Mais de 15 mil livros ‘invadem’ os complexos do Alemão e da Penha para marcar 10 anos de ocupação policial

“Quero doar 10 mil livros nos Complexos do Alemão e da Penha na semana que vem. É ousado? É. Mas a gente precisa fazer essa invasão literária para marcar que nao teve mudança nenhuma em dez anos de ocupação da polícia aqui dentro. Os mesmos problemas daquela época continuam”.

Assim, René Silva, morador do Complexo do Alemão e fundador do jornal comunitário Voz das Comunidades, lançou a ideia de distribuir livros nas duas comunidades no mesmo dia (28 de novembro) em que, há uma década, uma megaoperação da Polícia Militar e Exército ocupou as duas comunidades. A ação levava uma promessa do governo: inaugurar uma nova fase na segurança com as Unidades da Polícia Pacificadora (UPPs) e incrementar políticas sociais.

Vale ressaltar, aqui, que René ficou conhecido por transmitir, em tempo real, a invasão no Complexo do Alemão, em 2010. Devido a esse trabalho corajoso, foi reconhecido por sua influência e atuação pela pela organização Mipad (Most Influential People Of African Descente), de Nova York, e também pela revista Forbes Brasil, que premia pessoas afrodescendentes influentes (como noticiamos aqui).

Ocupação policial em 2010 em foto de Renato Moura, da Voz das Comunidades

Sua intenção com a Invasão de Livros era chamar a atenção da população e das autoridades para o descaso com o qual os moradores dos dois complexos têm sido tratados.

René ousou em sonhar com 10 mil exemplares, mas em três dias de campanha, a Bienal e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) angariaram 15,5 exemplares, com o envolvimento de 22 editoras (lista no final deste post) e autores nesta bela causa.

“O que me motivou a fazer a Invasão de Livros nos Complexos do Alemão e da Penha foram os dez anos que o poder público teve para transformar a realidade dos dois maiores conjuntos de favelas e não fez nada!”, contou ele ao site Voz das Comunidades. E continuou:

“Não é uma ação de confraternização e comemoração desses dez anos, é uma ação para reafirmar que queremos a invasão de livros, de cultura, música, ação social e investimentos nas áreas em que não houve investimentos. Durante esses dez anos, o poder público só colocou dinheiro na polícia e nos tirou a Nave do Conhecimento, a biblioteca, o parque e o teleférico”.

Sergio Cabral, ex-governador do Rio que está preso, chegou a realizar algumas das promessas que fez para as duas comunidades – intervenções urbanas, serviço de telefonia e TV por assinatura, agência bancária, cinema e até um teleférico inspirado no de Medellin, que revitalizou a cidade colombiana -, mas tudo logo se perdeu.

Dessa forma, a ocupação se caraterizou mais pelo uso da força e da truculência policial, abandonando a ideia de inclusão social.

Livros, não armas

Representatividade nos temas dos livros selecionados / Foto: Voz das Comunidades

Para tornar seu sonho viável, René contou com doações pessoais e também convidou a Bienal do Livro do Rio de Janeiro para participar. A Bienal, por sua vez, convidou editoras para integrar a força-tarefa e 22 aderiram à iniciativa.

Em vez de armas, livros invadiram o morro e foram doados para todos os moradores- adultos, velhos e crianças de diversos gêneros e idades. Tocaram o coração de cada um e levaram esperança.

Foto: Voz das Comunidades

Entre os infantis, Amoras de Emicida, Pequeno Principe Preto de Rodrigo França e Malala de Adriana Carranca. Para os adultos, Uma Terra Prometida de Barack Obama, Pequeno Manual Antirracista de Djamila Ribeiro, Na Minha Pele de Lázaro Ramos, O Sol na Cabeça de Geovani Martins.

Gael Sampaio (6 anos), Agatha Vitória (7) e Karolaine (6), da comunidade
Florestamento, no Complexo da Penha amaram seus livros
Foto: Voz das Comunidades

Os livros foram entregues por um “batalhão” de 100 voluntários nas ruas e vielas das duas comunidades, em ação similar às de distribuição de cestas básicas. Só que, as sacolas, desta vez, estavam cheias de livros. 

Parte dos voluntários que participaram da Invasão de Livros
Foto: Voz das Comunidades

Nas redes sociais é possível acompanhar como foi essa “invasão do conhecimento” pela hashtag #invasãodelivros.

Ao longo do dia, tanto René como os voluntários que participaram da ação relataram, em suas redes sociais, que algumas crianças revelaram que “só tinham acesso a livros na escola e que, com a pandemia e as escolas fechadas, não leram nada este ano”. Já alguns adultos contaram que “nunca tiveram a oportunidade ou interesse de ler um livro, mas que poderiam criar esse hábito a partir desta invasão“.

René destaca que os livros distribuídos com a Invasão vão atualizar os acervos das bibliotecas comunitárias do entorno. Isso contribuirá para a formação de novos leitores e também com a educação de jovens e crianças.

René Silva em foto de Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Eis as editoras que formaram esta rede de solidariedade em defesa da democratização do acesso ao livro e à leitura nos Complexos do Alemão e da Penha: Arqueiro, Astral Cultural, Arole Cultural, Companhia das Letras, Ediouro, Aruanda, Estrela Cultural, Máquina de Livros, Rocco, FGV, Globo Livros, Grupo Record, Harpercollins Brasil, Intrínseca, Leya Brasil, Saber e Ler/Instituto Sabrina Sato, Lamparina, Ler Editorial, Pallas, The Gift Box, Sextante e Valentina.

Foto (destaque): Vilma Ribeiro/Voz das Comunidades

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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