Médica cirurgiã de 88 anos, infectada pelo coronavírus, passa 50 dias na UTI, se recupera e volta ao trabalho

Angelita Gama não trabalha na linha de frente do combate à COVID-19, mas é médica cirurgiã, especialista em gastroenterologista – uma das mais renomadas do país – no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Portanto, está todos os dias nesse ambiente, considerado um dos mais perigosos para contrair a doença. Mas essa não foi a causa de sua contaminação.

Em fevereiro, viajou com o marido, que também é médico, para a Europa, de férias. Antes de voltar ao Brasil passaram por Jerusalém, onde ela participou de um congresso. Retornaram no final do mês e, em 8 de março, a médica lançou sua biografia, com direito a festa e muitos convidados.

Três dias depois, a Organização Mundial de Saúde declarou que vivíamos uma pandemia do novo coronavírus.

De médica ativa a paciente em estado grave

Angelita não sofre de nenhum problema grave de saúde que poderia inclui-la no grupo de risco, mas sua idade a classifica assim. No início, ela teve tosse, um pouco de febre e perdeu o paladar. Procurou atendimento médico, mas sem acreditar que pudesse ser um caso de COVID-19. No entanto, a tomografia acusou que seus pulmões estavam agressivamente comprometidos e ela foi internada no Oswald Cruz.

De uma hora pra outra, de médica ativa tornou-se paciente em estado grave, foi entubada e sedada na UTI, onde ficou por 50 dias.

Recebeu alta em 10 de maio e, nos dias que passou em casa, se recuperou da perda de peso e da fraqueza muscular. Voltou ao trabalho, apenas no consultório, em 1o. de junho. Três dias depois de iniciar os atendimentos, começou a operar. “Apenas casos mais importantes, como um tumor que não pode esperar muito tempo, uma infecção abdominal ou uma hemorroida que está causando muita dor. Estamos focando nos casos mais graves”, garantiu. 

Nos últimos 20 dias, realizou dez intervenções, que duraram entre uma e quatro horas. Nas entrevistas que concedeu, desde que recebeu alta do hospital, garantiu que seu desempenho não se alterou: é o mesmo que tinha antes da doença.

Viagem, beijos e abraços

Angelita define a doença provocada pelo novo coronavírus como aguda e que não esperava o diagnóstico, “pois naquele momento não se falava de muitos casos no Brasil”. Mas com a piora, durante a internação, confessa que chegou a duvidar que resistiria porque seu quadro era muito grave.

“O coronavírus se propaga com muita facilidade e como ainda não se sabe muito sobre suas características, é mais difícil tratar. Mas é preciso ser otimista. É grave, mas nem sempre é letal”. E acrescentou: “Você perde a consciência do mundo”.

Disse isso ciente de que teve tratamento especial no hospital e pode contar com uma equipe multidisciplinar de médicos, o que a grande maioria dos brasileiros não tem: há diversos relatos de pacientes infectados que morrem à espera de leitos de UTI. “Dar uma boa assistência ao paciente é fundamental para ajudá-lo a ter uma boa recuperação”, declarou. 

Como foi infectada? A médica acredita que possa ter contraído o vírus durante a viagem à Europa, mas não descarta o lançamento do livro, em que distribuiu beijos e abraços entre os variados convidados.

A luta deve ser para salvar vidas

Quando Angelita foi internada, o Ministério da Saúde – sob os auspícios de Henrique Mandetta – apontava 428 casos confirmados e 4 mortes. Quando ela teve alta do hospital, o Brasil tinha mais de 161,6 mil casos e 11 mil mortes pelo vírus. Ela foi poupada de acompanhar o crescimento exponencial do contágio que, hoje, 26/9 – de acordo com dados do Consorcio de Veículos de Imprensa, criado quando o governo se recusou a divulgar dados -, tem quase 1,3 milhão de casos e mais de 56 mil mortes. Em 24 horas, morreram 1.055 pessoas.

Assim que recobrou a consciência, tomou conhecimento de alguns dados da pandemia. “Sei que a imprensa tem tido um papel extremamente colaborativo e que em lugares, como a Alemanha, onde as informações foram divulgadas e as orientações acatadas, houve o achatamento da curva”.

E acrescentou: “A única maneira de se proteger é com isolamento, higienização e informação. As pessoas devem ser orientadas e se adaptar às mudanças até que se descubra a vacina, pois deve demorar ainda. Há impactos políticos, econômicos e sociais, mas, no momento atual, a luta deve ser para salvar vidas. É o que mais importa”.

Risco para todos

Com base em tudo que tem sido divulgado sobre a doença, é certo que não existe fórmula para sobreviver ao coronavírus. Ter boa saúde, imunidade alta, atendimento rápido e de qualidade, condições para uma boa recuperação… tudo isso pode garantir a sobrevivência. E, também, um grau de sofrimento menor. Como Angelita contou, ter boa saúde e um dos melhores atendimentos médicos existentes no país não lhe deu certeza de que sobreviveria. Ela duvidou disso.

Conheço pessoas que convivem com ambientes classificados como de alto risco, que pegaram a doença e se trataram em casa. Tiveram tosse, um pouco de febre, fadiga e perderam o paladar – como Angelita – e o olfato. Mas, em 15 dias, apenas tomando as medicações indicadas e mantendo-se em repouso absoluto, se recuperaram e passam bem.

Vamos todos pegar esse vírus? É bem possível. Enquanto não houver vacina, todos corremos risco. E, ao que parece, de pegar de novo inclusive, mesmo que quem pegou tenha sido diagnosticado pelo médico como imune. Principalmente porque a imunidade nunca é de 100%.

Sabemos muito pouco sobre a COVID-19 e o novo coronavírus e ainda vamos descobrir muito, por muito tempo.

Por isso, o melhor a fazer seguir os protocolos. Se alimentar bem, tomar muita água, evitar se expor, usar máscara de proteção (para proteger o outro; e, se o outro usa, proteger você) e troca-la de duas em duas horas, lavar as mãos sempre que possível e necessário, manter a casa arejada. Evitar passar as mãos e os dedos no rosto e em suas cavidades. Evitar aglomerações, ir e ficar em lugares cheios de gente (como shoppings, por exemplo), respeitar o distanciamento e o isolamento.

E, sempre que puder, ajude quem precisa. Fiquei de olho em seus familiares. Procure saber notícias de seus vizinhos. Muita gente não tem condições de seguir nenhuma das orientações ou protocolos listados acima por mim. Muita gente precisa de ajuda e de apoio de todo tipo. Procure por essas pessoas, pelas organizações que, por meio de seus voluntários incansáveis, estão garantindo, pelo menos, o mínimo nesta pandemia. Isso também ajuda a aumentar a imunidade.

Fontes: G1, BBC Brasil, Estadão, Folha de SP

Fotos: arquivo pessoal de Angelita Gama

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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