Meninos do mato

meninos-do-mato-javiermartínez-creativecommons-flickr
No segundo capítulo do seu marcante livro Kith, que procura responder porquê negamos às nossas crianças liberdade de tempo, espaço e natureza, Jay Griffiths descreve como uma infância rural, permeada pelos ciclos da agricultura e suas festas tradicionais, influenciou o trabalho do poeta inglês John Clare. E como a perda do domínio comum da terra, causada pela Lei dos Cercamentos de Terras, causou sofrimento e tristeza a esse menino crescido que teve na liberdade de vagar e devanear em meio à natureza, sua principal referência na vida. Para Griffiths, o trabalho de John Clare tem importância única: mostrar ao mundo como era a infância na Inglaterra antes que a Lei dos Cercamentos pusesse uma placa com os dizeres “Propriedade privada: não entre” no acesso de cada gleba de terra particular.

A passagem do capítulo que compara essa placa com os mesmos dizeres escritos com grafia infantil na porta do quarto de quase toda criança é reveladora. Para a autora, a partir do momento em que as crianças perderam seu ninho na terra, nas vastas paisagens naturais antes de uso comum e acessíveis à exploração e ao maravilhamento, tiveram que se refugiar no que lhes foi dado em troca – quartos apertados e construídos por adultos – para encontrar a privacidade tão necessária ao processo de “fazer eu”. Ao longo dos anos, enquanto o quase infinito mundo ao ar livre encolhia, o espaço interno ganhou importância.

john-clare-

manoel-de-barros-divulgacao-John Clare foi um menino do mato, título de um dos últimos livros de Manoel de Barros . Também nós brasileiros tivemos a sorte de ter um menino que soube como poucos usar sua genialidade para registrar em palavras a comunhão com a natureza experimentada por todas as crianças, se lhes é dada a oportunidade. Ambos escreveram “usando palavras de ave”, como Manoel de Barros abre sua obra, e viveram em “lugares imensamente”. É possível imaginar que eram lugares, tanto o interior rural da Inglaterra quanto o pantanal do Mato Grosso, onde as coisas eram deixadas como estavam. Não havia restrições, riqueza ou relógios. A natureza não estava sob controle. Não havia pátios pavimentados, cercados e vigiados. Somente o mato, o espaço e a liberdade.

A solidão, tão irmã da natureza, foi outra constante da obra e da vida de Manoel de Barros e de John Clare. Na fazenda da infância de Barros não havia vizinhos, e o menino do mato brincava sozinho em meio às coisas “desimportantes” que marcariam sua obra para sempre. “Ali, o que eu tinha era ver os movimentos, a atrapalhação das formigas, caramujos, lagartixas. Era o apogeu do chão e do pequeno”.

Tanto Clare quanto Barros escrevem sobre a terra como se pertencessem a ela. A infância dos dois pertenceu à natureza e aos seus elementos; eles os conheciam e se sentiam reconhecidos em troca. Ambos parecem ter sido crianças “em algum lugar perdido onde havia transfusão de natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores. Esse sentimento de integração e unidade, quase uma epifania, é um traço comum na escrita dos dois poetas, e uma lembrança recorrente de muitos outros adultos também, embora poucos tenham o dom de transformá-lo em arte.

O trabalho de ambos nos presenteia com algo que vai além da beleza lírica de suas palavras – embora poucas vezes tenhamos visto encontro tão perfeito entre natureza e linguagem. Elas nos dão a memória, pois, por meio de sua poesia, desvendamos como era a infância rural de épocas que, na perspectiva histórica, não estão muito longe dos dias atuais e, no entanto, parecem tão distantes. As palavras de pássaros, rios, lama e árvores dos meninos do mato nos ajudam a “perceber o que a infância dos nossos dias está perdendo e a enormidade dessa perda”, como definiu Jay Griffiths.

Sabemos que a modernidade não irá retroceder e cabe a nós procurar alternativas que combinem as características dos novos tempos com o resgate dos valores fundamentais da infância, honrando-os como tal. É esse o caminho escolhido pelo Instituo Alana, especialmente por meio de seu novo projeto, Criança e Natureza. Nós sonhamos e trabalhamos para que as crianças tenham menos pressa, mais tempo livre e mais brincadeiras na natureza, ou seja, para que tenhamos mais meninos do mato!

Imagens: foto de Javier Martinez/Creative Commons/Flickr; ilustração da Wikipedia/Creative Commons e foto de divulgação 

Maria Isabel Amando de Barros

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

Deixe uma resposta