Micaela Valentim: “Onde estiver, vou lutar pela Amazônia e pela região Norte”

Ainda na faculdade, a oceanógrafa Micaela Valentim criou, junto com algumas colegas de universidade, o coletivo Ame o Tucunduba para chamar a atenção para a importância dos rios urbanos de Belém, no Pará. Em quatro anos de atividades, já desenvolveram vários projetos de formação e mobilização com a comunidade periférica ao longo da bacia do rio Tucunduba e expandiram a atuação para a área de políticas públicas relacionadas à água na capital paraense. 

Aos 24 anos, Micaela também atua no Observatório do Marajó, uma iniciativa da ONG Lute Sem Fronteiras dedicada ao fortalecimento de lideranças e ao desenvolvimento de indicadores de políticas públicas para as populações ribeirinhas da Ilha do Marajó, uma das regiões mais pobres do país. Durante a pandemia, tem focado em ações emergenciais para essa população.

Na conversa com o blog Mulheres Ativistas do Conexão Planeta, esta jovem ativista conta que espera colaborar em várias frentes e garante que, onde estiver, vai representar a Amazônia e o Norte do Brasil. “Quero que meu trabalho traga retorno para o lugar de onde vim”, diz.

O que é ‘Ame o Tucunduba’?

É um coletivo que fundei, em 2016, junto com um grupo de mulheres, todas nós ainda na faculdade. Nosso objetivo inicial era garantir acesso democrático demonstrativo a informações sobre águas urbanas.

Queríamos aliar nossa profissão a um impacto na comunidade e provocar conscientização nas pessoas que motivasse mudanças socioambientais na bacia do Tucunduba, em Belém.

Por que escolheram essa bacia?

É a bacia que corta o bairro Terra Firme, na periferia de Belém – onde nasci e me criei, na casa dos meus avós -, e que também corta a Universidade Federal do Pará (UFPA), na qual cursava oceanografia. Venho de uma família grande. Na minha casa, chegaram a morar 12 pessoas, nunca tive um lugar meu, dormia onde sobrava lugar. Mesmo assim, tive alguns privilégios: minha casa nunca inundou nem faltou água, porque meu avô fez um poço.

Mas, como a maior parte da população mais jovem, não enxergava o Tucunduba como um rio, percepção que mudou após o surgimento do Ame o Tucunduba. Nos dois primeiros anos, participei do Centro Acadêmico, da empresa júnior, mas era tudo muito distante do que faço hoje. Passei boa parte da vida, mesmo estudando esquemas fluviais na universidade, sem ver que aquele esgoto pelo qual passava para ir à faculdade era um rio. E que funciona como um rio, mesmo no espaço urbano. 

Dois momentos foram marcantes para despertar meu entendimento e direcionar minhas escolhas profissionais, a disciplina de educação ambiental e o surgimento da Ame, um ano antes de me formar. Até então, pensava em seguir carreiras clássicas da oceanografia.

O que levou à criação do coletivo?

Participei do evento Favela Resiliente, promovido pela ONG FA.VELA, de Belo Horizonte, no bairro Terra Firme, junto com minha colega de faculdade Camila, e lá conheci a Juliana, que também faziam oceanografia, e a Amanda, que estudava arquitetura. Uma das propostas do evento era incentivar o desenvolvimento de um projeto.

Começamos a nos reunir na casa da minha avó para pensar no que poderíamos fazer. Nossa primeira ação como coletivo foi durante as ocupações das escolas. Os estudantes da escola do bairro queriam fazer eventos e propusemos um sobre o rio Tucunduba. Nos juntamos e, com a premiação que recebemos no evento, de R$ 1.180, compramos materiais, criamos uma página no Facebook, no Instagram e um e-mail. Foi tudo muito intuitivo, com teoria e prática, com voluntários da oceanografia.

Achamos um lugar de descarte de lixo nas margens e encerramos a atividade com um mutirão para limpar o espaço. Começamos a limpar e pedimos para o dono da última casa fazer um grafite. Pouco tempo depois, fizeram uma reportagem e esse espaço acabou se tornando uma grande vitrine para o projeto. Com isso, pensamos: ‘agora que inventamos isso, temos que continuar a fazer ações na margem do rio’. 

Nosso sonho era criar um espaço para que as pessoas usassem a margem de maneira ativa independentemente da nossa presença lá. Infelizmente, na época, nossas estratégias de mobilização não surtiram o efeito desejado com os moradores. A maioria contribuía pontualmente somente quando estávamos realizando ações. Só limpavam quando estávamos junto e, muitas vezes, os participantes eram pessoas de fora do bairro. Tentamos implementar uma horta comunitária, mas não teve efeito em longo prazo. Encerramos esse projeto em 2018, pois o retorno não era o que queríamos e também prevendo o impacto da obra de macrodrenagem no local.

