Malabarismos da segunda vez

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Fotografar paisagens naturais tem uma grande vantagem: ela não se mexe, fica lá, paradinha! Desde que você faça um bom planejamento da época do ano e da hora de chegar, há boas chances de ter um clima favorável e tempo suficiente de se preparar para registrar as melhores luzes.

Mas fotografar paisagens naturais pela segunda vez tem uma grande desvantagem: ela não se mexe, fica lá, paradinha! Se já rolou um bom trabalho na primeira vez e a intenção é fazer algo novo, quem tem que se mexer agora é o fotógrafo. E às vezes isso não é tão trivial.

Há uns anos estive pela primeira vez na Cachoeira Bicame, perto da vila da Lapinha da Serra, na região da Serra do Cipó. Como de costume, antes de desandar a disparar fotos, fiz duas coisas importantes: tomei uma duchinha revigorante embaixo da cachoeira (a trilha é longa!) e, depois, saí caminhando na busca de boas composições. Apesar de ser um local bem amplo, são poucos os lugares onde é possível, em uma imagem, “contar a história” da cachoeira do jeito que eu gosto.

Não sou muito chegado em retratar os lugares de longe. Prefiro composições com capacidade de levar o observador para dentro da paisagem. E a Bicame tem uma piscina natural grande, além de ser uma cachoeira larga, com um paredão amplo.

Achei um ponto de vista que mostrava isso tudo de forma bem satisfatória. Foi meio trabalhoso, porque precisei posicionar o tripé dentro da água e ficar por um bom tempo equilibrando em um lugar escorregadio, enquanto as butucas faziam a festa, picando minhas pernas e costas. O resultado foi a foto em preto e branco no fim desse post.

Há uns dias, voltei à Bicame e adotei o procedimento padrão: duchinha embaixo da cachoeira e, depois, procurar uma nova composição. Mas acabava sempre achando que o lugar da outra vez era o melhor de todos. E dali a foto ficaria igual!

Então, resolvi atravessar nadando a piscina natural, para ver como era do outro lado. Finalmente achei um ângulo novo que me agradou. Com um pequeno porém: aparentemente, o único caminho para chegar lá era por dentro da água.

Pois bem, armei a câmera no tripé, pendurei a bolsa com os filtros na alça e saí contornando o lago, por dentro da água. No começo, apesar de raso, o problema eram as pedras lisas. Para me equilibrar, usava o tripé como bengala. Mas, então, comecei a afundar. No momento em que atingi o auge do arrependimento (e a noção de que já era tarde demais), eu tinha a água pelo pescoço, agarrava nos galhos da margem com uma mão e segurava a câmera para cima da cabeça pelo tripé com a outra, para não molhar.

Mas consegui atravessar com a câmera intacta! E, finalmente, pude fazer a foto que ilustra esse post. Na volta, vi que havia uma trilhazinha que contornava uma parte do lago e era muito mais fácil retornar por ali. Tive só que atravessar um pedacinho de mato fechado. Parecia ser tranquilo, mas adivinhem quem estava nesse matinho? Minhas amigas butucas, que deviam estar com muita saudade, porque me picaram com muito mais vontade dessa vez.

A moral da história é que, se na primeira vez que fotografou uma paisagem tudo deu certo, se prepare: na segunda você provavelmente terá que ser meio malabarista! 

Agora, os dados técnicos da foto principal e a primeira imagem que fiz da Cachoeira Bicame:
Câmera Nikon D810
– Objetiva Nikon 16-35 f/4 @ 16mm
Filtro polarizador + filtro de densidade neutra 10 stops
Tripé
Exposição: ISO 200, abertura f/8 e velocidade 30s.

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Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

4 comentários em “Malabarismos da segunda vez

  • 29 de agosto de 2016 em 7:11 PM
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    Eu já fotos lindas, mais as que o Marcos Amend ,fico sem palavras para faz tem desafios para registrar momentos único.
    Parabéns Amend. Se eu tivesse um pouquinho mais de pernas ia enfrentar acompanhar em alguma expedições.
    A minha Câmera NIKON -D 3200….Parabéns pelo lindo trabalho que faz.

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    • 31 de agosto de 2016 em 8:28 PM
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      Clery, obrigado pelo elogio tão gentil! E sempre há expedições que são bem tranquilas. Quem sabe uma hora vamos juntos am alguma?

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  • 30 de agosto de 2016 em 10:26 PM
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    Inspiração para estar sempre melhorando, mantendo o bom amadorismo o mais proximo possível do grande profissional Marcos Amend. Parabéns Marcos!!!

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    • 31 de agosto de 2016 em 8:31 PM
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      Lucas, amador e profissional fala muito mais sobre o tipo de relação que você tem com a fotografia do que sobre os resultados que você tem com ela. Mesmo tendo me tornado um profissional (porque vendo fotos sistematicamente), nunca deixei de ser um amador (no sentido mais puro da palavra). Estamos juntos!
      Abraço

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