Mais de 250 mil crianças na África podem ser salvas, por ano, com nova vacina contra a malária

Mais de 250 mil crianças na África podem ser salvas, por ano, com nova vacina contra a malária

A cada dois minutos, uma criança morre por causa da malária. Na África Subsaariana, onde ocorrem mais de 90% dos casos globais da doença, transmitida por um mosquito, são 260 mil vítimas por ano: a maioria delas tem menos de 5 anos. Mas o anúncio da Organização Mundial de Saúde (OMS) feito ontem, 06/10, pela recomendação para o uso em larga escala de uma nova vacina contra a malária pode mudar essa realidade.

“Essa é uma conquista histórica. A tão esperada vacina contra malária é um avanço para a ciência, para a saúde infantil e para o controle desta doença”, declarou Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. “A aplicação desta vacina além das ferramentas existentes para prevenir a malária pode salvar dezenas de milhares de vidas jovens a cada ano”.

A recomendação acontece após os bons resultados obtidos por um teste piloto feito desde 2019 com um imunizante produzido pela farmacêutica GlaxoSmithKline, envolvendo mais de 800 mil crianças em Gana, no Quênia e em Malawi, onde já foram aplicadas mais de 2,3 milhões de doses da vacina. Foram 30 anos de testes e pesquisas para o desenvolvimento do produto.

A vacina RTS, S atua contra o P. falciparum, o parasita da malária mais mortal em todo o mundo e o mais prevalente na África. Entretanto, por esta razão, ela não deverá ser usada no Brasil, principalmente na região amazônica, onde outro tipo de parasita é encontrado (entenda melhor mais abaixo).

A malária está presente em 88 países. De acordo com a OMS, Em 2019, foram 229 milhões de casos no mundo, com 409 mil mortes.

A malária

A malária humana é uma doença parasitária que pode ter evolução rápida e ser grave. Ela pode ser provocada por quatro protozoários do gênero Plasmodium: Plasmodium vivax, P. falciparum, P. malariae e P. ovale. No Brasil, somente os três primeiros estão presentes, sendo o P. vivax e o P. falciparum as espécies predominantes. A transmissão natural da doença se dá pela picada de mosquitos do gênero Anopheles infectados com o Plasmodium. Estes mosquitos também são conhecidos por anofelinos, dentre outros nomes.

Após a picada, os parasitos chegam rapidamente ao fígado onde se multiplicam de forma intensa e veloz. Em seguida, já a corrente sangüínea, invadem os glóbulos vermelhos e, em constante multiplicação, começam a destruí-los. A partir desse momento, aparecem os primeiros sintomas da doença. A doença também pode ser adquirida por meio do contato direto com o sangue de uma pessoa infectada (como por exemplo, em transfusões sangüíneas ou transplante de órgãos ou ainda pelo compartilhamento de seringas entre usuários de drogas injetáveis).

A principal manifestação clínica da malária em sua fase inicial é a febre, associada ou não a calafrios, tremores, suores intensos, dor de cabeça e dores no corpo. A febre na malária corresponde ao momento em que as hemácias estão se rompendo. A pessoa que contraiu a doença pode ter também, dentre outros sintomas, vômitos, diarréia, dor abdominal, falta de apetite, tonteira e sensação de cansaço.

É o tempo transcorrido entre a picada do mosquito infectado e o aparecimento dos primeiros sintomas. Ele pode variar de 8 a 30 dias ou até mais, dependendo da espécie de Plasmodium, da carga parasitária injetada pelo mosquito no momento da picada e do sistema de defesa do paciente. Durante esse período, que corresponde à fase em que o Plasmodium está se reproduzindo no fígado do indivíduo, não há sintomas.

A malária é uma doença que tem cura, mas pode evoluir para suas formas graves em poucos dias se não for diagnosticada e tratada rapidamente, principalmente a causada pelo P. falciparum, que deve ser sempre considerada como uma emergência médica. O diagnóstico e o tratamento tardios podem resultar no agravamento da doença com quadros de anemia grave, insuficiência renal e hepática e coma, dentre outras complicações clínicas. Praticamente, todos os órgãos e sistemas podem ser comprometidos. Crianças, mulheres grávidas, pessoas idosas ou debilitadas por outras doenças (infecciosas ou não infecciosas) são mais vulneráveis. Entretanto, qualquer pessoa que esteja se infectando pela primeira vez pode desenvolver quadros de malária grave.

Diagnosticar e iniciar o tratamento correto na fase inicial da doença pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Essa medida, além de evitar a evolução da malária para suas formas graves, diminui também a possibilidade de ocorrência de novos casos, se o doente com malária permanecer nas áreas de transmissão.

(o texto logo acima, sobre a malária, é de autoria da Fundação Oswaldo Cruz)

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Foto: © Dominic Chavez/World Bank/Creative Commons/Flickr

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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