Mais de 60 organizações apresentam ações concretas para combater a devastação da Amazônia, entre elas, uma moratória ao desmatamento

Mais de 60 organizações apresentam ações concretas ao governo para combater a devastação da Amazônia, entre elas, uma moratória ao desmatamento

Em qualquer país do mundo, organizações da sociedade civil são sempre importantes parceiras de governos para ajudar a propor soluções e combater problemas econômicos, sociais e ambientais que o poder público não tem capacidade de administrar sozinho. No Brasil, essas entidades sempre foram aliadas fundamentais para conter o desmatamento e realizar ações de preservação à biodiversidade.

Infelizmente, desde que assumiu o governo, o presidente Jair Bolsonaro e vários de seus ministros decidiram tratar essas organizações como “inimigas”. Através de decretos, membros da sociedade civil foram retirados de vários comitês e comissões que discutem medidas na área ambiental. E a contribuição de especialistas e acadêmicos, com anos de experiência, foi completamente rechaçada e ignorada.

Apesar disso, as organizações brasileiras não se intimidam e continuam dispostas a colaborar com o governo e o Brasil. Hoje, 62 delas divulgaram um documento em que propõem cinco medidas concretas e emergenciais para estancar o desmatamento da Floresta Amazônica, que mês a mês, apresenta altas recordes nas taxas de destruição da floresta (veja os atuais índices nos links para outras reportagens ao final desse texto).

“Todas as medidas elencadas na carta são factíveis. Algumas delas são inclusive obrigações constitucionais, que o governo não está cumprindo”, diz Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, uma das redes signatárias. “O objetivo é resolver uma situação aguda na qual o paciente — no caso, a Amazônia — está sob risco de vida para depois discutirmos as medidas estruturantes que permitirão a recuperação do doente. Algumas delas, aliás, já constavam no plano de prevenção e controle do desmatamento enterrado pelo governo Bolsonaro.”

O documento foi entregue aos presidentes da Câmara e do Senado, a investidores estrangeiros e a parlamentares brasileiros e europeus. No texto, os signatários lembram que o Brasil, no começo do século, conseguiu reduzir a taxa de desmatamento e ao mesmo tempo ampliar a produção agropecuária e o PIB.

“O atual governo, porém, não apresenta qualquer resquício de interesse ou capacidade em seguir este caminho. Suas ações baseiam-se em medidas falaciosas e campanhas publicitárias que tentam mascarar a realidade. Mesmo o envio de forças militares para a Amazônia tem sido pouco eficaz”, afirmam.

“Dentre as razões para toda esta situação está a postura irresponsável do Presidente da República, que pratica uma agenda antiambiental e anti-indígena perversa e declarada, atentando contra a própria Constituição. Como consequência, investidores e empresas internacionais ameaçam retirar seus negócios do Brasil, intensificando a crise econômica, ameaçando empregos e agravando o quadro de desigualdade e pobreza do país”, destacam.

As cinco medidas contra o desmatamento

  1. Moratória do desmatamento da Amazônia
    – Proibição de qualquer desmatamento na Amazônia por no mínimo 5 (cinco) anos, com exceções para ações de subsistência e de populações tradicionais, agricultura familiar, planos de manejo, obras de utilidade pública e de segurança nacional.
  2. Endurecimento das penas a crimes ambientais e desmatamento
    – Aumento de penas para o desmatamento ilegal, mandantes e financiadores de crimes ambientais, fundiários e invasão e comercialização ilegal de terras públicas.
    – Criação de força-tarefa para repressão a crimes fundiários, em especial grilagem de terras e invasão de terras públicas.
    – Criação de força-tarefa para a expulsão de invasores e o cessar de todas as atividades ilegais em territórios de povos e comunidades tradicionais, principalmente terras indígenas e arredores, como grilagem, desmatamento, roubo de madeira, garimpo, pecuária e mineração ilegal.
    – Congelamento imediato de bens dos cem maiores desmatadores ilegais do país.
    – Extremo rigor na aplicação da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998 e Decreto nº 6.514/2008), incluindo a realização de embargos e a destruição dos equipamentos utilizados para a prática de crimes ambientais.
  3. Retomada imediata do PPCDAm – Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal
    – Retomada imediata das medidas e ações governamentais previstas nos quatro eixos do PPCDAm (Ordenamento Fundiário e Territorial; Monitoramento e Controle;
    – Fomento às Atividades Produtivas Sustentáveis; Instrumentos Econômicos e Normativos), incluindo garantia de recursos e a publicação de cronogramas, prazos e plano de implementação, com prestação de contas transparente e participação social.
  4. Demarcação de terras indígenas, quilombolas e criação, regularização e proteção de Unidades de Conservação
    – Homologação imediata das terras indígenas já demarcadas.
    – Demarcação imediata das áreas indígenas com processos em trâmite no Governo Federal.
    – Proteção de todas as terras indígenas, independente de seu estágio de regularização, com atenção especial as terras ocupadas por povos em isolamento voluntário ou de recente contato.
    – Implementação e consolidação efetiva das unidades de conservação já criadas.
    – Criação de 10 milhões de hectares de unidades de conservação, considerando o mapeamento das áreas prioritárias, sítios de gestão integrada e novas áreas estratégicas para a conservação da biodiversidade e combate ao desmatamento.
    – Titulação dos territórios quilombolas. Reconhecimento e regularização dos territórios quilombolas requisitados.
  5. Reestruturação do Ibama, ICMBio e Funai
    – Restituição das competências e condições institucionais do Ibama e ICMBio para que retomem o seu protagonismo no combate ao desmatamento e crimes ambientais.
    – Realização com urgência de concurso para analistas ambientais do Ibama e ICMBio, destinados prioritariamente à fiscalização ambiental.
    – Substituição dos gestores das três autarquias que não são técnicos da área por pessoal especializado.
    – Restituição das responsabilidades institucionais da Funai, voltadas à proteção e promoção dos direitos indígenas, principalmente relacionadas com a demarcação e proteção das terras indígenas.