Que tipo de projeto deu mais resultado?

Ainda em 2017, fizemos a Expedição Tucunduba para provocar um novo olhar para os rios urbanos. Começamos a levar os alunos das escolas públicas da bacia para conhecer o rio da nascente, que é dentro da cidade, até a foz, onde desagua no rio Guamá.

Primeiro, realizamos uma dinâmica onde mostrávamos, em sala de aula, o que são rios urbanos e aplicamos uma ferramenta de cartografia social pedindo que os alunos desenhassem o rio. Alguns desenhavam somente a ponte, não tinham noção do todo, além de retratarem a violência e aspectos de marginalização como drogas, prostituição, que é a forma como alguns interpretavam o uso das margens do rio.

Após esse momento, utilizamos uma ferramenta criada por nós, com a qual os alunos tinham que acertar onde ficava a nascente, a foz, os bairros e algumas ruas da bacia. Com isso, fazíamos um jogo para produzir um mapa com o rio e o nome das ruas do bairro. Em geral, tinham dificuldade de se localizar pelo mapa. Depois, fazíamos a expedição de ônibus.

Descobrimos que uma das nascentes do Tucunduba fica em um lago dentro de uma propriedade no Bairro do Marco, que pertence ao senhor Paraguassu Elleres, um cartógrafo e advogado que comprou o local para proteger. Ele permite que levemos os estudantes para conhecer a nascente e conta histórias sobre o local, onde há tartarugas e peixes. Depois, o rio é canalizado e só tem asfalto.

Paramos em cinco pontos durante o trajeto, um deles em uma rua que vive alagada por conta da impermeabilização intensa do solo e descarte de lixo. Passamos também pelo local em que iniciamos as ações, onde o rio está descoberto e sobre a ponte que conecta os bairros Terra Firme e Guamá. Encerramos o trajeto na universidade, na foz no rio Guamá, que também é urbanizado.

Belém tem 14 bacias hidrográficas urbanas e a do Tucunduba é a segunda maior, passa por cinco bairros periféricos e corta a UFPA ao meio. Dentro da universidade, as margens foram arborizadas, mas fora é outra estética. É um rio de mais de 4 mil metros de extensão, com uma bacia de mais de 10 km2 e uma população de 250 mil pessoas ao redor.

Menos de 3% do esgoto de Belém é tratado e vai tudo para os rios. As pessoas moram em palafitas que somente agora começaram a ser realocadas. Ao fazer o percurso da expedição, é possível ver o lixo navegando pelo rio.

As expedições trouxeram o resultado que imaginaram?

Conseguimos manter o projeto por três anos, até 2019. Foram 13 expedições, com 25 a 30 pessoas cada. Fizemos também em parceria  com o Museu Paraense Emílio Goeldi e com estudantes de oceanografia.

As primeiras expedições ocorreram em parceria com a UFPA e depois continuamos de forma independente através de recursos captados com uma campanha de financiamento coletivo e depois de editais, onde foi possível garantir a remuneração das manas do coletivo. Como resultado desse trabalho, também participamos da gravação de um documentário sobre o coletivo para o Canal Futura e percebemos que podíamos fazer mais.

E o que vocês fizeram?

Começamos a participar de processos de mobilização e de incidência política referente à obra de macrodrenagem do Tucunduba, uma luta de 20 anos dos moradores dos bairros da bacia. Não era nossa intenção inicial, mas não tínhamos como não contribuir. Participamos de audiências públicas e reuniões com o Ministério Público. Viramos referência para falar de rios urbanos, mas não conseguíamos estar em todos os lugares.

Pensamos, então, em formar mais jovens para puxar a pauta em seus espaços e, assim, surgiu o projeto Fala Tucunduba, um curso de participação social. Tivemos mais de 150 inscritos de toda a região metropolitana de Belém, para as 20 vagas gratuitas que oferecemos para jovens de periferia.

Foram três meses de curso aos sábados, no qual repassamos o que sabíamos sobre os rios urbanos e contamos com participação voluntária de professores universitários e outros atores sociais, já que o financiamento era pequeno. O curso foi no segundo semestre de 2018 e resultou em várias ações, como revitalização e plantios em praças, além de atividades artísticas. 

Não conseguimos financiamento para novas edições do projeto, que foi mais caro do que imaginávamos, mas continuo acompanhando os Guardiões do Tucunduba (nome dado aos que concluíram o curso) e seus projetos, e vislumbramos resultados em longo prazo.

No final de 2019, decidimos formalizar o Ame o Tucunduba, para podermos concorrer a editais e viabilizar mais projetos. A pandemia nos pegou logo após as férias, ainda às voltas com a documentação.

