Menino indiano retrata rotina exaustiva da mãe e de mulheres de seu bairro e dá visibilidade à desigualdade

A pintura destacada na imagem acima chama a atenção por seu colorido alegre e o movimento das figuras. Ela foi feita em 2016, por um garoto de dez anos em homenagem à sua mãe e às mulheres do bairro onde morava, na cidade de Kunduvara, no estado de Kerala, na Índia.

Para ser exata, ele retratou 19 mulheres diferentes, com seus rostos, afazeres e trajes peculiares, que podem representar mães de qualquer lugar do mundo, que trabalham incansáveis desde o raiar do dia até tarde da noite. 

Todos os dias Anujath Sindhu Vinaylal observava o trabalho incessante e exaustivo realizado por essas mulheres sem nenhum reconhecimento. Então, a obra à qual ele deu o nome de “Minha mãe e as mães do meu bairro” seria também uma espécie de protesto.

“Tenho visto essa injustiça todos os dias desde minha infância. Então, achei que seria interessante criar uma pintura a partir disso”, declarou ao site Edex Live.

Ao conhecer sua história, rapidamente lembrei do relatório da Oxfam, lançado em janeiro deste ano – Tempo de Cuidar, sobre o qual escrevi, aqui -, que revela que, no mundo todo, as mulheres trabalham 12,5 bilhões de horas diárias sem remuneração, o que representa US$ 10,8 trilhões em um ano. E que os 22 homens mais ricos do mundo têm riqueza superior a de todas as mulheres da África. 

Também veio à minha mente uma frase da escritora Silvia Federici – “O que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago” ao falar sobre a “desvalorização das tarefas domésticas, que permite o controle das mulheres”.

Ao observar o mundo ao seu redor, em 2016, Anujath captou essa realidade e a traduziu de um jeito muito poético, com seu talento, homenageando muitas mulheres do mundo. Talvez por isso sua obra tenha se tornado tão popular.

A história viralizou recentemente nas redes sociais porque o Departamento de Finanças do estado de Kerala, escolheu cinco artistas locais para ilustrar seus relatórios orçamentários de 2020 e 2021.

Entre eles, está Anujath, hoje, com 14 anos. E o documento para o qual sua obra foi escolhida é o Orçamento de Gênero (Kerala ‘Gender Budget’), que será responsável pela implementação de políticas públicas para o empoderamento das mulheres.

Talento precoce

Esta não foi a primeira vez que Anujath foi reconhecido por seu talento. Ele começou a pintar quando tinha apenas quatro anos e nunca aprimorou sua técnica em cursos. 

É um autodidata! E tornou-se rotina em sua vida participar de concursos e ganhar prêmios, sempre bastante incentivado pela mãe. Aos nove anos, o garoto recebeu uma homenagem do ex-presidente da Índia, Pranab Mukherjee. 

“Minha mãe amou a tela quando eu a desenhei para homenageá-la”, lembra ele. Mas, infelizmente Sindhu não pode celebrar o reconhecimento de Anujath, estampado no documento do governo. Em novembro do ano passado, ela sofreu uma parada cardíaca e faleceu.

Uma das notícias que li nas redes sociais dizia que, na infância, o garoto ouvia seu pai dizer que a mãe ficava em casa e não trabalhava, o que também o teria impulsionado a pintar a tela. Mas o pai desmentiu: 

“Costumávamos contar a ele sobre os esforços de sua mãe e de todas as mães ao seu redor para criar seus filhos”, declarou ao jornal New Indian Express. O que mais me orgulha é o tema da obra. Anujath desenhou aquela pintura quando tinha apenas dez anos e transmitiu uma grande mensagem”.

E o filho também refutou a notícia em entrevista ao jornal The Better India: “Minha mãe me encorajou a pintar sempre melhor. Com a fé dela e o apoio do meu pai, espero poder seguir essa carreira profissionalmente, quando terminar os estudos”. 

Foto: Montagem com reproduções do Facebook

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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