*Essas medidas emergenciais devem ser implementadas sem prejuízo de políticas estruturantes, como programas e projetos que visem o desenvolvimento sustentável, a retomada do Fundo Amazônia e Fundo Clima, os pactos com o setor produtivo e o reforço dos investimentos verdes, grande parte destes já previstos no próprio PPCDAm

Instituições que assinam a carta

  1. Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB
  2. Observatório do Clima
  3. Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – CONAQ
  4. Articulação Nacional de Agroecologia – ANA
  5. Conselho Nacional de Seringueiros – CNS
  6. Central Única dos Trabalhadores – CUT
  7. Associação Brasileira de Organizações não Governamentais – ABONG
  8. Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS)
  9. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST
  10. Grupo Carta de Belém
  11. Rede Brasileira de Educação Ambiental – REBEA
  12. Rede GTA – Grupo de Trabalho Amazônico
  13. GT Infraestrutura
  14. APREMAVI
  15. Instituto Socioambiental – ISA
  16. WWF Brasil
  17. Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC
  18. Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia – Imazon
  19. Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola – Imaflora
  20. FASE – Solidariedade e Educação
  21. Projeto Hospitais Saudáveis
  22. Uma gota no oceano
  23. SOS Amazonas
  24. Instituto de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia – Idesam
  25. Mater Natura
  26. Engajamundo
  27. APREC – Ecossistemas Costeiros
  28. Climainfo
  29. Instituto Democracia e Sociedade – IDS
  30. Instituto Centro de Vida – ICV
  31. Instituto Internacional de Educação do Brasil – IIEB
  32. Amigos da Terra – Amazônia Brasileira
  33. 350.org
  34. Projeto Saúde e Alegria
  35. BVRio
  36. Grupo de Estudos em Educação e Meio Ambiente – GEEMA
  37. Rede de Educadores Ambientais da Baixada de Jacarepaguá
  38. Elo RJ – Rede de Mulheres Ambientalistas da América Latina
  39. Comitê Chico Mendes
  40. Terra de Direitos
  41. Memorial Chico Mendes
  42. Associação Etnoambiental Kanindé
  43. Defensores do Planeta
  44. Associação Agroecologia Tijupá
  45. Argonautas Ambientalistas da Amazônia (Belém-PA)
  46. Rede de Educação Ambiental e Políticas Públicas – REAPOP (Nacional)
  47. Teko Porã Amazônia (Belém-PA)
  48. Amazon Watch
  49. Instituto de Pesquisas Ecológicas
  50. Greenpeace Brasil
  51. Rede de Educação Ambiental da Bahia – REABA
  52. Associação Cultural APA Itacaré Serra Grande
  53. Associação Alternativa Terrazul
  54. Toxisphera – Associação de Saúde Ambiental
  55. Associação de Defesa do Meio Ambiente de Araucária – AMAR
  56. Movimento SOS Cerrado
  57. Rede de Educação Ambiental do Paraná
  58. International Rivers
  59. Rede de Educação Ambiental da Costa Verde
  60. Rede de Educação Ambiental do RJ – REARJ
  61. Operação Amazônia Nativa – OPAN
  62. Fundação Amazônia Sustentável – FAS

Leia também:
Milhares de britânicos assinam petição pelo boicote da carne da JBS, associada ao desmatamento na Amazônia
Ministério do Meio Ambiente tenta reduzir meta de desmatamento na Amazônia aprovada pelo Congresso em 2019
Julho tem aumento de quase 30% no número de queimadas na Amazônia e num único dia recorde dos últimos 15 anos
Brasil lidera ranking de países com maior perda florestal na última década

Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Deixe uma resposta