Maurício e o barco do saber

Todo raiar de dia a estrada que se abre aos olhos de Maurício é o rio. E a cada dia o rio Negro é diferente. 

Mudam as cores, muda o movimento, muda o correr da vida à sua volta. Às suas margens cresceu Maurício Antônio Pascoal dos Santos, e também seus pais, depois que os avós, soldados da borracha, chegaram do nordeste à Amazônia com sonhos de ter comida na mesa graças ao dinheiro da extração de seringa.

Criança que nasce na beira do rio aprende logo a se guiar por  ele, até mesmo quando a escuridão da noite engole tudo. Mas Maurício sempre se destacou. 

Conhece os igarapés, igapós, cada curva, cada furo (atalhos que se formam nos tempos de cheia e que não são navegáveis quando o rio seca). Precisa saber como se orientar no caminho das águas mesmo sem luz, GPS ou mapa. 

Maurício tem um mapa dentro de si, porque no seu barco carrega uma responsabilidade muito grande: a missão de garantir acesso às letras a uma geração inteira.

Não, ele não é professor, e já não é de hoje que não se senta com lápis e caderno nas mãos. Maurício é condutor do barco escolar, que leva e traz os estudantes das comunidades mais encrustradas na floresta para as portas do conhecimento.

Cada vez que empurra a embarcação para a água, na cheia ou na seca, na chuva ou na estiagem, leva consigo a certeza de que poucos trabalhos fazem tanta diferença no mundo.

Ele mesmo dorme pouco. Acorda antes das 5 da matina para recolher os alunos e entregá-los na escola de Nova Esperança antes das 7 horas. Na hora do almoço, devolve crianças e adolescentes a suas casas. Quando o sol já vai se pondo ele sai para buscar mais alunos. 

O turno escolar da noite termina às 22 horas, e aí recomeça o dele, quando leva de volta quem acabou de receber um rio de conhecimento. Como não há rede elétrica e os geradores das comunidades já estão desligados, Maurício e seus companheiros de jornada viajam no escuro. 

Por isso é importante conhecer o rio mais do que a si mesmo. Bom é em noite de lua cheia, quando o satélite iluminado faz companhia do céu.

A caminho do próprio endereço, já passada a meia noite, o condutor viu o que quase ninguém viu: estrelas cadentes a cortar o firmamento, eclipses, o ballet exclusivo dos botos-cor-de-rosa nas águas prateadas.

Na Amazônia noturna apenas as samaúmas e Maurício contemplam o desabrochar das flores.

Nas lições dadas pela floresta ele aprendeu tudo sobre navegação, mudanças climáticas, os variados tipos de vegetação, rituais de reprodução animal.

Ensina o que muito doutor da academia não aprendeu nos livros. Sabe o tempo certo de colher o rambotã, como extrair o óleo da andiroba, quando a pupunha deve amadurecer.

O futuro de Maurício é aqui mesmo. Quem sabe casar e construir uma família como a dele, cheia de irmãos. Com certeza continuar testemunhando o crescimento das árvores, o desabrochar das flores e das mentes que têm a sorte de serem guiadas por ele.

Fotos: Adriano Gambarini

Laís Duarte (texto) e Adriano Gambarini (fotos)

Laís Duarte é jornalista especializada em meio ambiente, repórter da TV Cultura, mineira, leitora voraz, curiosa e viajante. É autora de vários livros sobre o tema, muitos deles ao lado de Adriano Gambarini, geólogo de formação, espeleólogo, fotógrafo, documentarista. Um contador de histórias por imagens, e palavras; ganhador do Prêmio Comunique-se

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