Maurice Strong e o caminho para a verdadeira sustentabilidade

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Maurice Strong morreu, aos 86 anos, na sexta, 27/11, dois dias antes da abertura oficial da conferência do clima (COP21). Empresário e ambientalista canadense, foi pioneiro, visionário e líder pelo desenvolvimento sustentável. Sem sua perspicácia e visão de futuro – além do desejo de tornar o mundo um lugar melhor para viver -, os debates sobre esse tema e da luta contra as mudanças climáticas estariam, certamente, em um estágio menos avançado. Ele sabia – e acreditava – que poderíamos ter avançado mais, mas parece que não morreu sem esperança.

Na contramão de tantas realizações louváveis, Strong começou sua carreira no setor de petróleo e gás, no Canadá, sobre a qual não vou me deter. Não porque queira esconder qualquer coisa, mas porque quero me demorar no que realmente importa: sua vocação de humanista, de coração, que, como tal, trilhou uma carreira brilhante na ONU.

Presidiu a Conferência de Estocolmo, em 1972, que foi realizada a partir do primeiro relatório sobre o “estado do planeta” que ele encomendou (1971) e reuniu artigos de mais de 150 especialistas de 58 países. Como secretário geral, em seu discurso de abertura, disse: “Há poucas chances de o homem ter sucesso em sua relação com a natureza a menos que, no caminho, ele aprenda a administrar melhor as relações entre homem e homem”. Uma curiosidade, para nós brasileiros: nessa época, ele ia à conferência de bicicleta.

Foi esse encontro que introduziu o Meio Ambiente na agenda internacional do desenvolvimento e levou à criação, em dezembro do mesmo ano, da primeira agência do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambienteele era diretor-executivo desse programa da ONU – em um país em desenvolvimento, o Quênia.

Vinte anos mais tarde, Strong presidiu a Eco92, no Rio de Janeiro, o maior encontro de chefes de estado e de governo até então, que reuniu, sob o mesmo teto, Fidel Castro e George Bush, líderes de Cuba e dos Estados Unidos, inimigos históricos. Lá, Strong já sinalizou a necessidade de se criar caminhos para uma economia verde, ou seja, uma economia que repudia os combustíveis fósseis porque é de baixo carbono, usa os recursos naturais de maneira eficiente para produzir bens duráveis e, além de tudo, é socialmente inclusiva. Na cerimônia de abertura, disse aos líderes mundiais presentes: “A responsabilidade está em suas mãos”. Foi lá que se criaram as bases institucionais para a proteção do planeta e foram esboçadas as Convenções das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (a COP do Clima) e Diversidade Biológica.

Em 1983, foi um dos membros da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, órgão independente da ONU.

Sua última passagem pelo Brasil aconteceu durante a Rio+20 – Conferência Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento Sustentável, no Rio de Janeiro, onde foi recebido com honras e participou de debates. Na época, ele era consultor do governo chinês para economia verde.

Pesquisando mais sobre Strong, encontrei – indicada em seu site – a entrevista que ele concedeu à repórter Sonia Bridi, da TV Globo. Gostei de tudo que ele disse e, por isso, quis compartilhar parte do que ouvi aqui. Escolhi o trecho em que ele fala da Rio+2o, do que esperava dela e da esperança que ainda mantinha de que a humanidade encontraria o caminho para a sustentabilidade. Ele morreu, mas suas ideias não. Afinal, foi pioneiro, líder, visionário e humanista e é de tudo isso que a gente precisa, todos os dias. Então, vamos à entrevista!

Qualquer semelhança com a atualidade, não é mera coincidência. É consequência.

“Se os governos tivessem feito tudo que concordaram em fazer, o problema estaria perto de ser solucionado. Mas não podemos abandonar a esperança. Analiticamente, estou pessimista, por causa da falta de avanços e da implementação de decisões, e as coisas estão piorando, não melhorando. Mas, operacionalmente, estou otimista porque, enquanto for possível mudar para um estilo de vida sustentável, nós devemos continuar tentando fazê-lo. Nós temos que entender que estamos falando do futuro da vida em nosso planeta. Temos que entender que, ao longo da História da Terra, o período em que foi possível abrigar a vida humana é muito curto, um espaço de tempo muito pequeno, e nós estamos provocando impacto, nós estamos mudando as condições que tornam a vida possível e colocando a vida em risco”.

“A Rio+20 precisa revitalizar a conscientização do que estamos fazendo conosco. O planeta Terra não irá acabar, mas as condições que permitem a vida na Terra estão em risco, porque a condição natural do planeta não é propícia à vida humana. Na verdade, eu acredito e espero que a Rio+20 veja o lançamento de um movimento mundial popular que pressione os políticos, que devem satisfação ao povo e que têm que fazer o que o povo quer, e não defender apenas alguns interesses específicos. A meu ver, esse movimento é a esperança”.

“A realidade é que, hoje, há menos vontade política do que em 1992, e o problema está maior, mais agudo e mais urgente do que naquela época. Então, estamos vivendo um verdadeiro dilema e a maior esperança da Rio+20 será fornecer um novo ponto de partida para um movimento mundial que nos coloque no caminho da verdadeira sustentabilidade. Do contrário, os sobreviventes na Terra não serão necessariamente humanos. Serão outras formas de vida. Os insetos serão os grandes sobreviventes, porque a Terra não irá acabar, mas as condições se vida humana, sim. O risco é esse e as pessoas precisam estar cientes dele, e os políticos devem ser responsabilizados pelo que realmente estão fazendo. A Rio+20 não pode fazer isso, mas pode traçar um novo caminho, dar um novo estímulo e lançar esse movimento. Eu acredito que devemos ver a Rio+20 apenas como duas semanas, deve ser um processo contínuo”.

Tão atual, não? Faz apenas três anos que ele disse tudo isso. Parece pouco tempo, mas não temos mais tempo para delongas. Inspirados por Strong, vamos substituir “Rio+20”, em sua fala de 2012, por “COP21” e mudar os rumos do futuro, agora? Tudo o que ele disse se aplica tão bem à tragédia ambiental no Rio Doce, à crise hídrica, ao colapso na economia, ao consumismo, ao terrorismo que deixou vítimas em Paris, no Líbano, no Quênia, ao stress nas relações humanas. Mas também às lindas ações que se espalham pelo Brasil e pelo mundo, quando ele fala de esperança. Algumas podem até ser muito pequeninas, mas igualmente importantes e nós, do Conexão Planeta, amamos disseminar.

Então, não deixemos que o pensamento de Maurice Strong morra com ele. E o somemos a tantos outros igualmente sábios, simples e verdadeiros para abastecer o mundo de energia e trilharmos o “caminho da verdadeira sustentabilidade”.

Abaixo, o vídeo da entrevista completa realizada pouco antes da Rio+20, em 2012:

Foto: Philip McMaster/Flickr

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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