Mais de 60 anos após ter sido documentado pela última e única vez, por isso mesmo já considerado extinto, um exemplar de equidna foi registrado recentemente por armadilhas fotográficas instaladas por pesquisadores que faziam parte de uma expedição nas montanhas de Ciclopes, na Indonésia, uma floresta tropical situada a 2 mil metros acima do nível do mar.
Chamado de equidna-de-bico-longo-de-Attenborough (Zaglossus attenboroughi), em homenagem ao famoso naturalista e apresentador britânico David Attenborough, esse mamífero que surgiu há cerca de 200 milhões de anos, coloca ovos, assim como o ornitorrinco.
“O equidna-de-bico-longo-de-Attenborough tem espinhos de ouriço, focinho de tamanduá e pés de toupeira. Por causa de sua aparência híbrida, compartilha seu nome com uma criatura da mitologia grega que é metade humana, metade serpente. A razão pela qual parece tão diferente de outros mamíferos é porque é membro dos monotremados – um grupo de postura de ovos que se separou do resto da árvore da vida dos mamíferos há cerca de 200 milhões de anos”, explica James Kempton, pesquisador do Departamento de Biologia da Universidade de Oxford, uma entre as várias instituições que fizeram parte da expedição.
O que faz da redescoberta do equidna de Attenborough tão especial é que ele está entre os únicos cinco monotremados existentes no planeta. Além disso, esses animais são dificilmente observados, já que vivem em tocas subterrâneas e são muito ariscos.
O único lugar do mundo onde essa espécie mamífero foi avistada até hoje foi nas montanhas de Ciclopes. Ela é classificada como em ‘perigo crítico de extinção‘ pela União Internacional de Conservação para a Natureza (IUCN), ou seja, um estágio antes de desaparecer completamente.
Para conseguir encontrar esse mamífero raríssimo, os pesquisadores colocaram mais de 80 câmeras na região estudada. Durante quatro semanas, nenhum sinal do equidna. Foi apenas no último dia, com as imagens das últimas gravações, é que ele apareceu.
“Essa redescoberta é resultado de muito trabalho e mais de três anos e meio de planejamento. Uma das principais razões do nosso sucesso é porque passamos anos construindo um relacionamento com a comunidade de Yongsu Sapari, uma vila na costa norte das Montanhas Ciclopes. A confiança entre nós foi a base do nosso sucesso porque eles compartilharam conosco o conhecimento para navegar nessas montanhas traiçoeiras, e até nos permitiram pesquisar em terras que nunca antes sentiram as pegadas de pés humanos”, diz Kempton.
Ave que não era observada há 15 anos
(Foto: divulgação Oxford University)
Várias novas espécies descobertas
As montanhas de Ciclopes estão entre alguns dos lugares mais desconhecidos pela ciência. Abrigam uma rica biodiversidade e durante a expedição os pesquisadores conseguiram descobrir várias novas espécies, entre elas, um pequeno camarão que vive em árvores.
“Ficamos bastante chocados ao descobrir este camarão no coração da floresta, porque é um afastamento notável do habitat típico à beira-mar para estes animais”, diz Leonidas-Romanos Davranoglou, pesquisador líder da expedição. “Acreditamos que o alto nível de chuvas nas montanhas significa que a umidade é grande o suficiente para que essas criaturas vivam inteiramente em terra”.
O camarão arborícola encontrado nas montanhas da Indonésia
(Foto: divulgação Oxford University)
Além dele do camarão arborícola – descrito também como um novo gênero -, os cientistas se depararam com espécies inéditas de anfíbios e insetos.
E não foi apenas o equidna que foi redescoberto. Durante o trabalho de campo foi reencontrada uma ave que já não era observada desde 2008, a Ptiloprora mayri.
“Embora alguns possam descrever essas montanhas como um “Inferno Verde”, penso que a paisagem é mágica, ao mesmo tempo encantadora e perigosa, como algo saído de um livro de Tolkien”, descreve Kempton.
*Com informações e entrevistas contidas no texto divulgado no site da Oxford University News
Foto de abertura: divulgação Oxford University







