Mais de 100 profissionais do Inpe têm trabalho suspenso por falta de verba

Mais de 100 profissionais do Inpe tem trabalho suspenso por falta de verba

Em 2021, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) completa 60 anos. Ao longo das últimas seis décadas, o órgão ganhou o respeito e a confiança não apenas dos brasileiros, como no exterior também. O PRODES, sistema pioneiro da instituição, baseado em satélites para monitorar o desmatamento da Amazônia, possui mais de mil citações na literatura científica pela excelência de seus dados. 

Como instituição pública de pesquisa, o Inpe acompanha as inovações científicas e tecnológicas na área de observação da terra por satélites, para a constante melhoria de seus sistemas de monitoramento e, desde 1972, coordena um curso de pós-graduação em sensoriamento remoto com o mais alto conceito da CAPES.

Mas infelizmente, apesar de seu extenso e reconhecido trabalho pelo meio ambiente do país, o Inpe vem sofrendo constantes ataques e cortes no orçamento desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência (confira breve histórico mais abaixo).

E o mais recente deles é a suspensão do trabalho de 107 pesquisadores do instituto por falta de verbas. Em nota divulgada em seu site, o Inpe informa que “está empenhado em obter os recursos orçamentários requeridos para manter o pagamento regular das bolsas PCI*”.

De acordo com o portal de notícias G1, os profissionais atuam como bolsistas de capacitação em áreas que vão do lançamento de satélites ao monitoramento de desastres. O valor para manter o pagamento das bolsas seria de R$ 4 milhões.

Alguns dos cientistas que tiveram seus pagamentos suspensos estão envolvidos no programa do Amazônia 1, primeiro satélite totalmente brasileiro que deve ser lançado na Índia no fim do mês.

Os profissionais relataram surpresa ao receber um comunicado do Inpe com o pedido da suspensão de suas atividades. As bolsas têm duração de cinco anos e são renovadas automaticamente sempre no mês de fevereiro.

Cortes no orçamento

Como noticiamos aqui no começo de dezembro, já havia sido anunciado corte de 15% no orçamento do Inpe em 2021. A informação foi revelada pelo ministro Marcos Pontes, no mesmo dia em que os dados do instituto apontaram que a Amazônia teve o índice mais alto de destruição da floresta dos últimos 12 anos.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) responde ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

Em agosto de 2020, jornalistas da Folha de S. Paulo tiveram acesso a uma planilha do Inpe para 2021 que mostrava que o orçamento para pesquisa, desenvolvimento e “capital humano” estava zerado.

De acordo com a reportagem da Folha na época, o instituto teve um orçamento de R$ 118 milhões em 2020, mas a previsão para 2021 já era de queda, para R$ 79 milhões, redução de aproximadamente 33%.

Críticas e insultos ao Inpe

O atual governo nunca conseguiu esconder seu desconforto com as taxas de desmatamento (em franco crescimento) apontadas pelo Inpe. Em 2019, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mencionou que estaria pensando em contratar empresas privadas para realizar o monitoramento da Amazônia. E não foi só ele. Diversos outros integrantes do atual governo tentam, de qualquer forma, desqualificar o trabalho do instituto.

A situação chegou a um nível tão constrangedor, que cientistas refutaram as declarações do governo contra o órgão, em nota à sociedade e carta a Bolsonaro. No documento, mais de 50 integrantes da Coalizão Ciência e Sociedade defenderam o instituto, que é estratégico não só para o controle do desmatamento e a regulação das mudanças climáticas, mas também para a preservação da biodiversidade e a sustentabilidade da economia, incluindo o agronegócio.

Os ataques continuaram com Bolsonaro criticando em público, de maneira vil e baixa, não apenas o Inpe, mas seu diretor, Ricardo Galvão.

“Se for somado o desmatamento que falam dos últimos 10 anos, a Amazônia já acabou. Eu entendo a necessidade de preservar, mas a psicose ambiental deixou de existir comigo”, disse o presidente. E ele foi além. “A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão… Mandei ver quem está à frente do Inpe. Até parece que está a serviço de alguma ONG, o que é muito comum”.

O resultado foi a exoneração de Galvão, que no mesmo ano, foi escolhido para estar na lista dos 10 Cientistas do Ano pela publicação científica Nature, uma das mais renomadas e respeitadas do mundo.

*Programa de Capacitação Institucional 

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Foto: reprodução Facebook Inpe

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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