Mas sua atuação não se restringe ao ‘Ame o Tucunduba’?

A criação do coletivo foi um momento de virada de chave pessoal, no qual passei a entender o que queria fazer, e me abriu muitas portas. Comecei a me ver como ser político na minha cidade. Me entendi como mulher, jovem periférica e não branca e aprendi a sempre falar e ser ouvida. Participei de vários eventos nacionais relacionados à água representando os jovens, como o 8º Fórum Mundial da Água, em 2018, em Brasília. 

Com isso, também percebi o quão diferente é ser da região Norte e que se faz no sul do país não funciona aqui, por conta das características sociais e ambientais diferentes. As pessoas não fazem ideia do que é a Amazônia, têm uma visão romantizada. Antes, me sentia excluída, mas descobri que, mesmo muito jovem, poderia contribuir com meu conhecimento empírico.

Hoje, tenho outras perspectivas sobre a Amazônia, com sua diversidade de territórios e cidades. O Estado do Pará, por exemplo, é gigantesco, com cidades e populações diferentes. As políticas públicas não podem ser universais por aqui. O que funciona em Belém, não funciona em Marajó ou Santarém. 

Em 2019, participei de uma formação do Banana-Terra, programam evento da Anistia Internacional e do Greenpeace para formação de projetos mobilizadores e foi aí que passei a me ver como ativista, o que foi importante, pois no Brasil isso pode ser um problema. Meu perfil é organizar ações em prol de algo, atuar mais em backstage, permitindo que as pessoas sejam ouvidas.

A partir desse posicionamento, como direcionou sua carreira profissional?

Em 2019, trabalhei na Primavera X, uma ONG que realiza uma gincana nacional com jovens sobre o tema da água, no qual fiquei por cinco meses e era a única da equipe da região Norte. O projeto tem a lógica de envolver jovens de todo o Brasil. Nesse período, fui umas três vezes para São Paulo e também para o interior do Pará. 

Agora, em 2020, fui contratada para o Observatório do Marajó, da ONG Lute Sem Fronteiras, para expandir as ações para os 16 municípios da Ilha de Marajó, onde estão os piores IDH do Brasil. O objetivo é a formação de lideranças e o mapeamento de indicadores de políticas públicas. Com a pandemia, porém, estamos concentrados em ações emergenciais.

Sou gestora de projetos, entre eles o que apoia a Rede de Mulheres Marajoaras em Movimento. Com financiamento coletivo, conseguimos garantir auxílio emergencial de R$ 400 para cada uma por dois meses e, agora,, por mais três meses de R$ 250 em cartão alimentação.

Funcionamos como um grupo de apoio para essas mulheres, com suporte emocional e produção de materiais sobre violência doméstica, cuidado com as crianças e hortas urbanas. Muitas migraram do Marajó por violência doméstica ou exploração sexual infantil e têm trabalhos precários em Belém. Com a pandemia, ficaram sem emprego e não conseguiram voltar para a ilha.

Também coordeno a campanha de comunicação ribeirinha Égua do Corona, voltada para os territórios ribeirinhos e quilombolas da Ilha do Marajó. Conseguimos uma bolsa de R$ 350 por dois meses para 32 colaboradores locais dos 16 municípios da Ilha, que são os responsáveis por garantir que o compartilhamento do mural informativo nos municípios.

Nós produzimos conteúdo semanal e já impactamos mais de 10 mil pessoas em três semanas, além da divulgação nas rádios locais que possuem mais de 50 mil ouvintes. Trazemos principalmente recomendações sobre a Covid-19 e o impacto da pandemia adequadas à realidade ribeirinha.

O que espera do futuro?

A pandemia escancarou os processos de desigualdade no país. Com isso, espero que o Ame do Tucunduba possa atuar, nos próximos anos, com saneamento básico e mudanças climáticas dentro do contexto amazônico. Tenho a contribuir com isso e quero que os projetos da Ame sejam efetivos.

Ao mesmo tempo, minha formação de oceanógrafa me dá um olhar holístico e consigo trabalhar com tantas coisas, que não quero me colocar em uma só caixa. Sempre vou estar em mais de um espaço e garanto que, se estiver lá, levo a questão amazônica.

Hoje, tenho uma rede na qual consigo abrir portas para outras pessoas. Quero que meu trabalho traga retorno para o lugar de onde vim: a região Norte e a Amazônia.

Edição: Mônica Nunes

Foto: arquivo pessoal

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

Um comentário em “Micaela Valentim: “Onde estiver, vou lutar pela Amazônia e pela região Norte”

  • 25 de agosto de 2020 em 1:10 PM
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    Que orgulho ver o sucesso promissor de uma moradora do bairro ♥

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