Maré enrolada

maré enolada - obra da artista Karen Dolorez
Quem tem coragem de puxar o fio e desmanchar tudo? E começar de novo? E construir outra coisa? Acho que o artista, o artesão, como a paulista Karen Dolorez, que se dedica a fazer uma qualquer coisa que parta de uma correntinha, uns pontos baixos e altos trabalhados na agilidade da mão na linha e na agulha do crochê é de antemão um desapegado.

Qualquer um pode chegar, puxar o fio e em minutos transformar o que era um casaco ou um mar de lã, num amontoado enjoado, embaraçado e disforme. Aí é melhor nadar na poesia da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen.

Um último mergulho, antes de expor a alma à dura rotina, pode coincidir com aquele último ponto daquele, aparentemente, infindável trabalho. E aí vem aquele arremate seguro, bem feito… A prova de Penélopes. Mas, não.  Nada é tão definitivo. Até o que se considera invisível, pode ser encontrado por uma vista treinada. E aí, o puxão é inevitável!

Já experimentou essa sensação? Ver ponto após ponto desaparecendo rapidamente… Faz lembrar um rastilho de pólvora. Em algum lugar vai explodir. Não se sai impune. Não se é imune. Crocheteiro que desmancha o que fez, normalmente o faz porque percebe que errou. E perceber o erro é por si só algo chato e irritante. Quem sabe o desmanchar tenha o poder de ir aplacando essa raiva que nasce da insatisfação por não aceitar a infalibilidade. Mais contidos, menos contidos.  O tamanho da explosão ao chegar ao último ponto desmanchado será sempre uma surpresa.

Quanto maior o medo de mostrar-se falível, maior será a dor cravada no peito do ser preocupado em esconder-se atrás da cortina da perfeição que transforma sentimentos em couraças artificiais, padronizadas, sem jogo de cintura e pouco dadas às mudanças. A dor do saber-se, em alguma situação, ignorante, errado, bobo é proporcional ao esforço ingrato de não querer admitir.

Dor tão doída que o corpo se encarrega de encontrar substância que anestesie e faça continuar a caminhada sem nexo. Até que se esteja tão rígido e inflexível que não se possa dar mais um passo. Que seja necessária máscara de ar para buscar o oxigênio na atmosfera da cidade poluída carregada de gás carbônico, anonimato e cegueira.

Até que no mar da impessoalidade não se reconheça mais ninguém pelo olhar. Olhos vidrados… Vidas tão robóticas. Seres tão iguais. A igualdade atingida pela dor e não pelo amor de se reconhecer centelha cósmica ou gota do oceano universal.  E se fôssemos fumaça na neblina densa?

Quem dera flanássemos na densidade surreal das conclusões. Não isso não é o que pensamos. Tá bem, Magritte, isso não é um cachimbo. Não sinto o odor do fumo. Não posso pegá-lo. A imagem não é o objeto. Mas, no oceano das perdas e frustrações, deixemos as imagens se passarem pelo objeto para matar a saudade, para aplacar o aperto no coração. Não, não nos puxe esse fio. Não. Não desmanche essa imagem…

Penso em tantas reais imagens que seria melhor que se dissolvessem, mas continuam aí… Como aquelas que prejudicam povos com a construção de novas hidrelétricas ao longo do Rio Tapajós, prejudicando o meio ambiente e o povo Munduruku…

 

Fotos: divulgação site da artista

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além do Arte na Roda, mantém seus escritos poéticos, inspirados em música, no Para de gritar isso seu irresponsável. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado.

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