a “vacina chinesa”. Colocou todas suas fichas na vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, junto com a farmacêutica AstraZeneca, que conta, no Brasil, com a parceria da Fundação Oswaldo Cruz. E decidiu que isso seria suficiente. Falou recentemente, inclusive, que “são os laboratórios que deveriam ter interesse em vender vacina para o Brasil”.

Com mais de 2 milhões de mortos no mundo inteiro e chegando a quase 100 milhões de pessoas infectadas, a disputa mundial pelos estoques de vacinas é acirrada. Por que exatamente Bolsonaro se sente numa posição especial perante outras nações?

Não bastasse a falta de planejamento, o governo agora se encontra diante da boa vontade diplomática de China e Índia para poder obter mais doses de vacinas. Do primeiro – o mesmo país sobre o qual os filhos de Bolsonaro usaram as redes sociais para falar mal, assim como outros membros do governo -, o Brasil depende do tal do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) para que o Instituto Butantan possa fabricar a CoronaVac.

Já a Índia* iria mandar 2 milhões de doses da vacina produzida pela AstraZeneca para serem usadas no Brasil, mas o envio está suspenso. Os indianos deram preferência à exportação das vacinas para Butão, Maldivas, Bangladesh, Nepal, Mianmar e Seychelles. Suspeita-se que a Índia tenha ficado “ressentida” depois que o Brasil não apoiou uma proposta sua apresentada no ano passado à Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a quebra de patente temporária de produtos relacionados ao combate da pandemia.

Pra tentar contornar o caos diplomático, à frente do ministério das Relações Exteriores está Ernesto Araújo, o mesmo que disse no ano passado que “Não há um termostato que meça a temperatura global” e antes disso, que as mudanças climáticas são uma “conspiração marxista”.

Em dezembro, em entrevista ao Conexão Planeta, a médica infectologista e epidemiologista Cristiana Toscano, a única brasileira a fazer parte do Grupo de Trabalho de Vacinas para COVID-19 do Grupo Estratégico Internacional de Experts em Vacina e Vacinação (Sage) da Organização Mundial da Saúde (OMS) ressaltou a necessidade de se vacinar o maior número possível de pessoas.

“A circulação do vírus só consegue ser impactada pela vacina uma vez que uma proporção significativa da população esteja imune a ele. Estimativas apontam que a chamada “imunização de rebanho” represente que 60 a 70% da população tenha sido vacinada ou já tenha tido a doença”, disse. “É somente através da vacinação que de fato conseguiremos sair dessa pandemia. É um vírus que se transmite muito facilmente, ele sofre mutações, com capacidade de provocar síndromes clínicas muito variadas e com transmissão de pessoas para pessoas mesmo entre indivíduos assintomáticos. Enfim, é uma infecção muito difícil de controlar com medidas convencionais”.

Para poder sair novamente na rua e passear com os netos, como nessa foto de 2014, que escolhi para ilustrar este texto, meu pai e outros milhões de vovôs e vovós brasileiros precisarão aguardar mais algum tempo. Quanto? Não sabemos. Mas infelizmente, tempo é uma das coisas mais preciosas para todos eles nessa fase da vida.

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*Na quinta-feira, o governo da Índia anunciou que irá enviar as 2 milhões doses da vacina Oxford/AstraZeneca para o Brasil. Elas devem chegar ao país na sexta-feira (22/01).

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*No dia 12 de fevereiro, meu pai finalmente recebeu a primeira dose da vacina, como você pode ver na foto abaixo. Se tudo der certo, antes do aniversário dele de 91 anos, receberá a segunda dose!

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Foto: arquivo pessoal

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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